Em Urutaí, a 168 km de Goiânia, a formatura no mês de dezembro da primeira mulher indígena em um curso superior no câmpus local do Instituto Federal Goiano (IF Goiano) traz uma enorme simbologia. Gilmara Rodrigues de Souza, de 36 anos, que fez licenciatura em Química, é um dos mais de 300 membros de sua etnia, os Xakriabá, do norte de Minas Gerais, que mantém uma estreita ligação com a unidade federal de ensino em Goiás, uma história que teve início em 2008.Inspirada por outros jovens de sua etnia, que já tinham percorrido os quase 1 mil km que separam sua reserva de Urutaí, Gilmara chegou ao câmpus do IF Goiano em 2015 para fazer o curso técnico em Agropecuária. “Eu queria fazer alguma coisa para ajudar em casa. Meu objetivo é levar conhecimento para meu povo”, relata. Ela fez a graduação em Licenciatura em Química e já se mudou para Campinas (SP) onde está matriculada no curso de Engenharia Química, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).Em 2022, 28 jovens da etnia Xakriabá estavam matriculados em cursos de ensino médio do IF Goiano em Urutaí, todos residentes no câmpus, onde vivem 380 alunos. Gilmara viveu na unidade durante sete anos e sua passagem por ali na visão da professora Cristiane Maria Ribeiro, homenageada pela indígena na cerimônia de formatura, foi um divisor de águas. “Ela não só deu voz a esses estudantes, como marcou a ligação da reserva com o câmpus de Urutaí. Depois dela, dois pesquisadores fizeram dissertações de mestrado relatando a construção dessa relação.”Para Cristiane Maria, que durante a vida acadêmica de Gilmara presidia o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas do Câmpus Urutaí (Neabi), antes, os indígenas que viviam no câmpus eram invisíveis. “Eles passaram a ter voz, debater, reivindicar e denunciar os preconceitos que sofrem. Aprendi muito com essa convivência.” Acolhida no Neabi, Gilmara venceu as dificuldades ao receber aulas extracurriculares e se sentiu à vontade para expor preconceitos e estereótipos enfrentados por ela e os demais alunos de sua comunidade.O fotógrafo Eliakim de Araújo Ferreira, colega de graduação de Gilmara, de quem se tornou amigo íntimo, concorda. “A convivência foi de muito acolhimento e respeito, percebi as barreiras que enfrentam fora da aldeia e aprendi demais sobre a cultura deles.” Em 2018, fotografias do profissional retratando alunas da etnia com pinturas corporais e adereços típicos, fizeram parte de uma exposição no câmpus dentro de um evento promovido pelo Neabi.Leia também: - Anielle Franco será ministra da Igualdade Racial, anuncia Lula- Centenário de Dom Tomás Balduino é celebrado com exposição fotográfica no IHGG, em Goiânia- Último representante de seu povo, 'índio do buraco' é encontrado morto em ROLiga de estudantes Nos retornos à reserva durante as férias, Gilmara ensinou estudantes a preparar a documentação para conseguir bolsas destinadas a indígenas e quilombolas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), incentivando outras mulheres a buscar o ensino superior. Duas delas já estão em Urutaí. Aluna do curso de Nutrição, Sheila Lima da Silva, de 20 anos, preside a Liga Acadêmica Akwë Krënka, criada este ano, que reúne os estudantes do povo Xakriabá. “A gente viu a necessidade de lutar pelos nossos direitos e dar continuidade à nossa cultura”, explica. Danças e rituais da etnia estão sempre presentes nos eventos do câmpus.Sheila Lima conta que há dificuldades para manter na reserva profissionais da área de saúde que conheçam a história e as crenças da comunidade. “Quero voltar para levar conhecimento”, enfatiza. Hoje presidente do Consórcio de Pesquisadores Negros da Região Centro-Oeste, Cristiane Maria foi uma das docentes de Urutaí a visitar a reserva Xakriabá. “Eu passei a entender a cultura deles, a relação de afinidade que possuem com o seu território. Quando falam da terra não pensam em agronegócio, em valores materiais, mas em natureza, em vida.”Carência da região trouxe estudantes para Goiás A relação entre o povo Xakriabá, pouco conhecido em Goiás, e o câmpus de Urutaí do IF Goiano, começou por iniciativa do professor doutor Gilson Dourado da Silva. Natural da zona rural de São João das Missões (MG), onde fica a reserva da etnia, ele chegou à unidade em 1988, quando ainda se chamava Escola Agrotécnica Federal de Urutaí. Depois de concluir o curso técnico, fez graduação, mestrado e doutorado em Minas Gerais e São Paulo e voltou como docente. Em 2008 assumiu a direção da escola, ficando no cargo durante 11 anos.“Eu tive muita dificuldade para estudar, só visitava minha família uma vez por ano e sabia da carência da região. Resolvi aplicar provas em São João das Missões e divulguei na reserva para dar oportunidade aos jovens indígenas”, conta o hoje pró-reitor de Desenvolvimento Institucional do IF Goiano. Desde então, segundo o último levantamento, mais de 300 estudantes da reserva passaram pelo câmpus de Urutaí e retornaram às suas aldeias, com o curso técnico ou graduação. Outros dão continuidade aos estudos em outras instituições. Em várias ocasiões, equipes do IF Goiano de Urutaí estiveram na reserva Xakriabá para entender melhor a realidade local. Depois, com os cortes orçamentários, a instituição fez parcerias com as prefeituras de São João das Missões, cujo município abriga 36 aldeias da etnia, e de Itacarambi, na mesma região, para fazer o transporte dos alunos até Urutaí. Nos últimos quatro mandatos, a gestão de São João das Missões é conduzida por um representante indígena. O atual prefeito, que costuma visitar os estudantes de sua comunidade em Urutaí, é Jair Cavalcante Barbosa, um dos líderes da aldeia Brejo Mata Fome.Representante da etnia foi eleita deputada federal Com cerca de 12 mil integrantes espalhados por 37 aldeias, o povo Xakriabá vive às margens do Rio Itacarambi, no norte de Minas Gerais, a cerca de 700 km da capital mineira. Mas nem sempre foi assim. No século 18, eles ocupavam uma área de 200 mil hectares às margens do Rio São Francisco, e após embates com bandeirantes e pecuaristas foram empurrados para o interior, uma região árida, com vegetação predominante de Cerrado. Por causa da seca, esses indígenas perderam a autonomia alimentar.A homologação da Terra Indígena Xakriabá só ocorreu em 1987 e em 2003 foi acrescentada em área contínua a Terra Indígena Xakriabá Rancharia, onde vive a família de Gilmara de Souza. Há 15 anos, a etnia, que hoje ocupa um terço do território original, luta pela demarcação de mais 43 mil hectares, que daria um pequeno acesso ao Rio São Francisco, aumentando assim a possibilidade de uma produção agrícola mais consistente.O povo Xakriabá, catequizado por jesuítas e que ao longo dos anos recebeu grande influência externa, vive atualmente um forte processo de valorização cultural para proteger sua identidade. Jovens da etnia são incentivados à prática de rituais como o toré, uma dança circular em que se cultua Yayá, a divindade que nasceu do mito da onça-cabocla. Escolas indígenas no território ampliam a prática dos saberes culturais. Pinturas corporais e artesanato em barro, sementes, penas e folhas são alguns dos patrimônios dos Xakriabá. Uma grande esperança desse povo indígena foi depositada este ano em Célia Xakriabá, representante da etnia eleita deputada federal pelo Psol com mais de 100 mil votos. Ativista das causas indígenas reconhecida internacionalmente, a nova integrante da Bancada do Cocar já avisou que seu mandato será de resistência. “Vou legislar no Congresso Nacional com o compromisso com o meio ambiente, com o território, com o chamado da terra, que me trouxe até aqui”, disse ela após a eleição. Mestra em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília e doutoranda em antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Célia Xakriabá é uma das fundadoras da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade. Em setembro último, durante a segunda edição do projeto Vida em Prosa e Verso: Reflexões Profundas do Cotidiano realizado no câmpus do IF Goiano de Urutaí, quando se discutiu a temática Povos Originários, uma frase de Célia Xacriabá ecoou no ambiente estudantil: “Antes do Brasil da coroa, existia o Brasil do cocar”, disse um dos alunos.