Ele já atuou ao lado de atrizes como Irene Ravache e Marília Pêra, foi galã em filmes do Mazzaropi, fez parte da lendária Família Trapo e ainda dividiu o palco com Sandra Brea e Paulo Autran. Há 20 anos morando em Goiânia, Ivan Lima volta aos palcos na peça O Jogo do Poder ? Monólogo para um Ator, que será apresentada hoje, às 21 horas, e amanhã, às 19 horas, no Teatro Sesi.A produção comemora os 46 anos de carreira do ator, em sua "estreia de veterano". Depois de uma trajetória glamourosa interrompida após uma viagem de "meditação" à Índia, Ivan Lima retornou ao teatro no ano passado com trabalhos de direção. Desde que veio para Goiânia, ele havia abandonado a vida nos palcos e sobrevivia fazendo comerciais ? é figura conhecida nas TV locais, já tendo protagonizado mais de 500 anúncios publicitários. Também foi comerciante por um tempo, dono de uma loja de roupas indianas no Setor Oeste.Esse senhor de cabelos grisalhos que abandonou a carreira artística no eixo Rio?São Paulo mora numa casa agradável no Setor Jaó, com a fachada inspirada na arquitetura dos templos indianos. O cheiro de incenso toma conta da sala, onde a simplicidade do piso de cimento queimado e a construção rústica contrasta com o luxo de tapetes persas e antiguidades como uma cadeira estilo Luís XV. Sentado no degrau da sala, que leva a um pavimento elevado que lembra um pequeno palco, o ator se acomoda em meio a vários álbuns de fotografias e recortes de jornais.Nora Ney, Joana Fomm, José Possi Neto, Luiz Carlos Arutin, Carlos Vereza e Tônia Carrero são alguns dos seus antigos colegas de profissão, muitos deles presentes nos registros colecionados com carinho. "Em São Paulo, meu cotidiano era muito de uma vida de trabalho incessante que não mais me encantava", explica o ator, que depois de viver intensamente os loucos anos 80 partiu para a Índia em 1990.AutobiografiaA produção em que reestreia como ator, O Jogo do Poder narra a história de um artista que repentinamente abandona a vida nos palcos para se dedicar a outras atividades. As semelhanças com a vida de Ivan Lima não são meras coincidências. Segundo ele, a peça escrita pela carioca Maria Helena Kuhner é sim autobiográfica, mas a plateia também não deve ficar restrita à sua história pessoal. "Eu fui para ficar um mês na Índia e fiquei dois anos. Muitas pessoas vão se enxergar no personagem, nessa necessidade de introspecção em uma certa fase da vida", adianta.O espetáculo questiona a verdadeira função do ator, num texto que enfatiza os embates do artista, desde seu primeiro contato com o personagem até a descoberta de sua verdadeira identidade e daquilo que se esconde atrás das aparências. Para o ator, a peça aborda um universo ainda maior que o artístico, pois "fala da mentira do ser humano"."Hoje as pessoas criam uma imagem para vender e acreditam que ela realmente existe. Elas criam um signo que não é verdade e passam a buscar uma felicidade falsa. Na vida as pessoas devem ir atrás da carreira e não do sucesso, a meta deve ser poder realizar e assim o sucesso se torna uma consequência", ensina o veterano.O texto de Maria Helena Kuhner é marcado por situações de tristeza, euforia e alegria. O ator lembra ainda que há uma passagem na peça inspirada num momento melancólico da vida do ator Jorge Cherques, quando ele perde sua mulher e entra em depressão, doença que o levou à morte no domingo dia 13 de março.Ivan Lima conta que entre a convivência com gurus e meditações durante a reclusão numa "island", abrigo que na Índia recebe apoio governamental, ele "se redescobriu". "Eu nunca fui religioso e, durante minha temporada na Índia, também não fui submetido à religião. Apenas comecei a dar valor em outras coisas", conta. Do retorno a São Paulo, no início dos anos 90, ao encontro com médicos indianos atuantes em um projeto de medicina alternativa no Hospital de Doenças Tropicais em Goiânia, a decisão de morar em Goiânia foi tomada rapidamente.Na época, na capital paulista, a realidade de artistas de sua geração era marcada por dificuldades na área teatral, uma forte concorrência por papéis na televisão, em especialmente na TV Globo, e ainda um clima de insegurança generalizado, independente do talento. "Se estava na TV, não sabia como seria o amanhã", resume o ator, que também sofreu ao ver Rubens de Falco doente e sozinho, e outros amigos morrendo de aids. Um deles foi Lauro Corona, lembrado como a pessoa que o apresentou a Cazuza. "É como se tudo aquilo tivesse se deteriorado. Sentia um tédio", explica.Na época Ivan Lima conta que a atração pelo terreno no Jaó onde construiria sua casa foi "paixão à primeira vista". "Eu vendi o carro, comprei o terreno e me mudei para cá. Parecia que estava na Índia, pois adorava acordar e ver aquelas vacas soltas da região paradas aqui em frente. Tinha até carro de boi", diz ao apontar para o portão, de madeira maciça. Ele lembra que, com o trabalho na publicidade, pôde construir sua casa aos poucos, até que, num amanhecer de um 1º de janeiro, a vontade de voltar a atuar ressurgiu das cinzas.No ano passado, o ator retornou à ribalta como diretor de Laio, texto escrito por H. Hyadt de S. Mello, para o Núcleo Freudiano de Psicanálise. Outro trabalho foi a direção de Olho, de Edgard Allan Poe, da Cia. Oops!!! de Teatro.Quem acompanha "de longe" sua vida em solo goiano é a irmã Marlene, 68, que mora em Campinas (SP). "Ela disse que vai vir para a estreia", empolga-se, ao mostrar o lote do lado da sua casa, que pertence a Marlene. Na capital, sua lista de amigos traz muitos atores entre os mais jovens da cena goiana e nomes da velha guarda, como Célia Coutinho, também moradora do Setor Jaó. A ex-atriz começou no teatro de revista e foi uma das musas da primeira versão da novela Selva de Pedra (1971), ao lado de Francisco Cuoco e Regina Duarte.Trajetória de sucessoIvan Lima começou sua carreira precocemente. Aos 14 anos, quando ele voltava de ônibus da sua casa, no subúrbio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, viu um cartaz com um anúncio do Conservatório Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, sua primeira escola e base de sua formação. "A escola ficava em Botafogo e o curso dirigido por Ester Leão era para maiores de 18 anos. Abriram uma exceção depois que viram minha empolgação com a aula", recorda-se.Logo ele caiu no gosto do diretor Ziembinski, polonês radicado no Brasil, com quem estreou aos 15 anos na peça Com a Pulga Atrás da Orelha, de George Feydeau, no Teatro Municipal. "Tive sorte, um ator ficou doente e puder aproveitar a oportunidade", lembra.Depois dessa estreia, em 1965, o filho da dona de casa capixaba Cercina e do português Antônio não parou mais. Do pai, ele conta que ficou afastado por oito anos após sua ida para São Paulo e desavenças em função de escolhas pessoais e da carreira. "Ainda bem que eu voltei para reencontrá-lo e aceitar seu jeito, pois logo depois ele morreu. Ia me sentir culpado", conta, ao se lembrar da época em que o pai pôde curtir um pouco o sucesso de Ivan e contar para os amigos que o galã do longa de sucesso de Mazzaropi na época era seu filho.Em 1968, sua atuação na pela Um Gosto de Mel, de Shelai Delaney, lhe rendeu o Prêmio Revelação. Em São Paulo, estreou em 1970 com Os Mistérios do Amor, de Eduardo Borsato, participando entre outros espetáculos de O Comprador de Fazendas, com Dulcina de Morais, A Vida Escrachada, com Marília Pera, A Ratoeira, com Irene Ravache e Joana Fomm, e Tem Banana na Banda, com Darlene Glória e Antônio Fagundes. Como diretor teatral, montou Como é Chato ser Deus, Os Mistérios do Amor e A Paixão de Drácula.CarinhoDas peças de que participou, Ivan Lima se lembra com carinho d e Amor de Poeta, cujo cartaz pode ser visto numa das paredes de sua casa. Neste espetáculo, ele atuou ao lado de Irene Ravache, uma das amigas dos tempos antigos que se orgulha de cultivar e que também trabalhou com ele em Afinal Uma Mulher de Negócios. "Ela é uma paspalha brincalhona. A gente se divertia muito dentro e fora de cena", relembra.A aprovação no elenco da segunda montagem de Hair, em 1968, também é outra grata recordação. "Eu tinha 18 anos e integrei aquela produção após a revolução. Na primeira montagem, três anos antes, eu não passei no teste", conta.Dos tempos de luta contra a ditadura, Ivan Lima faz questão de descrever o papel de atores como Carlos Vereza. "Ele é um líder e seu poder de mobilização era incrível. O Vereza levou muitas pessoas para as ruas", rememora. Desse tempo, ele conta ainda que as reuniões para mobilizar a categoria eram realizadas no apartamento de cobertura de Tônia Carrero.Da lista de novelas em que participou, todas gravadas em São Paulo, Ivan Lima cita A Filha do Silêncio, produção da antiga TV Tupi e, ainda, Sabor de Mel. Nesta última, realizada na Rede Bandeirantes, Ivan Lima contracenou com Raul Cortez, Eva Tudor, Mila Moreira, Sandra Bréa, entre outros, sob a direção de Roberto Talma.Ainda na Rede Bandeirantes, Ivan Lima também foi júri do programa de Flávio Cavalcanti e, posteriormente, comandou um programa de auditório. Com viagens constantes para Nova York, numa delas para apresentar o show América no Hilton Hotel, em Manhattan, Ivan Lima também integrou as filmagens de Legião Estrangeira, uma produção franco-espanhola gravada na Tunísia."A gente filmou no deserto. Quando olho para trás, tenho a impressão que tenho o dobro da minha idade, por causa da experiência de vida", diz, entre risos, o ator de 63 anos. Das filmagens com Mazzaropi, Ivan Lima se lembra dos trabalhos no estúdio da fazenda do ator, montado no interior paulista.Para o ator, o cinema nacional finalmente avançou depois que "os roteiros melhoraram". "Roteiros ruins sempre foram o grande problema do cinema nacional, juntamente com o som. Antes o som era tão ruim que ninguém entendia o que o elenco falava", diz, com uma boa risada. Para quem conheceu a realidade antiga, a qualidade atual dos filmes é motivo de comemoração."A nossa cultura é muito forte. Nossos filmes em nenhum momento parecem filmes norte-americanos", pondera. Já o teatro, segundo ele, é uma área que merece mais atenção do poder público. "No Brasil e em Goiânia, o artista de teatro ainda é prejudicado com o corte de verba. Em Goiás essa redução de 50% da Lei Goyazes vai impedir que muitos artistas, entre novos e veteranos, mostrem seu trabalho. A cultura é o grande patrimônio do Estado", assegura.Espetáculo: O Jogo do Poder ? Monólogo Para um AtorTexto: Maria Helena KuhnerDireção: Renato LucasElenco: Ivan LimaData: Hoje, às 21 horas, e amanhã, às 19 horasLocal: Teatro Sesi (Av. João Leite, nº 1.013, Setor Santa Genoveva, ao lado do Clube Antônio Ferreira Pacheco)Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)Informações: 4002-6213