O julgamento do caso Valério Luiz foi suspenso pouco antes do início do segundo dia de depoimentos, após um dos jurados passar mal e quebrar o isolamento. Ele teria deixado o hotel onde estava hospedado, durante a madrugada desta terça-feira (14), o que não é permitido, pois resulta em quebra de incomunicabilidade. Diante disso, o juiz Lourival Machado dissolveu o Conselho de Sentença e adiou novamente o júri.

“Triste notícia a dar a todos. A nossa sessão infelizmente se encerra agora”, afirmou o juiz. Uma nova data foi marcada para 5 de dezembro.

Informações preliminares apontam que o jurado seria intolerante à lactose e, após a sessão de ontem, teria saído por conta própria. Valério Luiz Filho, filho da vítima, lamentou o ocorrido. "Eu pessoalmente queria continuar, mas o MP como fiscal da lei, viu que não havia condições porque a gente não sabe o que o jurado fez na madrugada”.

Conforme informou o Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), todos os depoimentos da acusação colhidos no primeiro dia perdem a validade. Um novo Conselho de Sentença deverá ser formado para dar início a um novo julgamento.

O juiz informou que mal-estar do jurado e a falta de condições para participar da sessão foram constatados, já em plenário, por um médico do TJ-GO. O magistrado reiterou "que não há necessidade de segurança no hotel, visto que qualquer tipo de ameaça a jurado já invalidaria sua participação, que precisa ser isenta".

Ainda de acordo com o magistrado, a manutenção da incomunicabilidade é feita por oficial de justiça e ressalta que não houve qualquer prejuízo processual, "uma vez que foi dissolvido o Conselho de Sentença".

Regras

O Conselho Nacional de Justiça tem uma publicação em que explica que o Código de Processo Penal prevê que 25 jurados devem ser sorteados para cada sessão de julgamento. Desses, somente sete comporão o conselho de sentença. Para ser jurado é necessário ter mais de 18 anos, não ter antecedente criminal e morar na comarca onde o júri será realizado.

A publicação detalha que o sorteio é realizado antes de começar o julgamento. Defesa e acusação têm o direito de, cada uma, recusar três jurados sorteados. Depois da escolha dos sete, os outros jurados presentes são dispensados.

Durante o julgamento, que pode durar vários dias, os integrantes do conselho de sentença ficam incomunicáveis. Se o júri passar de um dia para outro, os jurados fazem as refeições no Fórum e são encaminhados para dormir em hotéis, determinados pelo Judiciário e supervisionados por oficiais de justiça.

Jurados

Durante o julgamento, os jurados ficam proibidos de conversar sobre o caso, telefonar, ler jornais, assistir TV, ouvir rádio ou acessar a internet. Até a resolução do caso, eles permanecem em regime de isolamento máximo. Nos intervalos do julgamento, eles podem conversar entre eles, contudo, somente sobre amenidades.

Se um jurado quiser mandar um recado para casa, ele deve escrevê-lo e entregar ao oficial de justiça, que ligará e transmitirá o recado. Durante o julgamento, os jurados podem fazer perguntas por escrito e entregar ao oficial de justiça, que encaminhará a questão ao juiz. O juiz responde ou pede para que a resposta seja dada pela promotoria ou pela defesa.

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Julgamento

Depois de ser adiado por três vezes, o julgamento do empresário Maurício Sampaio, acusado de ser o mandante do assassinato do radialista Valério Luiz, e outros quatro réus, teve início na segunda-feira (13), em Goiânia. No primeiro dia de júri foram ouvidas quatro testemunhas de acusação. A primeira foi o delegado Hellynton Carlos de Carvalho, que liderou as investigações sobre a morte do jornalista. Segundo ele, Maurício Sampaio, à época vice-presidente do Atlético Goianiense, era a única inimizade de Valério. O desafeto entre os dois seria motivado pelas críticas feitas aos dirigentes do clube goiano, que enfrentava uma fase ruim.

Durante o depoimento do delegado, o advogado Valério Luiz Filho, que faz parte da assistência de acusação, interrompeu uma das perguntas dos advogados de defesa dos acusados, sob alegação de que estariam fazendo sustentação oral - ato que seria impróprio para o momento. Por sua vez, o advogado Luiz Carlos Silva Neto, que lidera a defesa de Maurício Sampaio, afirmou que o filho do radialista não teria direito de interromper as perguntas da defesa, e iniciou uma série de acusações.

“Aqui não é Rede Globo. Pedimos que ele (Valério) não interrompesse e ele interrompeu uma segunda vez. Se eu não for firme, ele vai querer comandar aqui. Ele comanda, através da mídia, todos neste tribunal”. O depoimento do investigador durou 3h30.

A segunda testemunha ouvida foi o publicitário Alípio Nogueira, que trabalhava com Valério na época do crime. O ex-colega de trabalho falou sobre a convivência com o radialista e detalhou bastidores que incluem pressões contra o trabalho de Valério como comentarista esportivo. Em um dos trechos, disse que foi procurado pela diretoria do Atlético para escrever uma carta impedindo Valério de frequentar o clube. Diante do pedido, disse que não concordou.

No dia do crime, o ex-colega do radialista escutou os tiros e chegou ao carro em que Valério estava cerca de um minuto e meio depois. No local, teria encontrado duas pessoas, entre elas Urbano de Carvalho Malta, um dos acusados.

Outra testemunha ouvida foi o radialista André Isac da Silva. Segundo ele, Valério Luiz e Maurício Sampaio tiveram um bom relacionamento no passado. No entanto, após críticas, o ex-dirigente do Atlético teria dito a Valério que “quem criticava o Atlético não servia pra ser amigo dele”.

O cronista esportivo Daniel Almeida Santana Reis, que era diretor da emissora onde Valério trabalhava na época do crime, foi a quarta testemunha ouvida no primeiro dia de julgamento. De acordo com ele, depois da carta que proibiu a ida do radialista e do restante de sua equipe ao clube, respeitou a decisão do Atlético.

O júri suspenso nesta terça-feira (14) era uma continuação da sessão que foi iniciada em 2 de maio, quando a defesa de Sampaio abandonou o plenário, alegando suposta suspeição do juiz e dos promotores que atuam no caso.

Crime

Valério Luiz de Oliveira, na época com 49 anos, foi morto quando saía da emissora de rádio em que trabalhava, no dia 5 de julho de 2012, no Setor Serrinha, em Goiânia. A motivação do crime seriam as críticas feitas pelo radialista contra a direção do Atlético Futebol Clube, da qual Sampaio fazia parte. De acordo com as investigações, no dia 17 de junho de 2012, ao falar a respeito de possível desligamento de Maurício Sampaio da diretoria do time, Valério teria dito que “nos filmes, quando o barco está afundando, os ratos são os primeiros a pular fora”.

O caso foi investigado pela Polícia Civil e quatro pessoas, além de Sampaio, foram indiciadas por homicídio e denunciadas pelo Ministério Público de Goiás: o sargento reformado da PM Ademá Figueredo, apontado como o autor dos disparos; o empresário Urbano Malta, acusado de contratar o policial militar; o sargento da PM Djalma Gomes da Silva, que teria ajudado a planejar o crime e Marcus Vinícius Pereira Xavier, que também teria ajudado a planejar o homicídio. Este último reside atualmente em Portugal.