O novo ano chegou com velhos problemas preservados. Na virada para 2021 famílias tradicionais de Goiânia decidiram lançar um grito de mobilização na esperança de resguardar o acervo arquitetônico, histórico e cultural do Cemitério Santana, o mais antigo da capital e tombado pelo Município de Goiânia desde 2000. Inconformados com o descaso e o abandono, descendentes de pessoas sepultadas no local decidiram contratar uma empresa de segurança para impedir que vândalos violem os jazigos.Reclamações de famílias que possuem jazigos no local são constantes. Maria Dulce Loyola Teixeira, nora de Mauro Borges Teixeira, ex-governador de Goiás e filho de Pedro Ludovico Teixeira, o fundador de Goiânia, ressalta que todos os túmulos do Cemitério Santana têm algo faltando, desde uma letra, até placas inteiras, puxadores ou estátuas. O próprio jazigo de Pedro Ludovico Teixeira, que é tombado pelo Município, já foi alvo de vândalos. “A Prefeitura não faz nada para evitar isso, nunca fez.”De acordo com Maria Dulce a ideia é que a empresa de segurança privada faça um contrato com cada uma das famílias, gerando um boleto individual, mas em bloco elas garantiriam a presença de seguranças armados no local. A movimentação não foi comunicada à Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), que é responsável pela administração dos cemitérios públicos. “Estamos resolvendo entre nós, porque a omissão é grande. Seria algo semelhante ao que é feito em quarteirões, quando se coloca vigias particulares”, explica ela.Depredação de túmulos, retirada de placas de metal e roubo de estátuas são atos recorrentes no Cemitério Santana há anos. Denúncias de familiares junto à administração do lugar seguem no mesmo ritmo, mas as soluções não surgem. “Cada vez que vou lá me deparo com algo que foi levado. Fico revoltada. A gente gastou para fazer o túmulo, mas não tem ninguém para olhar pelo espaço que é público”, reclama Selva Rios Sócrates Vasconcellos, filha do primeiro pediatra de Goiânia, José Vital Sócrates. As placas com os nomes de seu pai, da mãe Odete e de uma irmã que morreu em 1953, já tinham sido levadas, mas ela ficou indignada ao verificar que a identificação do irmão, que partiu em setembro último, também foi roubada.Foi Selva que acionou o estudante e pesquisador da história goiana Yuri Baiocchi sobre o recrudescimento dos problemas no Cemitério Santana. Ela já sabia que Yuri havia resgatado em 2019 uma estátua de Cristo, em bronze, em tamanho real, que ficava no jazigo de seu trisavô, Pilade Baiocchi. A obra de arte ficou por um tempo na casa de uma prima de Yuri e agora está no apartamento dele, no Setor Bueno, aguardando o momento de ser reinstalada.O pesquisador conta que para ter a estátua de volta enfrentou um embate com servidores da administração do campo santo. “Eu a encontrei num barracão que fica nos fundos do cemitério. Olhei pela janela e vi que ela estava lá dentro e pedi para levá-la. Provei que era do jazigo da nossa família, disse ela tinha sido furtada, mas não queriam me entregar. Eu arrombei a porta e ameacei chamar a polícia. Peguei a estátua e não falaram nada. Por que ela estava lá, por que não comunicaram nada à família?”, questiona. A obra é de autoria dos artistas plásticos Cleber Gouvêa e Ângelo Ktenas.Em fevereiro deste ano outro Cristo foi levado do túmulo da família do desembargador Augusto Rios, poeta. Avô de Selva e também trisavô de Yuri, eles tiveram notícias de que alguém viu a obra de arte sendo transportada por cima do muro do cemitério, mas os familiares não conseguiram reavê-la. Selva Rios detalha que também foi levado do jazigo um livro com a poesia Ave Maria em alto relevo, de autoria do avô, que foi lida em seu sepultamento. “É uma coisa absurda o que está acontecendo ali e ninguém toma providência.”Embora a mobilização das famílias tenha ocorrido em meio à mudança de gestão municipal, a Semas informou ao POPULAR que “intensificará a ronda e, em parceria com a Guarda Civil Metropolitana (GCM), reforçará as ações de segurança no local”. Conforme a nota, quando há qualquer tipo de violação nos túmulos, que devem ser cuidados pelas famílias, elas são comunicadas. A Semas disse ainda “que está aberta ao diálogo com o grupo formado pelos descendentes das famílias tradicionais para ouvir as demandas e buscar melhorias para a preservação do patrimônio público”. Projeto para visitação foi engavetadoOficialmente inaugurado com o nome de Cemitério Nossa Senhora de Santana, o mais tradicional campo santo de Goiânia completou 80 anos em dezembro último. Em 2000 após aprovação do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico foi tombado em ato do então prefeito Nion Albernaz. A decisão evidenciou a importância histórica e cultural do lugar pelos fortes traços arquitetônicos em art déco e pelo grande número de obras de arte. Ali estão mausoléus de figuras marcantes da história da capital, como do próprio Nion Albernaz. Apesar de ser uma referência para estudiosos e curiosos da arte tumular, nunca recebeu a atenção devida.Em 2015, a Associação das Empresas Funerárias do Estado de Goiás (Aefego) elaborou em parceria com o arquiteto Leo Romano um projeto para transformar o Cemitério Santana num ponto de visitação turística. “O projeto foi entregue para a Prefeitura e desapareceu. A ideia era preservar a arquitetura art déco, as obras de arte dos jazigos e melhorar as alas, transformando o cemitério num ambiente de cultura e visitação”, afirma Omar Layunta, que preside a Aefego. Ele considera o lugar de grande importância histórica para a cidade. “Ali estão as comunidades que fizeram parte da construção de Goiânia, entre elas estrangeiras como árabes e japonesas, com inscrições nos túmulos em línguas nativas.”Omar Layunta lamenta que até agora, apesar do tombamento pelo Município, não houve interesse público para preservar o Cemitério Santana a exemplo de outros lugares do mundo. “Cemitérios representam a sociedade e podem ser estudados de várias formas.” O presidente da Aefego sugere que o titular da Semas recém-empossado, José Antônio da Silva Netto, escolha para a Diretoria da Central de Óbitos, que é responsável pela gestão dos cemitérios públicos, alguém com conhecimento de causa, que tenha sensibilidade para a questão. “Nós vamos insistir no projeto para fazer do Cemitério Santana um lugar decente.”