Luna (Letícia Vieira) passou a primeira temporada de Vermelho Sangue (Globoplay) tentando controlar - ou se livrar - daquilo que a tornava diferente. Na segunda, que estreia nesta quinta-feira (17), ela deixa de enxergar sua condição de “lobimoça” como algo que precisa de cura e passa a querer entendê-la. “Ela começa a primeira temporada achando que é um erro, e agora começa a entender que, na verdade, é extraordinária”, afirma Patrícia Pedrosa, diretora da obra.O novo momento de Luna ocorre justamente quando ela reencontra Juan (Lucas Leto), irmão que cresceu como lobo e deseja seguir o caminho contrário. A personagem vai entrar em conflito com o irmão, de quem foi separada ainda bebê. “Ele quer ser curado. E ela quer ser como ele, ela quer aprender tudo que ele aprendeu com o pai deles”, diz Rosane Svartman, uma das criadoras da série.O contraste entre os irmãos também passa por uma diferença de gênero. Enquanto Juan cresceu ao lado do pai, aprendendo a viver como lobo, Luna foi afastada dessa parte da própria natureza. Para a cocriadora Claudia Sardinha, esse contraste também permite colocar uma mulher no centro de um universo tradicionalmente masculino.“É uma série sobre o sagrado feminino. A gente está falando sobre uma ‘lobimoça’, uma mulher entrando em um ambiente que é essencialmente masculino”, afirma. A transformação de Luna é uma alusão, por exemplo, à menarca. “A gente quis valorizar, sacralizar tudo que é também do feminino, que às vezes na nossa sociedade é tão desvalorizado.”Rosane complementa: “Geralmente o extraordinário é sempre masculino. Então a gente quis trazer a mulher para o centro. Por que não uma ‘lobimoça’?”Na primeira temporada, Luna também se deparou com descobertas sobre sua sexualidade. Ela se envolveu com Flora (Alanis Guillen) e, mais tarde, com o vampiro Michel (Pedro Alves). Segundo Claudia, a decisão foi tratar a homoafetividade com naturalidade. “A gente quis normalizar.”Na segunda, porém, o preconceito passa a aparecer de forma mais direta a partir da história de Flora, de sua relação familiar e da nova realidade que ela passará a ter. Apresentada como uma garota humana excluída pelos seus colegas e fascinada pelo sobrenatural, ela percorre o caminho inverso de Luna.Enquanto a “lobimoça” precisa descobrir que não necessita se tornar humana para se aceitar, Flora acredita que precisa abandonar a sua humanidade para ter valor. “A Flora tem um desejo muito grande por ser extraordinária e não consegue perceber que ela já é completamente extraordinária”, pontua Claudia.No final da primeira temporada, o desejo de Flora de entrar para o mundo sobrenatural se concretiza de maneira extrema: à beira da morte, ela é transformada em vampira por Celina (Laura Dutra).“Ela quer uma nova experiência, ela se joga nisso desde o início, ela tem essa sede, essa vontade”, analisa Rosane. “A frase ‘cuidado com o que você deseja’ tem muito a ver com a Flora na segunda temporada, que agora você vai entender quais são as consequências da sua escolha.”A transformação também mexe com Celina. O envolvimento entre as duas faz a vampira entrar em contato com emoções que acreditava ter deixado para trás. “Quando ela se apaixona, ela começa a despertar sentimentos nela que achava que já tinha perdido. Ela é uma vampira, mas está se conectando justamente com o que há de humano nela”, diz Claudia.A tentativa de abrasileirar a mitologia sobrenatural também aparece na oposição entre lobisomens e vampiros. Enquanto Luna é associada ao lobo-guará e às paisagens de Minas Gerais, os vampiros são estrangeiros - uma escolha deliberada.“Eles vêm do velho continente para o Brasil com o interesse de tomar algo que é nosso”, diz Rosane. “Tem essa discussão também de encarar nosso meio ambiente, a diversidade que a gente vê aqui, como uma riqueza que deveria ser protegida.”O lobo-guará também permitiu à equipe se apropriar de um gênero associado a produções estrangeiras. “É trazer essa identidade brasileira para a série”, diz Patrícia. “A gente cresceu vendo os americanos fazerem, os ingleses, não o nosso povo.”