Poucos aparelhos, uma transmissão amadora e cheia de problemas técnicos, a reação do público variando entre a curiosidade e a completa indiferença. Quando a Tupi emitiu o sinal pioneiro de uma emissora de TV no Brasil, em 18 de setembro de 1950, não seria de admirar que alguém, vendo aquela estreia, duvidasse de seu futuro. A novidade, que se consolidava nos Estados Unidos desde os anos 1930, chegou com atraso ao Brasil, pelas mãos pelo polêmico magnata da mídia Assis Chateaubriand e tendo no rádio um concorrente que parecia imbatível. Pouca gente poderia desconfiar que estava presenciando o início de uma revolução.Uma revolução que não termina nunca e é feita incessantemente, acompanhando as novidades que surgem a cada tempo. Essa inquietude da TV, que a faz mudar de cara constantemente, é o que o POPULAR vai mostrar nesta que é a primeira de uma série de reportagens sobre os 70 anos de sua chegada ao Brasil. As matérias serão publicadas quinzenalmente, deste sábado até setembro, quando aquela emissão inicial completa sete décadas. Nessa jornada inicial, será falado sobre como esse meio é, hoje, completamente diferente do que já foi um dia, agregando formatos e plataformas, interações e linguagens, promovendo experiências e sensações únicas.Do Bombril ao 8KNa imagem, mal se conseguia distinguir o que era gente e o que era objeto. Formas um tanto embaçadas circulavam naquela tela dentro de um caixote, de onde também saíam sons. Um cinema portátil, para alguns. Uma bobagem que não merecia atenção, para outros. Uma corrida tecnológica sem fim para quem a colocava no ar, em operações que beiravam a temeridade, com equipamentos imensos e caros, e resultados nem sempre satisfatórios. O início da TV no Brasil teve a marca do pioneirismo, com seus erros e histórias icônicas.Uma trajetória cuja evolução pode-se medir pela qualidade da imagem que chega até nós hoje, 70 anos depois daqueles vultos e “fantasmas” fugidios. Esse tipo de problema teria vida longa na história da TV brasileira. Antenas ineficientes, improvisadas em perigosas instalações no telhado, ou em cima do aparelho, com pedacinhos de Bombril nas pontas para ajudar na recepção. Quando os equipamentos ficaram melhores, as emissoras fizeram investimentos e o Brasil ganhou um sistema de satélites, nos anos 1970, e foi melhorando.Tudo aconteceu aos poucos, enquanto a TV conquistava público e mercado. No início, porém, as condições eram muito complicadas. Em 1952, dois anos depois de sua instalação no Brasil, só existiam em todo o território nacional cerca de 11 mil televisores. Naquele ano, era inaugurada a TV Paulista, a terceira do Brasil, que se juntava às TVs Tupi de São Paulo e do Rio. Tateava-se um modelo de programação que pudesse seduzir telespectadores com seu conteúdo, já que com a imagem, seria difícil.Os registros da época mostram que as transmissões eram precárias, com muitos cortes, imagens que dançavam, som sem sincronia. Ainda que o equipamento que foi importado para inaugurar a TV no Brasil fosse de última geração, havia um problema crônico com os canais de transmissão. Em seus primeiros tempos, só um raio de 100 km em torno da emissora era atendido. Só no final de 1951 o Brasil passou a fabricar receptores, da marca Invictus.A importação das câmeras dos Estados Unidos, imensas e frágeis, foi uma operação de guerra, assim como o contrabando que o dono da Tupi, Assis Chateaubriand, providenciou dos 200 primeiros aparelhos de TV, distribuídos em residências e lojas para que alguém assistisse à estreia. Das três câmeras que chegaram para o grande dia, uma pifou antes do início da transmissão. Uma das suspeitas é que a água benta jogada para benzer o equipamento tenha danificado seus mecanismos eletrônicos. E o pior é que não havia ninguém que soubesse consertar aquilo.Com todos os contratempos, a TV foi ao ar e em seguida vieram outros canais, nos anos 1950 e 1960, com equipamentos mais modernos trazidos do exterior, ao mesmo tempo em que o preço dos aparelhos ficava mais acessível. Ao dar seu próximo grande salto tecnológico, a TV já era algo bem disseminado no Brasil, um sonho de consumo acalentado. E, quem já possuía um receptor preto e branco, passou a ambicionar algo a mais no início dos anos 1970, quando as imagens ganharam cores.A primeira transmissão colorida no País foi em 1972, na cobertura da Festa da Uva, em Caxias do Sul, realizada pela TV Difusora, de Porto Alegre. Teste que foi um sucesso e estimulou a vinda de aparelhos de TV colorida para o Brasil. A cor já fazia parte da programação de canais no exterior. Basta lembrar que a Copa de 1970, no México, foi filmada com a nova tecnologia, mas por aqui ela precisou de mais tempo para engrenar. Era necessário fazer uma mudança total nos equipamentos, com muito investimento, e a TV Globo tomou a frente desse processo.A primeira novela a cores foi O Bem Amado, de 1973. Logo, em 1974, o Jornal Nacional passou a ser transmitido no formato colorido. Dali por diante, as inovações tecnológicas tiveram um ritmo mais rápido. Nos anos 1980, veio o videocassete, que permitia gravar programas ou assistir conteúdos na hora que se desejasse. O controle remoto, inventado ainda nos anos 1950 nos EUA, caiu no gosto do brasileiro. Em 1988, o governo autorizou a instalação da TV a cabo no Brasil, causando mais um impacto nos hábitos nacionais de buscar seus conteúdos.Admirável mundo novoA revolução digital da TV mundial faria desses movimentos de transformação muito mais intensos e profundos. As primeiras experiências com a TV digital no mundo ocorreram em 1995 nos EUA e Japão, que criaram sistemas próprios de transmissão nesse novo modelo, substituindo o anterior, chamado de analógico, e que vedava diversas ferramentas de interação e de desenvolvimento na qualidade da imagem e do som. No Brasil, após muitas disputas políticas e econômicas sobre qual desses modelos adotar, a TV digital chegou em 2007.A TV brasileira ingressou, assim, na era da alta definição. Além de uma qualidade muito superior, ela possibilitou que outros serviços pudessem ser acrescidos, com o surgimento de novos equipamentos e variadas plataformas. Além disso, permitiu interações mais profundas com outros formas de comunicação, como a internet. “Hoje, praticamente todos os players que têm a TV tradicional estão inseridos nos aplicativos, na TV conectada”, enfatiza Carlos Cauvilla, diretor de Engenharia e Tecnologia de TV e Rádio do Grupo Jaime Câmara.Esses aplicativos têm mudado a forma de fazer e consumir os conteúdos da TV. Os aparelhos ficaram inteligentes, interligando vários equipamentos simultaneamente pela internet. Ao mesmo tempo, a TV migrou para o smartphone e o computador, principalmente quando se mescla ao cinema para abastecer os conteúdos de plataformas de streaming. “Além da tela tradicional na TV, você pode utilizar vários dispositivos conectados, incluindo a Smart TV, para consumir conteúdos, onde você quiser, da forma e como você quiser”, aponta Cauvilla.Acompanhar esses movimentos é o único caminho possível. “A TV Anhanguera e as emissoras do Grupo Jaime Câmara, desde a época do analógico, têm sido pioneiras no uso de tecnologias. Na transição do analógico para o digital, fomos a primeira rede de TV fora do eixo Rio-São Paulo a transmitir o sinal em HD, em alta definição. Também fomos agora, no Centro-Oeste, o primeiro grupo a transmitir no Globoplay essa plataforma conectada em todos os dispositivos, mantendo essa conexão com o telespectador”, enumera Cauvilla.Com novas demandas por interação a serem atendidas, a TV de hoje busca soluções criativas. “Desenvolvemos um aplicativo, o QVT (Quero Ver na TV), em que o telespectador pode se comunicar de forma direta. Numa plataforma no celular, ele consegue mandar para a gente conteúdo que pode ser exibido e tornar-se uma reportagem em nossos telejornais”, diz o diretor. “Essa evolução tecnológica nos deixa mais próximos do telespectador, para atendê-lo da melhor forma possível. A TV continuará a ser uma plataforma relevante”, complementa.Uma evolução que aponta para experiências ainda mais abrangentes, transformando a TV em algo muito além do que poderia imaginar a mente mais criativa de 70 anos atrás. “Já temos conteúdos produzidos em 4K para aparelhos inteligentes. Quem assina o Globoplay já pode experimentar isso. E, a caminho, nós já temos o 8K, que é de uma qualidade impressionante”, anuncia Cauvilha. “Além das resoluções do vídeo, existe também o áudio imersivo, que está tendo sua padronização finalizada e que fará parte dos novos modelos de telas.”Preparados para tanta inovação? Pois é melhor tomar fôlego, porque toda essa evolução está só começando. “Quando olhamos para o futuro, já temos tecnologias que serão o diferencial para quem vai consumir TV. Nossos desafios serão entender cada vez mais os hábitos dos nossos consumidores de mídia, entender o que eles desejam e levar isso pela tecnologia, nos conteúdos. No Brasil, de forma gratuita, a TV continuará sendo muito importante na vida de nossos telespectadores”, acrescenta Cauvilla.-Imagem (Image_1.2057277)-Imagem (Image_1.2057268)-Imagem (Image_1.2057267)