-Imagem (1.2019373)Em 13 de janeiro de 1720, um despacho trazia o requerimento assinado pelos “capitães Bartolomeu Bueno da Silva, João Leite da Silva Ortiz e Domingos Rodrigues do Prado”. No documento, seus autores falavam em avançar “em toda parte do sertão da América”, dando continuidade a “entradas que têm feito”, onde, segundo eles, habitava “gentio bárbaro, em aldeias do reino deles”. Daí listavam os caiapós, caraiaphitangás, arachás, quirichás, bareris, caraiahunas e, vejam vocês, os guoiás. Mal sabiam que estavam ali criando um Estado.Há 300 anos, aquele pedido dirigido ao rei português d. João V ganhou dois despachos do Conselho Ultramarino e dois pareceres de procuradores da Fazenda e da Coroa portuguesa. O Conselho Ultramarino de Portugal comunicou, em 14 de junho de 1720, que o rei havia dado a permissão pedida, estabelecendo que o governador da Capitania de São Paulo deveria apoiar a expedição em busca de “pedras e tesouros que se ocultam da coroa de Vossa Majestade”. Em troca, ganhavam o direito de explorar as passagens dos rios que descobrissem.Goiás, tal como o conhecemos, começava a nascer ali. Ainda que muitos exploradores já tivessem passado por aqui – inclusive o próprio Bartolomeu Bueno da Silva, filho de um outro bandeirante de mesmo nome e que foi alcunhado de Anhanguera, por volta de 1682 –, ninguém havia se preocupado em fundar nas terras onde posteriormente seria Goiás um povoamento. “Goiás era um lugar de passagem somente”, contextualiza o historiador Antônio César Caldas Pinheiro, diretor do Instituto Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central.O IPEHBC, unidade da PUC Goiás, tem um dos maiores acervos ligados àquele período, boa parte compartilhada com instituições portuguesas, como o Arquivo Ultramarina e a Torre do Tombo, em Lisboa. Obras raras e documentos antigos integram esse material, incluindo uma cópia do requerimento de 1720 do chamado Segundo Anhanguera, aquele que foi o fundador dos primeiros arraiais goianos. Antônio Caldas mergulhou nesse universo em suas pesquisas, que levaram ao livro Os Tempos Míticos das Cidades Goianas.A expedição do primeiro Anhanguera – que teria deixado vestígios em algumas partes do que viria a ser o território goiano e que o filho, mais tarde, garantiria ter encontrado – foi uma das que chegaram por aqui ainda no final do século 17. Vinham em busca de riquezas, mas não se ocuparam em explorar jazidas de metais ou pedras preciosas. Sua prioridade era mapear a região e, sobretudo, capturar indígenas, mão-de-obra escrava que levavam ao litoral, ao mesmo tempo que membros da Igreja tentavam evangelizar essas comunidades nativas.A rota para o sertão foi inaugurada bem antes de o primeiro Anhanguera e seu filho, então com cerca de 12 anos de idade, empreenderem a primeira aventura pelo interior brasileiro. Já em 1647, outro bandeirante, Manuel Correia, abriu os caminhos pioneiros pelos limites traçados pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, que dividia as novas terras. As bandeiras, sobretudo as que saíram da modesta Vila de São Paulo de Piratininga (que viria a ser a maior metrópole da América Latina), tiveram papel essencial nessa ocupação.Os caminhos daquela bandeira de Manuel Correia foram trilhados várias vezes e serviam de referência. Antes da autorização dada a Bartolomeu Bueno e seus sócios para descobrirem novas minas de ouro no sertão, uma localidade foi fundada às margens do Rio Cuiabá, em uma região ainda mais profunda daquele universo desconhecido. Hoje, lá está a capital do Mato Grosso. E naquele mesmo ano de 1719, Bartolomeu Bueno, que desde cedo envolvera-se com os negócios que exploravam as bandeiras pelo interior, esteve em terras goianas.Já com o pedido ao rei português na manga, ele formou um grupo e saiu do interior paulista, onde encontrou refúgio após disputas políticas e comerciais – ele chegou a morar em Sabará, Minas Gerais –, Bartolomeu Bueno enveredou pelo interior e alcançou a chamada Lagoa Mestre d’Armas. Esse ponto é conhecido hoje como Lagoa Bonita, no município de Planaltina de Goiás. Na época, não se poderia imaginar que todo aquele território intocado pelo colonizador abrigaria, três séculos depois, metrópoles e a sede do poder nacional.