Atualizada às 20h17

Uma das mais importantes pesquisadoras e especialistas em educação do Brasil, Claudia Costin foi a entrevistada desta terça-feira (25), do programa Chega pra Cá, do POPULAR, conduzido pela jornalista Cileide Alves. Diretora-geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da Fundação Getúlio Vargas, e ex-diretora de Educação do Banco Mundial, ela disse que a escola é, no atual momento, o lugar mais seguro para a criança estar. Claudia Costin chamou de sensata a decisão do Conselho Estadual de Educação (CEE) de Goiás em manter aulas presenciais e remotas, em casos especiais, em razão dos números altos da Covid-19. 

Claudia Costin afirmou que os tempos são desafiadores, mas ressaltou que a pandemia trouxe perdas enormes na educação em todo o mundo, como atesta relatório recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A pesquisadora lembrou que o Brasil foi um dos países que ficaram mais tempo com escolas fechadas e perderam todos em termos de aprendizagem, tanto os alunos de escolas públicas, de forma mais intensa com o aprofundamento das desigualdades, quanto os de escolas particulares, o que não dá para recuperar de forma rápida. “Queremos crianças indo para o quarto ou quinto ano analfabetas?”, questionou. 

“Um dos lugares mais seguros para as crianças estarem agora, neste contexto em que há festas, restaurantes e comércio abertos é a escola. As crianças de meios mais vulneráveis estão nas ruas expostas à pandemia e à toda sorte de danos.” Claudia Costin enfatizou que os professores já tomaram três doses da vacina contra a Covid-19 e uma boa parte dos adolescentes recebeu duas doses. “Foi profundamente errado retardar com argumentos ideológicos a vacinação das crianças, mas isso não será uma catástrofe. As férias e os encontros de Natal e Ano Novo contribuíram mais para o agravamento da doença do que qualquer outra coisa. Fizeram bem as redes de Goiânia e do estado em retomar as aulas com os protocolos biossanitários.” 

Para a especialista em educação, os aprendizados proporcionados pela pandemia serão úteis daqui para a frente na relação entre famílias e escolas. “Pais devem valorizar mais o trabalho dos professores. Ser professor é uma profissão bastante complexa. Este diálogo deve ser preservado e intensificado. Professores foram para a linha de frente, e orientaram os pais nesse período.” Claudia Costin salientou que em dois anos de pandemia o País teve muito aprendizado, apesar das perdas de aprendizagem.

“Bem ou mal os alunos à distância aprenderam a se adaptar a uma situação cambiante, os adultos também. Tiveram de aprender a outras formas de aprendizado, desenvolver empatia pelo outro e abertura ao novo. Os professores também tiveram um aprendizado profissional intenso. O que precisamos agora são boas políticas públicas para construir em cima desse aprendizado e na relação pedagógica.”

Sobre a decisão do Conselho Estadual de Educação (CEE) de autorizar aulas remotas em situações específicas com o fim do Regime de Aulas Não Presenciais (Reanp) em dezembro último, Claudia Costin entendeu se tratar de uma medida sensata. “A pandemia não acabou. Temos de ter estratégia para eventuais surtos e daí a importância do monitoramento e da testagem. A humanidade descobriu que a aprendizagem precisa acontecer com ou sem escola, até em regime híbrido. Especialistas dizem que novas pandemias podem ocorrer, mas a educação não pode parar. Não temos o direito de pensar pequeno em termos de educação.” 

Para Claudia Costin, os dois anos de escolas fechadas mostraram que o Brasil não valoriza a educação. Segundo ela, muitos prefeitos que assumiram um ano após o início da pandemia não fizeram investimentos necessários para um retorno seguro e usaram o argumento de que professores queriam retardar a volta das aulas. “É uma hipocrisia dizer que a educação é prioridade, desde que não precise gastar com educação, valorizar o professor e assegurar o direito de aprender, principalmente para os mais pobres e vulneráveis.” 

Claudia Costin disse à Cileide Alves que “está muito brava” com a tentativa da Confederação Nacional dos Municípios de modificar o critério de reajuste do piso salarial dos professores. “Professores ganham muito pouco e com contratos fragmentados. Eles têm de se locomover para completar um salário. Temos de caminhar para a educação de tempo integral, com dedicação exclusiva e remuneração atrativa para reter os talentos. Sem isso não se constrói uma educação de qualidade.”

Confira a íntegra da entrevista