Oh! eu quero viver, beber perfumesNa flor silvestre, que embalsama os ares;Ver minh’alma adejar pelo infinito,Qual branca vela n’amplidão dos mares,No seio da mulher há tanto aroma…Nos seus beijos de fogo há tanta vida– Árbe errante, vou dormir à tardeÀ sombra fresca da palmeira erguida.Mas uma voz responde-me sombria:Terás o sono sob a lájea fria. Os primeiros versos do poema Mocidade e Morte, composto em 1864 e incluído no livro Espumas Flutuantes, de 1870, vaticinam um destino até certo ponto comum aos poetas românticos do século 19: a morte precoce. Um ano depois da publicação deste que foi seu único volume lançado em vida, a previsão sombria se concretizou para seu autor. Em 6 de julho de 1871, a tuberculose matou Antônio Frederico Castro Alves, com apenas 24 anos de idade. A Doença dos Poetas, como ficou conhecida, matava não só mais um escritor, mas o autor que representava o derradeiro ciclo do romantismo genuíno da poesia nacional.Os historiadores de nossa literatura costumam situar Espumas Flutuantes como o canto do cisne de um tipo de literatura que reinou, com diferentes aspectos, não só na produção literária nacional, mas de todo o mundo. Desde meados do século 18, com o movimento alemão Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), uma mentalidade de entregar a alma a ardentes paixões e irracionalismos causados pelo amor, com intenso sofrimento e até o sacrifício da própria vida, espalhou-se na prosa e na poesia em quase todos os países do Ocidente, fazendo a fama de autores das mais diferentes origens, vertentes e estilos.No Brasil, isso se fez por diferentes meios. Nos romances um tanto idílicos que remetiam a um indigenismo artificial, como os clássicos de José de Alencar, ou nos versos que se derramavam em figuras líricas, como aqueles compostos por Casimiro de Abreu, esse romantismo foi a linha mestra de nossos autores ou daqueles que nos influenciaram por cerca de um século. Muitas fases foram vividas nesse processo e Castro Alves, nascido e formado nesse meio, enveredou pelo mesmo terreno, mas já apontando para mudanças. Seu romantismo era evidente, mas ele prenunciava o realismo que logo se imporia.No final de sua brevíssima vida, em 1868, o baiano Castro Alves, nascido na pequena Muritiba em 14 de março de 1847 e que passou parte de sua fase adulta em Salvador e no Recife, voltou seus olhos para a sociedade a sua volta. Já estudando em São Paulo e incentivado pelo efervescente clima da Faculdade de Direito que cursava, ele decidiu que seu talento poético deveria contemplar questões sociais. Estudando na mesma turma de seu conterrâneo Rui Barbosa, começou a olhar para a vergonhosa chaga da escravidão. Seria reconhecido postumamente como o poeta que abordou mais pungentemente o tema.Os versos do poema O Navio Negreiro faziam parte de um projeto maior, um livro que se chamaria Os Escravos. As seis partes dessa obra terminada em 1868 seriam incluídas no livro que só seria publicado postumamente, em 1883, no auge dos debates abolicionistas. Quando os compôs e denunciou a desumanidade que o regime escravocrata significava, Castro Alves posicionou-se de maneira polêmica em uma sociedade conservadora e que resistia a qualquer contestação nesse sentido. Atrás de um grande amor, Eugênia Câmara, ele saiu do Recife e foi para o coração da sociedade cafeeira. Seria uma experiência breve.Talvez provocado pelo que assistia em torno de si, Castro Alves viveu uma fase de intensa produção. Seu romantismo e sua poesia social encontraram os elementos necessários para se desenvolverem. Por um lado, teve uma grande desilusão amorosa, com o fim do romance com Eugênia. Por outro, seus problemas de saúde se agravaram, fazendo-o vislumbrar seu fim com mais nitidez. Permeando tudo isso, estava no centro de debates acalorados, convivendo com escritores e jornalistas que ajudavam a pautar o debate público, travando suas lutas, dedicando-se a combater a escravidão.É nesse contexto que lança Espumas Flutuantes. Com sua produção poética dos anos anteriores, deu continuidade ao projeto de Os Escravos e começou a pensar em outros trabalhos que não teria tempo de terminar. Castro Alves tinha pressa. Não é difícil imaginar as razões para isso. Em 1869, ele sofreu um acidente durante uma caçada, levando um tiro no pé. O ferimento não cicatrizou e pouco tempo depois foi necessária sua amputação. Já era um sinal inequívoco da fragilidade de seu organismo, combalido desde a adolescência com diversas crises. A tuberculose, porém, se aproveitou para avançar.Em 1870, já bastante doente, Castro Alves deixou os estudos em São Paulo e voltou à Bahia para tentar restabelecer a saúde em climas mais amenos nas fazendas de parentes no interior. Na época, vivia uma paixão platônica pela cantora italiana Agnese Trinci Murri e isso o induziu a produzir versos que o colocaram na escola romântica, com temáticas amorosas e até sensuais, mas sem negligenciar sua poesia social. Fazem parte deste último grupo de seus trabalhos o poema A Cachoeira de Paulo Afonso, que Castro Alves definiu como “continuação do poema Os Escravos, sob o título de Manuscritos de Stênio”.Castro Alves não viveu o suficiente para ver a Abolição da Escravatura, mas seus versos inspiraram aqueles que lutaram pela causa nos anos seguintes. A denúncia contida em O Navio Negreiro ecoa até hoje. Não à toa, o poeta costuma ser comparado a autores como Victor Hugo, que também levantou bandeiras por meio de sua literatura, como a extinção da pena de morte na França. “Adeus... arrasta-me uma voz sombria,/ Já me foge a razão na noite fria!...” Sua despedida da vida não significou seu desaparecimento da história. Foram apenas 24 anos de existência, mas já há um século e meio que ele se mantém vivo.Quanta dor naqueles versosNegras mulheres, suspendendo às tetasMagras crianças, cujas bocas pretasRega o sangue das mães!Outras, moças, mas nuas e espantadas,No turbilhão de espectros arrastadas,Em ânsia e mágoa vãs!Um pesadelo em alto mar, onde a morte é a companhia mais constante, onde as famílias se separam pelo luto ou pela arbitrariedade de quem se diz seus donos, onde as ondas são as testemunhas de genocídios, de morticínios, de dramas recolhidos a porões insalubres, onde a esperança se esvai como as entranhas castigadas por comida podre, por água salgada, pela humilhação do cativeiro. Os versos de O Navio Negreiro, poema que tem como subtítulo Tragédia no Mar, são das mais dolorosas denúncias de uma catástrofe abissal.Dialogando com os grandes navegadores da literatura, dos helenos descritos por Homero na Odisseia aos portugueses descritos nos versos de Os Lusíadas, de Camões, Castro Alves estabelece uma comparação que é, ao mesmo tempo, sarcástica e vigorosa, revelando os horrores da realidade dos navios negreiros, com suas “cargas” vivas, de homens, mulheres, crianças, todos com um destino terrível pela frente. Sequestrados de suas terras, subtraídos de suas vidas, eles fazem a viagem final e sabem disso.