As chamadas “canetas emagrecedoras” vêm ganhando cada vez mais espaço nos consultórios. Quando bem indicadas, essas medicações podem fazer parte do tratamento da obesidade e do controle de doenças associadas. No entanto, um erro bastante comum é utilizá-las sem o devido acompanhamento nutricional, que é um pilar essencial para resultados seguros e duradouros. Uma dúvida frequente é: “Se com a caneta eu já consigo emagrecer, por que procurar um nutricionista?” Em primeiro lugar, é importante entender que a obesidade é uma doença crônica e, como tal, exige cuidado contínuo. Mesmo que a pessoa atinja um peso considerado adequado, o corpo mantém uma “memória” metabólica, com maior número de células de gordura em comparação a indivíduos que nunca tiveram excesso de peso. Esse é um dos fatores que favorecem o reganho de peso quando o estilo de vida não está ajustado. Além disso, o próprio processo de emagrecimento provoca alterações na regulação da fome, tornando necessário um cuidado ainda maior e a implementação de estratégias inteligentes para manter os resultados a longo prazo, como o aumento do consumo de alimentos com baixa densidade calórica, ricos em fibras, e o ajuste da quantidade de alimentos fontes de proteínas e fibras para o melhor controle da fome. Outro ponto importante diz respeito aos efeitos colaterais dessas medicações, como náuseas, enjoos e constipação intestinal. Nesse contexto, o nutricionista se torna peça-chave, pois existem estratégias simples que ajudam a minimizar esses desconfortos. Para náuseas, por exemplo, pode-se fracionar melhor as refeições, com porções menores ao longo do dia; evitar alimentos muito gordurosos, frituras e preparações muito condimentadas; reduzir o consumo de bebidas gaseificadas; avaliar, com orientação profissional, o uso de suplementos de gengibre. Já em casos de intestino preso, é fundamental: aumentar gradualmente o consumo de fibras, inclusive com suplementação, se necessário; manter uma boa hidratação ao longo do dia (vale lembrar que a ingestão de líquidos deve ser feita, preferencialmente, fora das grandes refeições e em pequenos goles para não piorar as náuseas, caso estejam presentes. Se os efeitos colaterais estiverem intensos e estejam impedindo uma alimentação adequada, é fundamental conversar com o médico sobre a possibilidade de ajuste da dose para que não haja prejuízos à saúde. Para além dos efeitos colaterais, o acompanhamento nutricional é essencial, pois garante a qualidade da alimentação e previne deficiências nutricionais, algo comum, já que essas medicações promovem a redução significativamente do volume alimentar. Outro ponto de atenção é o período após a suspensão do medicamento. Sem a medicação, a fome tende a aumentar devido a alterações hormonais decorrentes do emagrecimento, e o risco de reganho de peso pode ser rápido, especialmente se os hábitos alimentares não tiverem sido consolidados. O reganho de peso pode ser ainda mais problemático caso não tenha sido realizada atividade física adequada, pois as chances de perdas musculares aumentam. E se essas atividades não forem realizadas após o desmame da medicação, o reganho de peso tende a ser prioritariamente de gordura, já que massa muscular depende de estímulos. Isso faz com que a pessoa passe a ter mais gordura e menos músculos que antes do tratamento. Esse impacto pode ser minimizado com uma alimentação adequada e exercícios físicos programados. Diante de tudo isso, fica claro: as canetas emagrecedoras podem ser uma ferramenta útil, mas não substituem um cuidado completo. O sucesso do tratamento está na abordagem multidisciplinar com acompanhamento médico, nutricional, psicológico, entre outros profissionais.