Na Encíclica “Magnifica humanitas” (humanidade magnífica, em latim), o papa Leão XIV ressalta a importância das relações com “presença física” e de agir para “reduzir a velocidade onde tudo se acelera”. O texto foi publicado nesta segunda-feira (25) pelo Vaticano.Pontos importantes, principalmente na educação de crianças e jovens, atesta Rafael Parente, pós-doutor em Desenvolvimento Educacional Internacional pela Universidade de Nova York, diretor-executivo do Instituto Salto e membro da Comissão Técnica do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático). Contudo, para ele, chama atenção o fato de que o papa “saiu da cartilha do entusiasmo e da do apocalipse e legitimou a dúvida”. O que mais chama a atenção na primeira encíclica do papa Leão XIV? O que mais me pegou não foi a frase do “desarmar a IA”, que virou manchete em todo canto. Foi uma admissão no meio do texto. Em certo ponto, o papa, que é matemático de formação, escreve que as inteligências artificiais de hoje são “mais cultivadas do que construídas”, e que nem mesmo quem as projeta sabe direito como elas funcionam por dentro. Pare para pensar no tamanho disso. A maior autoridade moral de uma instituição de 2 mil anos olha para a tecnologia do momento e diz, com todas as letras, que ninguém entende bem o que está acontecendo. Quem quer vender otimismo não fala assim, mas quem quer vender pânico também não. Essa é a fala de quem está, como todos nós, no meio de uma travessia. E acho que é por aí que se explica como o assunto se tornou viral. Tem gente atribuindo o sucesso ao ineditismo, um papa falando de algoritmo. Mas a internet está cheia de gente falando de algoritmos. O que faltava era alguém de fora do Vale do Silício, de fora da briga comercial, dar nome a um mal-estar que as pessoas já sentiam, mas não conseguiam descrever com clareza. A mãe que vê o filho colado na tela sabe que tem algo errado, mas só dispõe de duas linguagens: a do entusiasmo, a IA vai salvar a educação, ou a do apocalipse, a IA vai destruir uma geração. O papa abriu uma terceira porta. Saiu da cartilha do entusiasmo e da do apocalipse e legitimou a dúvida. E a dúvida, quando legitimada, vira conversa de almoço no domingo. O papa alerta contra os efeitos potencialmente perniciosos do uso da IA na educação e nos relacionamentos. Vê riscos? Sim, e o que me impressiona é a precisão. Sobre os relacionamentos, ele faz uma distinção fina. O perigo que aponta vai além de a pessoa achar que conversa com um humano quando fala com a máquina. Isso seria ingenuidade, e a maioria de nós sabe que está falando com um sistema. O risco real é mais sutil. É a máquina imitar tão bem o conforto de uma conversa que a pessoa perca a vontade de procurar o outro de verdade, esse outro que dá trabalho, que decepciona, que demora a responder. Quando a palavra é simulada e não vivida, ela não constrói um vínculo. Constrói a aparência de um. E dá para passar anos numa aparência sem sentir falta do que se perdeu. Na educação, a ferida é gêmea dessa. A facilidade de obter a resposta pronta acarreta o risco de extinguir o desejo de fazer perguntas. Reparou que é o mesmo machucado nos dois casos? Tanto a amizade quanto o aprendizado dependem de uma fricção que a máquina remove. O atrito de ir atrás do outro, o atrito de não saber. Qual a importância do alerta sobre IA ser feito pelo papa? Quando vem de quem conduz uma igreja de mais de um bilhão de pessoas e não tem produto de IA nenhum para defender ou atacar, o alerta perde o cheiro de interesse. Fica quase impossível acusar o papa de ter medo de perder mercado. É essa a força da posição dele. Ele diz o que muitos de nós dizemos, livre da suspeita que recai sobre nós. No caso da educação, como desarmar a IA da lógica da competição citada pelo papa? Aqui a encíclica me atravessou de um jeito muito direto, porque toca no centro do meu trabalho. Quando Leão XIV fala em competição cognitiva, ele está apontando para uma corrida que não é só tecnológica. É uma disputa para ver quem calcula mais rápido, quem prediz melhor, quem acumula mais dados, quem transforma inteligência em vantagem. O problema é que, quando trazemos isso para dentro da escola, percebemos que a IA não inventou essa lógica. Ela apenas escancarou uma lógica que já estava lá. A escola brasileira, em grande parte, ainda funciona como uma máquina de competição cognitiva. Premia quem responde primeiro, quem termina antes, quem acerta mais rápido, quem se adapta melhor à régua da prova. A pergunta costuma valer pouco. O erro ainda é tratado como falha. A dúvida, muitas vezes, parece perda de tempo. E esse é exatamente o jogo em que a IA é imbatível. Se a régua da escola for a velocidade da resposta certa, a máquina ganha de qualquer criança, todos os dias, sem suar, sem café e sem recreio. Desarmar a IA na educação, para mim, é mudar o jogo. É tirar a tecnologia da lógica da performance, da disputa e da substituição, e colocá-la a serviço da curiosidade, da colaboração, da autoria e do pensamento crítico. É parar de perguntar apenas “qual é a resposta correta?” e começar a perguntar “que pergunta deveríamos estar fazendo?”, “que problema merece ser investigado?”, “que evidências sustentam essa conclusão?”Desarmar a IA na educação é isso: recusar a escola como corrida de respostas e reconstruí-la como comunidade de perguntas. Porque, quando a resposta vira mercadoria, a máquina ganha. Mas quando a pergunta vira cultura, a educação volta a ser profundamente humana. O papa propõe “um jejum de IA”. Esse ‘jejum’ é o indicado? É indicado, sim, mas muita gente leu “jejum de IA” como largar a tela, ficar longe do celular, fazer um detox digital com nome novo. Isso pode ter seu lugar, especialmente quando falamos de crianças pequenas e exposição excessiva. Mas o ponto mais profundo é outro. O jejum de IA é cognitivo antes de ser digital. Ele não mira o aparelho. Mira a tentação da resposta pronta. Boa parte da formação intelectual acontece justamente no tempo em que o aluno ainda não sabe. Na dúvida, no erro, na tentativa torta, na frase que não fecha, no raciocínio que precisa ser refeito. Esse tempo parece improdutivo, mas é ali que a aprendizagem respira. Quando a IA encurta esse processo cedo demais, ela não poupa apenas esforço. Ela pode poupar a criança da experiência de se tornar autora do próprio pensamento. No que se refere à regulação e proteção, como avalia o Brasil, que acaba de implementar o ECA Digital? Vou começar pelo orgulho. A encíclica pede leis que estabeleçam limites, responsabilizem plataformas e não joguem nas costas das famílias o peso de proteger as crianças sozinhas. O Brasil fez isso em março, com o ECA Digital. Um país do sul global, tantas vezes tratado como atrasado nas discussões sobre tecnologia, chegou cedo dessa vez e isso precisa ser dito em voz alta. Mas lei no papel e lei na vida são duas coisas bem diferentes no Brasil. Responsabilizar plataformas no texto legal é o primeiro passo. Fazer valer, fiscalizar, punir e mudar práticas concretas é mais complexo.