“Da minha parte, é bom ser a primeira mulher francesa a ganhar esse prêmio, e com uma escrita que possa ser fonte de liberdade.” Foi com declarações assim que a escritora francesa Annie Ernaux marcou sua passagem recente pelo Brasil, durante mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O prêmio a que a autora se refere é nada menos que o Nobel de Literatura, com o qual foi laureada em 2022 pela Academia Sueca, que afirmou que sua obra “examina, de forma consistente e a partir de diferentes ângulos, uma vida marcada por fortes disparidades de gênero, língua e classe”.A premiação máxima na literatura mundial à autora francesa – apenas a 17ª mulher a ganhar o Nobel de Literatura em 117 edições – coroa, de certa forma, um 2022 em que elas foram as protagonistas. A Flip, por onde Annie Ernaux passou como grande estrela, liderando as vendagens durante o evento – seus livros no Brasil, como O Acontecimento e O Jovem, são editados pelo selo independente Fósforo –, também foi pautada por debates quentes que envolveram misoginia, racismo e homofobia, entre outros temas.Essa postura já estava na autora homenageada da própria Flip deste ano, Maria Firmina dos Reis, mulher negra que no século 19 escrevia sobre as chagas da escravidão quando o regime estava em vigor no País, lançando o livro Úrsula, em 1859. Nascida em São Luís do Maranhão há 200 anos, Maria Firmina viveu quase um século – morreu aos 95 –, sendo uma pioneira em muitos sentidos. Neste ano de tantas efemérides, como o bicentenário da Independência e os 100 anos da Semana de Arte Moderna, Maria Firmina foi recordada dentro de um movimento de resgate de referências que ficaram à margem com o tempo.A festa trouxe discussões que foram pautadas por nomes que não integram a lista de mais vendidos, mas que estão atentos às transformações sociais e às vozes que quase sempre foram silenciadas. Autoras trans, como Amora Moira e Camila Sosa Villada, tiveram espaço na programação, assim como mulheres negras, como a norte-americana Saidiya Hartman, professora da Universidade de Columbia em estudos afro-americanos, e a brasileira Ana Maria Gonçalves, autora do best-seller Defeito de Cor. Em alguns momentos, os debates ficaram acalorados.Essa linha de atuação da Flip, de privilegiar nomes menos conhecidos, muitas vezes que publicam em editoras menores, também se refletiu na principal premiação da literatura brasileira. O Prêmio Jabuti 2022, entregue em novembro, teve um número expressivo de vitórias de mulheres. A pernambucana Micheliny Verunschk, com O Som do Rugido da Onça, levou na categoria romance literário. Ela também tem títulos publicados pelo selo goiano Martelo. As mulheres ganharam ainda nas categorias poesia (Luiza Romão), conto (Eliana Alves Cruz), infantil (Silvana Tavano) e juvenil (Ana Elisa Ribeiro).Outros livros que ganharam o Jabuti também revelaram uma preferência por temáticas mais engajadas. É o caso do segundo volume de Escravidão, do jornalista Laurentino Gomes – em 2022, ele lançou o derradeiro livro da trilogia, mas o Jabuti refere-se sempre à produção literária do ano anterior. O livro-reportagem era um dos favoritos, mas a concorrência era dura, vencendo, entre outros, a biografia de Lula, escrita por Fernando Morais. Quem também ganhou o troféu foi Enciclopédia Negra, de Jaime Lauriano, Flávio dos Santos Gomes e Lilia Schwarcz, um grande levantamento da cultura afro no Brasil.A retrospectiva de literatura deu início a uma série, que o POPULAR publicará aos sábados, no mês de dezembro, para relembrar os principais fatos em diferentes áreas da cultura. No próximo fim de semana o assunto será música.DESTAQUES NA LITERATURAA grande damaPoucos nomes se igualam em importância na literatura brasileira ao da escritora paulista Lygia Fagundes Telles. Autora de livros marcantes, como As Meninas e Seminário dos Ratos, ela foi inovadora em sua prosa, dando outros sentidos a personagens femininas, desenvolvendo-as de forma mais contemporânea e enfrentando tabus. Ativa na cena literária nacional por décadas, integrante da Academia Brasileira de Letras e prestigiada internacionalmente, Lygia foi uma imensa perda de 2022. Quando morreu, estava prestes a completar 99 anos de idade, apesar de haver a versão de que tenha nascido em 1918.Um ataque covardeA cena, num encontro literário nos EUA, era a mais temida pelo escritor anglo-indiano Salman Rushdie. Desde que publicou a controversa obra Os Versos Satânicos, no final dos anos 1980, e teve uma sentença de morte expedida contra si pelo então líder religioso fundamentalista do Irã, o Aiatolá Khomeini, Rushdie teve sua vida transformada. Precisou morar em esconderijos e recebia ameaças constantes. 34 anos depois, um homem tentou cumprir a sentença, esfaqueando-o na frente de uma plateia em 12 de agosto. Atendido às pressas, teve a vida salva, mas perdeu um dos olhos e parte dos movimentos de um braço.Prêmio CamõesMais um nome da literatura brasileira foi agraciado com o Prêmio Camões, o mais cobiçado na área em língua portuguesa. Em 2022, o escolhido para receber a honraria foi o ensaísta, romancista e contista Silviano Santiago. A obra do autor é ampla e variada. Só de trabalhos em crítica literária ele tem mais de 30 títulos publicados. Doutor em Letras Francesas pela Universidade Sorbonne, em Paris, desde os anos 1960 Silviano tornou-se uma referência na análise da literatura em diversos idiomas, sendo também traduzido em numerosos países. Também como ficcionista, já ganhou o Prêmio Jabuti com o romance Machado.Centenário de um Nobel Único autor em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura até hoje, o escritor português José Saramago teve seu centenário de nascimento lembrado e celebrado em diversas partes do mundo, sobretudo em Portugal e no Brasil. Dono de uma prosa que instiga pelas temáticas e pela forma com que é realizada, Saramago é o autor de livros como Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e as Intermitências da Morte. Leituras de seus textos, peças de teatro baseadas em seu trabalho e lançamento de novas edições de seus títulos foram algumas das iniciativas deste ano de comemoração.Dez excelentes lançamentos do anoAniquilar (Michel Houellebecq) – De um dos autores mais polêmicos da atualidade, mais uma obra do escritor francês de Submissão chegou ao Brasil já em novembro. Ele faz uma mescla de humor, sátira política, terrorismo e desilusões familiares – ingredientes com que costuma trabalhar – para tecer mais uma crítica ácida à sociedade disfuncional que temos.Murphy e Watt (Samuel Beckett) – Obras de um dos mais intensos e inovadores dramaturgos do século 20 ganharam reedições recentes no Brasil, com um tratamento editorial de luxo e novas leituras sobre peças que ajudaram a mudar o teatro contemporâneo. Além do que, Beckett sempre traz excelentes reflexões sobre a vida.Futuro Ancestral (Ailton Krenak) – Um dos principais nomes a produzir registros da sabedoria dos povos originários, esta sua nova obra dá uma dimensão ainda mais profunda sobre o pensamento e o imaginário que movem culturas quase sempre desprezadas. Um convite a ver o mundo, a vida e a natureza com outros olhos, outras abordagens.O Negócio do Jair (Juliana Dal Piva) – Num ano em que as paixões políticas ficaram à flor da pele, este livro da jornalista do portal UOL descortina negócios obscuros do presidente que tentou a reeleição ao cargo e perdeu. As muitas histórias sem explicação envolvendo Jair Bolsonaro e sua família foram apuradas por anos até chegar a esta reportagem.Do Começo ao Fim (Marcelo Rubens Paiva) – Uma grande e forte história de amor que não deu certo. Esse mote orienta este novo romance do autor do clássico Feliz Ano Velho. Aqui, uma paixão de juventude e que envolve outras pessoas vai marcar para sempre a vida de um homem e uma mulher que, muito tempo depois, vão rever o passado e acertar contas.Em Busca de Mim (Viola Davis) – A trajetória cheia de obstáculos de uma menina negra que sonhou em ser uma estrela, conseguindo realizar seu objetivo, é narrada nesta autobiografia da atriz, que veio ao Brasil divulgar a obra. Ganhadora de um Oscar e nome influente de Hollywood, Viola Davis faz de sua vida um testemunho contra o preconceito.Não me Pergunte Jamais (Natalia Ginzburg) – Uma das autoras mais importantes da Itália no século 20, ela era muito ativa na imprensa. Esta coletânea de textos reúne vários dos trabalhos que ela publicou entre 1968 e 1970 no diário La Stampa em que revela as chaves de seu olhar sobre o mundo e, assim, suas formas de compreender e fazer literatura.Sul & Oeste (Joan Didion) – Jornalista icônica da junção entre informação e literatura, ela deixou obras que entraram para o cânone, sobretudo aquelas em que trata das próprias dores. Nesta obra, podemos ver um pouco dos bastidores de suas apurações, com anotações, rascunhos e impressões sobre viagens a várias partes dos EUA.O Passageiro (Cormac McCarthy) – Um dos romancistas mais celebrados em língua inglesa e autor de obras que já foram adaptadas para o cinema, como Onde os Velhos Não Têm Vez e A Estrada, Cormac apresenta este que é o primeiro volume de uma aventura cheia de sangue e culpas, bem ao seu estilo, pelo sul dos Estados Unidos nos anos 1980.Tarsila - Uma Vida Doce-Amarga (Mary del Priore) – Biografia que revela as muitas fases da vida da artista plástica mais famosa do Brasil e uma das ícones do Modernismo, esta obra acompanha os sucessos e as desventuras, sobretudo afetivas, de Tarsila do Amaral. O livro busca traçar um retrato com lirismo, algo sempre muito forte na trajetória da pintora.Despedidas em 2022Jô Soares – Além de ter sido um dos apresentadores e comediantes mais populares do Brasil, Jô Soares também foi um escritor de sucesso. Livros como O Xangô de Baker Street e O Homem que Matou Getúlio Vargas viraram best-sellers e ganharam adaptações. Jô morreu em 5 de agosto, aos 84 anos.Thiago de Melo – O poeta das águas, uma voz potente que ecoava desde a Amazônia. Com força e lirismo, era um defensor do meio ambiente, reforçando, em seus versos, a beleza e a importância da natureza, dos povos originários da floresta e a necessidade de preservar essas riquezas. Ele nos deixou em 14 de janeiro, aos 95 anos.Arnaldo Jabor – Cineasta inovador e jornalista combativo, Jabor, por muitos anos, foi uma opinião influente do Brasil, deixando também livros, sobretudo de crônicas. Entre seus títulos estão Eu Sei Que Vou Te Amar, que ele transpôs de um de seus filmes mais famosos, e Amor É Prosa, Sexo É Poesia. Ele morreu em 15 de fevereiro, aos 81 anos.Cândido Mendes – Membro da Academia Brasileira de Letras e autor de importante obra ensaística, Cândido Mendes foi advogado e professor, tendo fundado no Rio de Janeiro uma universidade com seu nome. Entre seus livros estão Nacionalismo e Desenvolvimento e A Razão Armada. O escritor morreu em 17 de fevereiro, aos 93 anos.Danuza Leão – Ela sempre foi sinônimo de elegância, na moda, na etiqueta e também na forma de escrever. Ex-mulher do jornalista Samuel Wainer e irmã da cantora Nara Leão, Danuza teve colunas prestigiadas em jornais e lançou livros de sucesso, como Na Sala Com Danuza e Quase Tudo. Morreu em 22 de junho, aos 88 anos.Olavo de Carvalho – Autor idolatrado entre conservadores e adeptos da extrema-direita no Brasil, Olavo de Carvalho, que se autointitulava filósofo, tinha grande influência sobre membros da chamada "ala ideológica" do governo Bolsonaro. Alguns de seus livros obtiveram sucesso de vendas. Morreu nos EUA, onde vivia, em 24 de janeiro, aos 74 anos.Cláudio Bojunga – Jornalista e biógrafo de renome, Cláudio Bojunga acumulou prêmios em sua carreira, como o Jabuti. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão a biografia de Juscelino Kubitscheck (JK, O Artista do Impossível) e do fundador do rádio no Brasil, Roquette-Pinto (O Corpo a Corpo com o Brasil). Morreu em 4 de maio, aos 82 anos.-Imagem (Image_1.2572828)