Eles conhecem os fatos, mas a história ainda será contada. Essa é a máxima de Digger Rockwell, oligarca que usa dinheiro e influência para manipular a opinião pública a favor de seus negócios. Pouco a pouco, sua petroleira aproxima o mundo da catástrofe climática. Quem encarna o velho calvo, barrigudo e mesquinho é alguém que passou a carreira fugindo desse perfil, o galã Tom Cruise.Aos 64 anos, o ator se consolidou como o grande rosto do cinema de ação americano. Após dar vida a heróis militares e agentes destemidos em franquias como Missão: Impossível e Top Gun, ele aparece com próteses de papada, careca e barriga para protagonizar Digger, novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, num trabalho que é sua tentativa mais clara de arrematar um Oscar, prêmio que nunca venceu. O longa está em cartaz nos cinemas de Goiânia e Aparecida. Se o filme dividiu a crítica, parece consenso que o bilionário fanfarrão é um dos melhores papéis da carreira de Cruise, concorrendo com personagens complexos como o misógino Frank em Magnólia ou o veterano de guerra Ron em Nascido em Quatro de Julho. “Nunca tive o privilégio de poder interpretar um personagem como esse no cinema”, disse o ator, eufórico, em entrevista a jornalistas.Na contramão dos blockbusters que fizeram de Cruise um símbolo sexual, Digger caçoa do establishment do chamado norte global, em especial dos Estados Unidos. Iñárritu dispara contra a geopolítica e a cultura meritocrática americana com sátiras ácidas voltadas a seus bilionários e ao próprio presidente Donald Trump.As referências ao mundo real são múltiplas. Digger usa chapéu e botas de vaqueiro e fala com o sotaque carregado do sul dos Estados Unidos, de forma até cartunesca. Ele é o arquétipo do eleitor republicano rico e conta, cheio de pompa, como seu bisavô descobriu petróleo em sua busca pelo sonho americano. Para o empresário, enriquecer justifica qualquer empreitada.Mas as coisas azedam para Digger quando uma de suas plataformas de petróleo na Groenlândia explode e causa o desprendimento de uma geleira monumental que se chocará contra a Europa. Na vida real, o território é alvo de Trump, que ameaça invadir a ilha desde o início de seu mandato.“À medida que desenvolvemos essa história, a realidade começou a nos ultrapassar. Ela está avançando mais rápido do que qualquer ficção que poderíamos inventar. Foi muito angustiante, era como fazer um documentário sobre o futuro”, diz Iñarritú, ao lado de Cruise. O diretor mexicano, vencedor do Oscar em 2015 por Birdman, teve a ideia de Digger durante as gravações de O Regresso.O longa que deu a Leonardo DiCaprio sua primeira estatueta dourada conta a história de um homem que marcha para o oeste dos Estados Unidos, sozinho, durante um inverno rigoroso em 1823. O desafio de filmar ao ar livre foi a ausência da neve e do gelo esperados nas locações. Uma consequência já visível das mudanças climáticas em 2014, segundo Iñárritu.Em Digger, o impacto da geleira no norte da Europa causa um tsunami que deixará milhares de pessoas desabrigadas. O personagem de Cruise parte, então, para uma corrida contra o tempo para tentar mitigar a repercussão negativa do desastre não só para seus negócios, mas para o próprio governo americano, de quem ele é parceiro de longa data.Durante a crise, o bilionário se reúne com o presidente, encarnado por John Goodman, e com donos de empresas de mídia e de inteligência artificial, e vai parar nas Nações Unidas para enfrentar parlamentares europeus. Ele é acompanhado por Ganesh, cientista interpretado por Riz Ahmed que trabalhou para Digger a vida inteira, mesmo diante das violações constantes do empresário à segurança ambiental.“Todos os dias vemos pessoas no comando dizerem, com um tom satírico e absurdo, que está tudo bem, embora saibamos que não está”, diz Iñárritu. “Como contamos a nossa própria história? Não sei se alguém tem condições de definir algo, mas o que acontece parece uma loucura coletiva.”Nos moldes de outros longas lançados desde a reeleição de Donald Trump, como Mickey 17, de Bong Joon-ho, Eddington, de Ari Aster, Bugonia, de Yorgos Lanthimos, e o próprio Uma Batalha Após a Outra, coroado com o Oscar de melhor filme neste ano, Digger usa o orçamento de grandes estúdios para tirar sarro do status quo.A diferença é que Digger não é exatamente quem parece ser. Com uma boa dose de metalinguagem, Iñárritu também ironiza a própria tendência de Hollywood de produzir filmes caros, comandados por diretores de prestígio, que recorrem ao absurdo para fazer críticas políticas. Com Cruise na dianteira, Digger expressa o declínio do herói americano, que dominou por tantos anos a narrativa cinematográfica, diante das políticas agressivas de Trump.“Não é o melhor momento para produzir filmes nos Estados Unidos. Estão caminhando para o controle da linguagem, da exposição e da arte. Todos os artistas e instituições estão sob alerta”, disse Iñárritú em entrevista à Folha no ano passado, quando relançou Amores Brutos nos cinemas.O diretor se referia às investidas do republicano para tentar controlar o setor cultural, além do endurecimento de leis contra imigrantes no país. Uma realidade que ia de encontro à própria trajetória do diretor que, depois do sucesso de Amores Brutos, deixou a Cidade do México em direção a Los Angeles. Nos anos 2000, junto a nomes como Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón, ele injetou fôlego no polo industrial do cinema.Como outros filmes de Iñárritu, Digger explora a ligação de pessoas por meio de uma tragédia em comum. Nesse caso, a hecatombe climática. Se Birdman, seu trabalho mais conhecido, trazia uma reflexão mais intimista sobre a busca por validação do artista, o novo longa reflete sobre os limites da arte, mesmo que política, num mundo devastado e carente de medidas concretas.É uma preocupação que faz coro a filmes apresentados no último Festival de Cannes, em maio. Alguns dos principais títulos dentro e fora de competição propuseram uma meditação sobre o sentido de criar em tempos difíceis, de guerras e intolerância. Se Digger elabora uma conclusão menos idealista sobre o assunto, a negatividade parece não afetar Cruise.“Iñárritu ergue um espelho diante de nós para podermos refletir, com um humor extraordinário. Para mim, não há tom acusatório”, diz o ator, uma das poucas estrelas que ainda não fez trabalhos para o streaming.Diante de uma crise que parece grande demais para a arte, Cruise não está disposto a declarar esta uma missão impossível. “Quero que o público tenha sua própria experiência. Cada um vai sair com seu ponto de vista, e essa é a beleza do cinema.”