Em 1991, Umberto Eco proferiu uma famosa conferência em Milão, cidade do norte da Itália onde o escritor vivia e lecionava. Nela, ele fez uma enfática defesa dos livros, de seu papel na sociedade e na formação humana. “Temam aquele que destrói, censura, proíbe os livros; ele quer destruir e censurar nossa memória”, disse. Esse encontro foi depois publicado, claro, num livro, chamado Memória Vegetal e Outros Escritos sobre Bibliofilia, em que Eco assumia-se não como um escritor em primeiro lugar, mas como um amante dos livros acima de tudo. Um bibliófilo dono de um acervo de fazer inveja a qualquer outro amante da escrita.Essa obra foi lançada em 2009, sete anos antes do falecimento de Eco, que se notabilizou mundialmente 43 anos atrás, quando chegou às livrarias seu romance mais famoso, O Nome da Rosa. A obra, claro, tem uma relação muito forte com os livros, como não poderia deixar de ser em se tratando de quem a escreveu. O sucesso imediato do trabalho, que em poucos meses vendeu mais de 300 mil exemplares apenas na Itália e em pouco tempo se transformaria em filme com grandes nomes de Hollywood no elenco, foi uma virada na carreira do professor, filósofo, semiólogo e medievalista. E foi sua biblioteca que lhe ajudou.O acervo de Eco embasbacou o mundo quando, algum tempo antes de morrer, o autor aparece, num vídeo que viralizou na internet, transitando por seu universo de livros. Ele está à procura de um volume específico e começa a entrar e sair de diversos cômodos, todos eles abarrotados de obras e mais obras, senhor absoluto daquele labirinto circular. De vez em quando é possível ver uma redoma de vidro, onde ele guardava alguma de suas centenas de preciosidades, como primeiras edições de clássicos, livros raros ou mesmo manuscritos com mais de 500 anos de idade. Finalmente, ele encontra o que procura.O POPULAR esteve, em Milão, na instituição que guarda parte desse tesouro, a Biblioteca Nazionale Braidense. Mesmo tendo morrido em 2016, apenas em 2021 o destino das dezenas de milhares de livros foi definido. A família do autor e o governo italiano chegaram a um acordo pelo qual os itens mais antigos do acervo do escritor, que incluem 1.200 volumes do século 19 para trás e 36 incunábulos, produzidos logo após a invenção da imprensa, em meados do século 15, foram incorporados ao acervo da Braidense, dentro do Palazzo di Brera, pertencente à Universidade de Milão, onde Eco deu aulas por décadas.Já a maior parte dos 35 mil volumes, composta por livros editados no século 20, foi para outra instituição na qual o autor também foi professor, a Universidade de Bolonha, situada a 215 quilômetros de Milão, pelo período de 90 anos. As duas universidades estão entre as mais prestigiadas da Itália, figurando entre as que possuem mais alunos. E foi a partir das pesquisas que desenvolveu nelas que Eco tornou-se não só numa referência em estudos literários, de Semiologia e de História Medieval, mas também num escritor mundialmente popular. Somando todas suas obras, já são mais de 30 milhões de exemplares vendidos.A Biblioteca Nazionale Braidense fica no segundo andar de um palácio por onde hoje circulam milhares de estudantes todos os dias. O prédio abriga a famosa Pinacoteca di Brera, o maior acervo de arte de toda Milão e um dos mais importantes da Itália, com obras de Caravaggio, Tintoretto, Rafael, Ticiano, Giovanni Bellini, Bosch, Bramante, Veronese e Vasari, entre outros, espalhadas por 38 salas. O local também é a sede da Academia de Belas Artes, fundada em 1773 pela imperatriz Maria Teresa de Áustria, no prédio onde antes funcionava o Monastério de Santa Maria di Brera Humiliate.O imóvel histórico carrega muitos episódios dramáticos, de incêndios a bombardeios durante a guerra, mas o acervo conseguiu ser preservado, depois de ser formado, em sua maior parte, a partir do confisco de obras de arte de famílias aristocráticas e ordens religiosas das regiões do Vêneto, Lombardia e Emilia-Romagna, ordenado por Napoleão Bonaparte, quando ele dominou essas regiões no início do século 19. Já a biblioteca, agora acrescida com o acervo de Eco, foi criada em 1770, também pela imperatriz Maria Teresa, com o nome de Imperialis Regia Bibliotheca Mediolanensis e nunca deixou de funcionar.Boa parte do acervo da biblioteca já está digitalizado e disponível em seu site, que ganhou uma nova versão recentemente. E os números impressionam. São mais de 2 milhões de páginas de mil periódicos italianos na hemeroteca, 500 mil imagens de mais de 9 mil libretos teatrais e de ópera e cerca de 325 mil imagens e 9 mil romances do século 19. Há também itens bibliográficos e imagéticos, como obras e gravuras, desde o século 15. A coleção de Eco, portanto, encaixou-se como uma luva nesse tesouro. Mediante um prévio cadastro é possível acessar as dependências, como a sala de leitura e a sala de consultas.Não é a todo momento, porém, que ela está aberta. O número de visitantes é controlado e há horários reservados a pesquisadores, que podem verificar documentos e obras raras em microfilmagens. O acervo pessoal de Eco ainda não foi digitalizado e é resguardado numa reserva especial, a Coleção de Livros Antigos de Umberto Eco. Entre março e julho de 2022, foi realizada uma mostra para celebrar a doação dos livros. Os exemplares mais curiosos provinham do que Eco chamava de sua Biblioteca Semiológica, Curiosa, Lunática, Mágica e Pneumática. Será inaugurado um espaço, batizado de Studiolo, para esses livros.Já a Biblioteca da Universidade de Bolonha tem a premissa de integrar, simplesmente, a universidade mais antiga do mundo e figurar num dos mais amplos complexos de bibliotecas do planeta. A ida do acervo de Eco para esse espaço, em regime de comodato, inicialmente, por nove décadas, é uma forma de fazê-lo continuar no local onde, aos 42 anos de idade, ele tornou-se catedrático. Era um docente em plena ascensão na hierarquia da universidade mais tradicional do país. Na instituição, foi titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas. Depois, tornou-se professor emérito. Paixão pelas estantesEm suas entrevistas, Umberto Eco gostava de repetir que, quem não lê, ao chegar aos 70 anos, terá vivido uma vida de 70 anos. Já quem lê, ao alcançar essa idade, terá vivido 5 mil anos. É a imaginação que nos leva à eternidade. Um aprendizado que o menino Umberto, nascido na pequena Alexandria, entre Milão e Gênova, captou muito cedo. Sua paixão pelas lombadas de livros nas estantes e o que elas podem revelar é algo que sempre integrou sua formação e seu jeito de ser. Já adulto, costumava frequentar uma das mais belas e valiosas bibliotecas da Itália e vasculhar seu acervo com uma curiosidade juvenil.Bem próximo ao Duomo de Milão, o principal cartão-postal da cidade, fica o edifício da Veneranda Biblioteca Ambrosiana, referência mundial em obras religiosas. Umberto Eco adorava esse lugar que pode parecer um pouco sisudo – e, de fato, o é –, mas que guarda riquezas inestimáveis da cultura. Fundada pelo cardeal Federico Borromeo em 1607 e inaugurada em 1609, a biblioteca foi a primeira a permitir que o público que não fosse apenas religioso a frequentasse, para ler ou escrever. O diálogo com a biblioteca restrita da abadia de O Nome da Rosa é evidente. A Ambrosiana é o contraponto daquela da ficção.No complexo fica a Pinacoteca Ambrosiana, fundada pelo mesmo cardeal em 1618, dona de um acervo valiosíssimo de mestres como Tintoretto e Ticiano, além de possuir os cartões nos quais Rafael preparou os esboços para o afresco Escola de Atenas, no Vaticano. Nessa biblioteca estão depositados itens únicos, como um exemplar de História Natural, de Plínio, o Velho, datado de 1389. Também estão os desenhos do Códice Atlântico, feitos por Leonardo Da Vinci. Não surpreende a fascinação de Eco por um lugar com tais tesouros. A biblioteca fica ao lado da Igreja do Santo Sepulcro, uma das mais visitadas de Milão. Criação entre livrosA grande biblioteca de Umberto Eco guardava mais que os livros que continha. Além dos milhares de exemplares, dos volumes raros, das edições únicas, ela também testemunhou um grande criador em ação. Ele costumava dizer que não precisava sair de casa para fazer as pesquisas para seus trabalhos: tudo do que necessitava estava à sua mão. E olha que ele era um escritor exigente nesse aspecto. Aficionado por História, grande especialista em Semiologia, leitor ávido e curioso, era imperativo que seu estoque de matéria-prima fosse diversificado, amplo e surpreendente. Sua biblioteca nunca decepcionou.O primeiro grande teste veio no final da década de 1970, quando decidiu que iria, além de publicar livros sobre teoria literária, filosofia e semiótica, também escrever ficção. O ano era 1978 e Umberto Eco já havia participado de um movimento de vanguarda na Itália 15 anos antes, o chamado Grupo 63. Mas naquela época, ele era mais um analista que um produtor de literatura. Em várias entrevistas que deu sobre O Nome da Rosa, seu romance de estreia, o escritor relatou que, inicialmente, pensava num livro do gênero policial, mas sua imaginação o levou para outro terreno, o das ordens religiosas e seus escritos clássicos.Como bom semiólogo que era, a imagem era algo muito presente em sua criação e foi uma delas que o levou a tomar a decisão de situar a trama na Idade Média, dentro de uma abadia antiga, envolvendo monges como personagens e uma imensa biblioteca com volumes únicos. Foi, literalmente falando, uma imagem imaginada. “Imaginei um religioso, em frente a uma estante enorme, lendo os Atos dos Santos”, disse em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 2006. Segundo ele, a palavra Rosa no título foi para “despistar o leitor”, que se concentra nos simbolismos dessa flor e não percebe outros detalhes.A tática é conhecida em thrillers policiais, o que espantou muita gente. Afinal, era um dos principais intelectuais de seu tempo, já respeitado mundialmente, enveredando por um gênero considerado menor por muitos críticos. Mas levar o enredo para o século 14 e enchê-lo de pistas complexas, de referências eruditas, de intrigas labirínticas foi o grande pulo do gato de Eco. A obra, mesmo considerada difícil – foi rejeitada por uma grande editora italiana, que não apostou que poderia vender bem –, caiu no gosto popular assim que foi lançada e cinco anos depois sua adaptação para o cinema já estava em cartaz.O Nome da Rosa repetiu em Hollywood o sucesso das livrarias, tendo ninguém menos que o astro Sean Connery encabeçando o elenco. E os detalhes daquela trama, os modos como os assassinatos são cometidos e até a ambientação espacial do livro foram todos tirados de uma fonte: a grande biblioteca pessoal de seu autor. O conhecimento sobre matar alguém com substâncias mortíferas colocadas em lugares insuspeitos veio do livro Tratado dos Venenos, do catalão Mathieu Orfila, considerado o Pai da Toxicologia. Eco possuía um exemplar desta obra publicada em 1815, que ele comprou de um alfarrabista em Paris.Não é à toa que ele lança mão de outra marca de romances de suspense, sobretudo aqueles que trazem o DNA da chamada literatura noir ou gótica: o manuscrito apócrifo e antigo que guarda segredos terríveis e que acaba reaparecendo nas mãos de alguém dos tempos atuais. Isso leva a ambientes há muito esquecidos, a personagens que no passado foram amaldiçoados. Os métodos de criação de Eco eram, porém, ainda mais complexos. O Nome da Rosa foi todo escrito à caneta. Caneta com que ele desenhava plantas de abadias a partir de ilustrações antigas que estavam na biblioteca e de visitas a mosteiros.Esses desenhos originais foram parcialmente publicados na edição comemorativa, lançada em várias partes do mundo que O Nome da Rosa ganhou recentemente por seus 40 anos. E havia um motivo para que esses esquemas estivessem ao lado das folhas em que Eco desenvolvia o romance. Ele revelou que a duração dos diálogos entre os personagens dependia do tempo que se levava para andar de um ambiente a outro, para subir uma escadaria, para atravessar um pátio ou corredor. Como se vê, é uma técnica elaborada de verossimilhança literária que alcança um nível impressionante de detalhamento.Essa paixão pelos livros motivou também o ensaísta. Trabalhos como Seis Passeios Nos Bosques da Ficção, que traz palestras que ministrou na Universidade de Harvard em um curso de verão, Sobre Literatura, Lector in Fabula ou Obra Aberta, o primeiro livro que publicou, ainda em 1962, falam de suas leituras mais caras. Outros volumes, como História da Beleza, História da Feiúra e História das Terras e Lugares Lendários são seus tributos ao imaginário mais rico que se possa encontrar na literatura e nas artes. Esforços que pedem uma erudição acima da média que só uma biblioteca como a de Eco pode proporcionar. Obra ampla e versátilQuem vai ao Cemitério Monumental de Milão, um dos mais impressionantes do mundo por sua arte funerária, ainda não pode prestar homenagens a Umberto Eco. Quando morreu, em 2016, seu corpo foi cremado e a urna com as cinzas está à espera de que um mausoléu em sua homenagem fique pronto no local. A tradição milanesa manda que os grandes autores da cidade ganhem essa honraria. Alessandro Manzoni, autor do clássico Os Noivos e que morreu em 1873, tem uma imponente estrutura guardando seu túmulo, onde também estão os restos de Salvatore Quasímodo, poeta ganhador do Nobel de Literatura.Certamente, todas as iniciativas para louvar a memória de Umberto Eco serão merecidas. O autor de livros influentes no mundo acadêmico, como Apocalípticos e Integrados, de 1964, e Como Se Faz Uma Tese, de 1977, também mostrou muito talento na ficção. Além do best-seller O Nome da Rosa, são de sua autoria livros bastante populares, como os romances Baudolino, O Pêndulo de Foucault e O Cemitério de Praga. Em todos eles, as tramas trazem personagens e tempos que variam de um teor quase mítico a um suspense competente na captação da atenção – e da tensão – do leitor.Eco sabia trabalhar a prosa com desenvoltura e charme. Quando fenômenos como os livros de Dan Brown – Anjos e Demônios ou O Código Da Vinci – surgem, eles já vêm na esteira de um caminho, em grande parte, aberto por Eco, que provou que a erudição histórica e o apreço pelo que há de melhor na arte podem render excelentes enredos, saborosos e inteligentes. Com seus estudos em Filosofia Medieval e Literatura na Universidade de Turim, onde se doutorou, e sua extensa e sólida carreira docente nas universidades de Milão e Bolonha, Eco, a partir do norte italiano, irradiou conhecimento para o mundo.Talvez ele não imaginasse que um dia venderia tanto. Aliás, quem consegue imaginar tamanho sucesso? Mas esse êxito foi merecido, sobretudo para ele, um amante e um defensor da leitura, dos livros. Foi com histórias em que os livros têm espaço privilegiado – como no próprio O Nome da Rosa – que ele conseguiu que mais e mais pessoas lessem. Ao morrer de um câncer de pâncreas, Eco levava adiante o projeto de uma editora autoral e se mostrava preocupado com a contemporaneidade. Testemunha disso é seu trabalho O Fascismo Eterno, em que faz uma análise certeira dos rumos da política atual.As novas tecnologias também o desagradavam. Ele refutava os livros digitais, dizendo que teria sido incapaz de ler Proust em suportes como um Kindle, por exemplo. E era um crítico contumaz das redes sociais. É sua a famosa afirmação de que esses espaços de interação na internet “deram voz aos imbecis”. Diante do que temos visto, seja no debate público, seja nas postagens de cunho mais privado, é difícil discordar do intelectual italiano. Aliás, seu último livro de ficção, O Número Zero, fala da tendência de parte da imprensa em fazer de tudo um grande espetáculo. Fica o puxão de orelha para nós também. Umberto Eco pode! -Imagem (1.1040645)