Um total de R$ 13.326.706,48 poderiam ter sido poupados dos cofres públicos em Goiânia se sete das grandes obras na capital estivessem terminadas desde o prazo que foram anunciadas. Ao todo, as obras somam hoje mais de R$ 472 milhões, mas o valor inicial estava orçado em cerca de R$ 459 milhões. O prejuízo é ainda maior se levar em conta os transtornos causados para a população durante a demora para a entrega e ainda o tempo sem uso dos espaços públicos, que culmina em desvios de trânsito, sinalização, agentes e fiscais da Prefeitura que ficam à disposição.Na lista das obras feita pelo POPULAR o critério utilizado foi de verificar as obras nas vias urbanas e de grande impacto para a cidade, ou seja, a demora na entrega de construções ocorre ainda em outros projetos, como de unidades de educação e de saúde. De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), responsável pela maior parte dos projetos, “no geral, as obras urbanas contam com muitos imprevistos, como desapropriações, chuva, falta de insumos, interferências, como rede de água e energia que precisam ser removidos, entre outros”, o que justificaria os problemas nas estimativas de prazos.Dentre as obras, destacam-se construções que beneficiam diretamente a população que utiliza o sistema de transporte coletivo metropolitano, sendo os corredores de ônibus BRT Norte-Sul e T-7. Os dois são projetos iniciados em 2015 e que tinham a previsão para serem finalizados em dezembro de 2016, mas continuam sem finalização. No caso do Corredor T-7, começado em fevereiro de 2015, ao menos não houve alteração no valor da obra, visto que se trata de um financiamento via governo federal em um programa na época especificamente para obras de mobilidade, mas trata-se do contrato campeão no número de aditivos, estando no seu 13º atualmente.A obra era contratada para ser finalizada em dezembro de 2016, mas com promessa de ser entregue até mesmo em outubro daquele ano, durante a gestão do ex-prefeito Paulo Garcia (PT). O mandato de Iris Rezende (MDB), no entanto, recebeu o serviço paralisado e foram várias as promessas de retomada, sendo a primeira em março, mas a volta só ocorreu em outubro daquele ano, com promessa de entrega para dezembro de 2018. No entanto, em outubro de 2019 surgiu uma nova estimativa de término: março de 2020. Em seguida, uma nova expectativa para outubro e depois dezembro daquele ano. Agora, a gestão atual fala em finalizar o corredor que vai da Praça Cívica até o Terminal Bandeiras em junho de 2022.Já o BRT, que também deveria ser entregue no final de 2016, apenas no trecho entre os terminais Isidória e Recanto do Bosque, houve um aumento de R$ 24 milhões nos custos em um total de 12 aditivos, mas no trecho entre os terminais Isidória e Cruzeiro ocorreu uma redução de R$ 15 milhões. Essa diferença ocorre porque uma fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2017 verificou um sobrepreço no processo de licitação para o trecho, que está programado para ser executado com recursos diretos do Orçamento Geral da União (OGU).A diferença seria na ordem de R$ 11 milhões. A situação, no entanto, também foi responsável pela paralisação da obra, já que a Caixa Econômica Federal deixou de repassar a verba em decorrência da apuração das irregularidades. Ainda em 2018, Prefeitura e Ministério Público Federal (MPF) realizaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para o retorno das obras. Para que o BRT continuasse a ser construído foi firmado um novo cronograma financeiro e o consórcio que havia vencido a licitação para a execução do serviço ficou apenas com o trecho II (entre o Isidória e o Recanto do Bosque).O combinado era que as pistas do corredor seriam finalizadas até dezembro de 2019, para que em 2020 ocorresse o processo licitatório do outro trecho. Mesmo sem cumprir o acordo, o outro trecho foi novamente licitado, e por um valor mais baixo que ainda foi reduzido durante a disputa no processo. O trecho II deveria ser entregue em dezembro de 2020, mas a promessa de agora é para o final deste ano. Já o trecho I é estimado para ser finalizado apenas em meados de 2022. Na mesma época a Prefeitura promete entregar também a Avenida Leste-Oeste entre o Setor Central e Senador Canedo, obra que deveria estar pronta desde dezembro passado.Para este ano, a Seinfra informa que duas obras que já deveriam estar prontas desde o ano passado deverão ser totalmente utilizadas pela população. Para outubro está programada a finalização do Viaduto Lauro Belchior, que liga o Setor Leste Universitário ao Jardim Novo Mundo, passando sobre a BR-153, ao lado da sede da Enel Goiás. A construção deveria estar sendo usada pelos motoristas da capital desde março do ano passado, se o cronograma inicial tivesse sido cumprido. Já em dezembro, o viaduto da Avenida Jamel Cecílio com a Marginal Botafogo deve ficar pronto, com um ano de atraso e cerca de R$ 4 milhões de gastos a mais.Engenheiro aponta dificuldadesO presidente do Clube de Engenheiros de Goiás e ex-secretário da Seinfra, Dolzonan da Cunha Mattos, explica que diversos fatores contribuem para que os prazos estimados para a realização das obras não sejam cumpridos. Ele aponta que problemas burocráticos e o modelo da licitação prejudicam a realização das obras. “As licitações preveem o menor preço e muitas empresas que estão em situação difícil, precisando de recurso, oferecem um preço muito baixo, que não dá para fazer a obra”, conta. Mattos relata que na sua gestão as empresas eram chamadas e avisadas de que não conseguiriam cumprir o acordo, mas ele não podia fazer nada.“A licitação é de menor preço, a empresa atende o edital, ganha a licitação, tem que assinar o contrato e dar ordem de serviço. Teve caso de uma empresa que ganhou uma licitação com preço muito baixo, abandonou a obra e na próxima licitação fez a mesma coisa”, diz. Atualmente, pelo menos duas obras na capital estão atrasadas e as empresas passam por problemas financeiros: a construção do Complexo Viário Jamel Cecílio e a revitalização da Praça do Trabalhador. No primeiro caso, a Loctec, está em recuperação judicial.Mattos afirma que os índices de preços que devem ser utilizados nas licitações públicas também são defasados e que isso se tornou um problema durante a pandemia de Covid-19, quando houve falta de materiais, os custos aumentaram e houve dificuldade de entrega para as obras públicas. O engenheiro diz também que outros problemas prejudicam o andamento da obra, como o caso das desapropriações. “O ideal é que só se começasse uma obra se tudo já tivesse preparado, com as desapropriações feitas, mas as vezes demora muito, o morador judicializa a questão, ganha liminar e (se esperar) não faria a obra.”De acordo com o engenheiro, o melhor meio de realizar uma licitação com maior possibilidade de cumprir os prazos seria um processo com o melhor preço e não o menor. “Teria que ter um preço razoável, mínimo, que dê para fazer a obra. Antigamente a concorrência era sobre o preço médio, que ninguém sabia e quem aproximasse mais, dentro de um desvio, ganhava. Mas o problema era que nem sempre esse preço era desconhecido por todos os participantes”, lembra, ao alertar sobre as possibilidades de fraudes que a situação poderia conceder.-Imagem (Image_1.2294828)-Imagem (1.2294862)