Um dia, Mayah acorda e decide fugir da própria realidade. Após terminar um relacionamento falido e pedir demissão de uma empresa racista, ela aluga um apartamento tão pequeno quanto a vida que deixou para trás. É nesse espaço estreito e apertado que Mayah se lança em uma jornada de amadurecimento e autodescoberta. Tal como a Alice escrita por Lewis Carroll, a personagem vivida por Taís Araujo na peça Mudando de Pele se vê obrigada a diminuir para finalmente conseguir crescer.Inspirado no premiado monólogo Shedding a Skin, da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a produção rompe com narrativas que reduzem pessoas negras à violência do racismo. No lugar da dor ou da morte, o que vemos em cena é uma mulher em metamorfose.“Já se falou muito sobre morte e sofrimento. Está no nosso histórico. Mas a gente não é só isso”, diz Araujo. “O absurdo da escravidão faz parte da nossa história, mas não define a gente. Eu me recuso a ser apenas isso.” Filha de imigrantes, Mayah trabalha em uma empresa formada majoritariamente por funcionários brancos. “Ela não pertence àquele ambiente”, diz Araujo. “Mas também não se reconhece no lugar de origem de seus pais.”A sensação de não pertencer a canto algum, aliás, é um relato frequente entre pessoas negras que ascenderam socialmente. Por vezes, elas se distanciam do ambiente de onde vieram, mas não se encaixam no espaço em que chegaram. A crise existencial de Mayah brota das frestas desse não lugar.A exemplo de sua personagem, a atriz já viveu momentos limítrofes. Um deles aconteceu em 2009, quando encarnou uma das célebres Helenas de Manoel Carlos, na novela Viver a Vida. À época, a atriz sofreu uma série de críticas por sua atuação e chegou a achar que a carreira na televisão havia acabado.Outro momento foi no ano passado, enquanto vivia Raquel no remake de Vale Tudo, de Manuela Dias. Em entrevistas, a atriz já disse ter ficado frustrada com mudanças que aconteceram em relação à primeira versão. A alteração mais polêmica foi o fato de a cozinheira ter voltado a vender sanduíches na praia após a falência de sua empresa algo que não estava na obra original, de 1988. “Fui convidada a fazer uma personagem, e eu sabia a história dela. E, de repente, me apresentaram outra; aí eu achei esquisitíssimo aquilo”, afirmou ao programa Sem Censura. À reportagem, porém, Araujo contemporiza. “Eu não posso tirar o brilho do que foi Vale Tudo na minha vida. É um dos meus trabalhos mais importantes, celebra.Assim como aconteceu após o turbilhão de Viver a Vida, a atriz voltou para a ribalta após o fim de Vale Tudo. “Eu costumo dizer que o teatro é um grande professor. Se você se dedica, ele te devolve”, diz a artista. “Para mim, é um lugar regenerador.”De certa forma, sua nova protagonista busca a cura para um desconforto persistente. “É um incômodo que aparece sem avisar e faz com que ela exploda e decida romper com tudo. Essa é uma peça sobre não se reconhecer dentro de si mesma e precisar se reconstruir.”O estopim para a mudança acontece quando sua empresa faz uma campanha publicitária pela diversidade. A ideia é reunir os poucos funcionários negros para criar uma fachada inclusiva, algo bem distante da realidade daquele escritório.Após se recusar a participar da iniciativa, Mayah abandona o emprego e decide dar uma guinada na própria vida. “O olhar da personagem estava fechado e vai se ampliando aos poucos. Ela não só percebe que pertence a uma comunidade, mas que precisa deixar de olhar para o próprio umbigo”, diz Araujo.Essa reconexão acontece por influência de duas mulheres de gerações diferentes. Kemi é uma colega de trabalho, na faixa dos 20 anos, que ajuda Mayah a lidar com a rotina opressiva. Já Mildred é uma nonagenária que amplia o entendimento da personagem sobre o mundo.