A Polícia Civil do Estado de Goiás (PCGO) investiga uma denúncia que atribui a morte de Chris Wallace da Silva, de 24 anos, a agressões supostamente cometidas por policiais militares. O jovem que tratava de um câncer nos ossos havia dez anos morreu na terça-feira (16), após ficar internado por seis dias no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde deu entrada com descrição médica de espancamento.Em entrevista ao POPULAR, a mãe de Chris, Vanderlete da Silva Leite Souza, de 40 anos, conta que o filho saiu de casa na última quarta-feira (10) por volta das 19 horas para ir a uma distribuidora de bebidas. O retorno foi breve, cerca de 20 minutos depois. “Eu o vi entrar de uma vez dentro de casa. Quando olhei para ele assustei, porque vi que os dois lados do rosto estavam vermelhos”, relata Vanderlete.A chegada apressada em casa fez parte dos últimos momentos de Chris vivo e com consciência. Antes de ser levado para o Hugo, o jovem vomitou sangue e relatou à família, por meio de gestos, que havia sofrido agressões durante uma abordagem policial. Os militares ainda não foram identificados, mas câmeras de segurança registraram parte da movimentação deles. A abordagem teria sido realizada na Rua FV 32, no Residencial Fidélis, em Goiânia, que se liga à FV 38, a via onde Chris morava com a família.Reclamando de fortes dores de cabeça, o jovem também apresentava hematomas na barriga, na mão e no braço. “Ele pediu um analgésico para dor de cabeça, e no momento de desespero eu dei achando que ia resolver alguma coisa. Ele estava sentado e eu falava: ‘Meu filho você apanhou de alguém?’ e ele balançava a cabeça dizendo que sim. ‘Você estava fazendo alguma coisa? Só me responde, foi a polícia?’, e ele balançou a cabeça que sim (sobre a polícia)”, conta a mãe.A confirmação da história veio momentos depois. O colega que estava acompanhando Chris no momento da abordagem, identificado apenas como Marcos, contou para a família que os dois foram abordados e agredidos por policiais. Há no relato de Marcos um agravante na denúncia. Segundo ele, ambos alertaram os policiais de que Chris tinha câncer nos ossos, o que tornava o corpo mais sensível.O câncer que Chris tentava vencer desde os 14 anos era um mieloma múltiplo, caracterizado principalmente por fraturas ósseas que são agravadas diante de esforços físicos. No relatório médico registrado pelo Hugo no último dia 12, o hospital descreve sobre o quadro de saúde de Chris: “Encontra-se em internação em unidade de terapia intensiva em estado gravíssimo devido a espancamento com trauma cranioencefálico, contusões abdominais e pulmonares. Apresenta-se sedado, em ventilação mecânica por intubação orotraqueal. Devido à gravidade, sem previsão de alta”. Quatro dias depois do registro do relatório, Chris faleceu.Mais de 12 horas após o início da repercussão do caso, a Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO) ainda não havia se manifestado sobre o assunto e não identificou os militares supostamente envolvidos na abordagem. O POPULAR solicitou resposta da PM e da Secretaria de Segurança Pública (SSP), mas ambos não se pronunciaram até o fechamento desta reportagem, nesta quarta-feira (17).DefesaA defesa da família, que já registrou denúncia na PC, diz que irá pedir indiciamento dos policiais por homicídio doloso, tipo de crime quando se tem plena consciência de que as ações cometidas podem tirar a vida de outra pessoa. A PC não quis falar sobre as investigações, alegando que por envolver outra corporação, a manifestação deve partir da SSP.“A partir do momento que os PMs têm conhecimento sobre a doença, e mesmo assim praticam os atos de maneira abrupta e desproporcional, eles assumem o risco de causar o resultado que causaram. O homicídio é doloso”, sustenta Emanuel Rodrigues, um dos advogados da família de Chris. O advogado pondera que mesmo sem a doença, pelos graus das agressões, o caso já poderia ser enquadrado como homicídio doloso.O advogado Diogo Emílio, que também compõe o suporte à família de Chris, diz que não há hipótese possível para justificar o ocorrido. “Ele não estava em situação de flagrante, ele não estava colocando ninguém em risco e nada justificaria”, diz Diogo. O advogado Emanuel complementa: “Se ele estava portando algo, porque não foi registrado boletim de ocorrência? Não foi conduzido para a delegacia? Cadê o registro de abordagem?”.Vida de Chris foi marcada pela luta contra mieloma A vida de Chris foi marcada pela luta contra o câncer. A mãe dele conta que a rotina simples e com pouco dinheiro na cidade natal do filho, em Aragarças, no interior de Goiás, foi confortável até Chris completar 10 anos. Foi com essa idade que as dores nas costas e nas pernas viraram motivo de queixas diárias. “Ele brincava durante o dia e à noite chorava com dor”, conta a mãe. Sem diagnóstico, as dores eram tratadas com analgésicos e relaxantes musculares. “Depois de alguns anos, quando ele tinha por volta de 14 anos, eu recebi uma ligação da escola dizendo que ele tinha desmaiado e machucado a coluna”, lembra Vanderlete. Após o trauma na coluna que o deixou sem andar, a família pagou uma tomografia, o exame que descobriu o mieloma, o marco do início do tratamento. “Na primeira consulta com a médica, a oncologista pediu para tirar o Chris de dentro do quarto e falou ‘Mãe, leva seu filho para casa para ele ter uma morte digna, perto da família, porque a doença está muito avançada’. Eu falei que enquanto houvesse esperança eu ia continuar com ele dentro do hospital e que ninguém ia tirar ele dali”, detalha a mãe. Com o pulso firme de Vanderlete, os médicos iniciaram o tratamento com quimioterapia e transplante de medula, a primeira foi concretizada cerca de um ano após o início do acompanhamento médico. “Nos primeiros seis meses após o transplante, a doença não se manifestou de forma alguma, acho que foi a melhor época da vida dele, que ele pode viver, viajou. Consegui levar ele ao Amazonas. Juntei um dinheiro para poder levar (ele), porque o sonho dele era esse”, relembra a mãe sobre os bons momentos.Por conta da característica do câncer de Chris, os momentos de estabilidade da saúde vinham e voltavam. “Teve um momento que eu falei para ele: ‘Meu filho, queria que fosse eu no seu lugar’ e ele assustou e disse: ‘não, mãe, isso dói demais’”, relata Vanderlete. Mesmo enfrentando a doença, a mãe via na força do filho a possibilidade de tê-lo vivo por muito tempo. “Ele era um jovem, queria viver a vida”, acrescenta Vanderlete. Chris não concluiu o ensino médio, foi até a terceira série, mas decidiu parar em um dos momentos em que a doença se agravou. Mesmo assim não queria ser dependente da família e havia começado a trabalhar como barbeiro. “Para ele, a pior coisa era se sentir imprestável. Ele queria ter autonomia, buscava, mas não tinha força para trabalhar, era como se fosse uma pessoa idosa de 80 anos”, destaca a mãe sobre a fragilidade de Chris. Esperança por justiçaDiante da morte, Vanderlete descreve, aos prantos: “Sensação de impotência, de tristeza, não sei dizer. É uma dor que não passa em momento nenhum. Eu tinha o maior cuidado com meu filho para ele não se quebrar, cuidava e me dispunha de tudo na minha vida por ele. Se meu filho tivesse morrido por causa do mieloma eu estaria mais conformada”.Apesar do trauma, a mãe diz que acredita que será feita justiça no caso do filho, e que terá forças para lutar por isso. “Eu acredito na Justiça. Apesar de ter policiais que fazem isso e agem dessa forma. Eu guardo a força dele. Muitas vezes eu via ele gemer de dor, mas não chorava. Ele era tão forte que conseguiu chegar em casa andando. É uma força que se fosse eu lá levando a surra que ele levou dos policiais, eu tinha morrido”, diz Vanderlete.-Imagem (Image_1.2356426)