A adoção do regime militar na Educação de Goiás ganhou uma nova linha de frente nos últimos dois anos. Além dos 60 colégios estaduais com administração da Polícia Militar (PM) e 31 em processo de implantação existentes, sete escolas municipais foram militarizadas desde janeiro de 2018. São prefeituras que decidiram desenvolver os próprios modelos, através de projetos de lei aprovados nas Câmaras de Vereadores e a contratação de policiais da reserva para cargos nas gestões das instituições de ensino.

Sem o aval do Comando de Ensino da Polícia Militar, essas escolas criam suas fardas, hinos e símbolos específicos, que fazem alusão ao militarismo, sem ser idênticos aos utilizados pelos colégios militares estaduais. Outra diferença é a faixa etária dos alunos. Enquanto os estaduais abrangem estudantes a partir do 5º ano, as municipais começam no 1º, com crianças de 6 anos. Em Moiporá, cidade a 170 km da capital, o método militar é aplicado até na Educação Infantil.

Por conta do aumento de vagas e da procura de pais que querem matricular seus filhos, gestores dessas escolas dizem entender que o novo formato está em expansão e tem forte apoio da maior parte da população de cada município. Em Indiara, a aprovação foi tamanha que a prefeitura já inaugurou uma segunda escola municipal militarizada, implantada no início deste ano, e planeja uma terceira.

Entre as mudanças aplicadas está a inclusão no currículo das disciplinas de “Ética e Cidadania” e “Ordem Unida”, similar às antigas “Educação, Moral e Cívica” e “Organização Social Política Brasileira” (OSPB), tornadas obrigatórias no currículo escolar brasileiro em 1969, durante a Ditadura Militar, e suspensas após a redemocratização, em 1993.

Com exceção da unidade de Alto Horizonte, todas as escolas municipais militarizadas estão na Região Sudoeste do Estado, onde também fica o município de Rio Verde, berço da Athenas Cursos Gerenciais, empresa responsável pela assessoria dada às prefeituras para a implantação de seis das sete escolas municipais militarizadas. Apenas uma delas, em Moiporá, foi criada em parceria com uma organização não governamental (ONG), a Guardiões da Vida, voltada ao escotismo, que é presidida por um coronel reformado da PM e realiza o trabalho de forma voluntária.

Pedagoga responsável pela Athenas, Deusdetina Alves de Alecrim é professora aposentada e trabalhou no colégio militar Carlos Cunha Filho, em Rio Verde, ao lado do sargento reformado Eterno Pereira de Paula. Ele também participa da assessoria para implantação do colégio. Eles orientam todo o processo de implantação do militarismo na escola, desde o pré-projeto, com audiências públicas e aprovação de lei nas Câmara, até a formação de professores e coordenadores.

Apesar das escolas adicionarem o termo “militarizada” no nome da instituição, Deusdetina defende que a nomenclatura correta é “gestão compartilhada”. “Muitas pessoas não entendem, fica parecendo que os militares chegaram e tomaram o lugar dos civis”, explica a pedagoga. Ela garante que, assim como nas unidades militares estaduais, a parte pedagógica do ensino fica por conta de civis e os militares são responsáveis apenas pela área disciplinar. A média é de 4 militares contratados por escola e eles vêm de várias áreas, não só da PM, mas também do Exército e Bombeiros.

Deusdetina explica que o valor da assessoria do Athenas varia de acordo com a distância da cidade em que o modelo é implantado. Quanto mais próximo de Rio Verde, menor o valor, por causa do gasto com transporte. A prefeitura de Acreúna, município mais próximo, a cerca de 80 km, pagou cerca de R$ 17 mil à empresa, segundo a Secretaria de Educação local. O tempo para essa implantação vai de seis meses a um ano.

Corte de cabelo gerou polêmica em Moiporá
Mesmo com apoio massivo dos moradores da cidade, a escola militarizada de Moiporá sofreu críticas de alguns pais de estudantes. Cinco deles se negaram a cortar os cabelos dos filhos segundo o novo regramento, aparado baixo na máquina. A instituição é a única na cidade que oferece vagas do Ensino Infantil até o 5º ano do Ensino Fundamental. 

A mãe de um aluno de 7 anos da escola, que não fez o corte obrigatório, contou para a reportagem que houve “pressão psicológica” para a criança se adequar ao estilo militar, mas que concorda com o resto do método da escola. “O que tem a ver o corte de cabelo com a pedagogia?”, questiona. Ela não aceitou se identificar na reportagem a pedido do marido, que, segundo ele, “não quer criar polêmica ou briga com prefeito.”

Sem o corte, a criança fica proibida de ir em passeios escolares. “Ontem eu decidi cortar um pouco com tesoura, porque ele pediu: ‘Mamãe, eu quero cortar, eu não quero ficar diferente dos outros meninos”, relata. 

A mãe também conta que foi muito criticada por alguns pais que cortaram o cabelo dos filhos. “Falaram que eu estava idolatrando o cabelo do meu filho. Aqui em casa ninguém idolatra nada, porque nossa família é evangélica.”

“É um método de ensino e não de estilo de vida”, defende o pai, que também apoia a escola, mas diz não concordar com autoritarismo. 

Educação infantil também marcha
“Qual é a mão?”, questiona uma estudante de 5 anos de idade sobre a forma correta de fazer a posição de continência. “É com a direita”, explica o instrutor militar segurando o riso. Desde janeiro, uma manhã por semana, os alunos da Educação Infantil da Escola Municipal Sabino Mamédio, em Moiporá, ficam em forma, cantam o hino nacional e bradam o grito de guerra da organização não governamental (ONG) Guardiões da Vida. “Unidos lutaremos e seremos vencedores!”, diz trecho da letra. É a primeira instituição de ensino militarizada do Estado com alunos menores de 6 anos. As unidades estaduais matriculam a partir de 10 anos. 

A reportagem esteve na escola na última quinta-feira e assistiu à solenidade realizada por 24 crianças. As regras são semelhantes às dos estaduais, mas com algumas adaptações por conta da idade. Para esses menores, o corte de cabelo tem que ser baixo e feito com máquina, mas pode ser um pouco maior que os de 6 anos. A formação com o hino semanal passa a ser diária a partir do 1º ano do Ensino Fundamental. 

Meninas vão com os cabelos amarrados em coques e usam a mesma roupa dos meninos: camiseta branca com o símbolo da prefeitura, calça verde escuro e sapatos pretos. Brasões feitos de papel EVA são colados no ombro e indicam a turma escolar que a criança faz parte. A maioria ainda vai de tênis, mas alguns já exibem os sapatos brilhantes, bastante lustrados. Quatro meninos não seguem o corte de cabelo apropriado. “Aqui ainda tem fora de padrão”, explica a diretora da escola, Tharlla Karolinny Vieira Machado, que também é secretária de Educação da cidade, que possui cerca de 2 mil habitantes. 

A ONG fez uma parceria com a prefeitura para implantar a escola. Um integrante da Guardiões da Vida, que é guarda civil aposentado, divide a diretoria com Tharlla. Integrantes militares reformados visitam a instituição de ensino frequentemente para averiguar se o regimento está sendo cumprido. 

Líder da ONG, o coronel da reserva Élvio Mendes de Castro defende que mesmo com pouca idade, as crianças da Ensino Infantil já estão aptas para seguir o novo regime. O oficial, que também é pastor da igreja Assembleia de Deus, diz que segue o princípio bíblico que diz para ensinar a criança o caminho que deve andar para ela não se desviar dele quando estiver mais velha. Ele também defende que com práticas de escotismo, os estudantes teriam uma maior interação entre si, com menos influência precoce de tecnologias como tablets, celulares e a internet. 

Doutrina Sã
Na Escola Municipal Militarizada Olavo Bilac, em Indiara, cerca de 100 km de Goiânia, o modelo militar é aplicado a partir da 1ª série, com crianças de 6 anos de idade. O uniforme, com quepe e tons de azul, foi criado pela própria instituição, assim como um hino e músicas de motivação, que são cantados pelos estudantes durante a formação diária.

Trecho do hino da escola celebra uma vitória que está eminente e diz que “ensinar a sã doutrina, essa é a hora”. Em um vídeo propaganda divulgado nas redes sociais, os estudantes realizam performances militares com uma trilha sonora de fanfarra ao fundo, enquanto frases aparecem na tela. “Pedagogia e militarismo!”, diz uma delas. “Respeito à autoridade constituída!”, diz outra, enquanto uma criança presta continência à professora dentro de uma sala de aula. 

O secretário de Educação de Indiara, Teófilo Bispo, conta que um prefeito de uma cidade vizinha chegou a se emocionar ao ver a execução do hino da escola sendo feita por cerca de 200 crianças durante um desfile militar. “Tem uma melodia apelativa que arrepia”, elogia. 

Deputado quer ajuda do Estado
O deputado estadual coronel Adailton Florentino (PP) é autor de um requerimento para que o governo estadual apoie escolas municipais militares, que será votado pela Assembleia. A ideia é que o Estado pague os salários dos militares que trabalham para as escolas dessas prefeituras.

Adailton diz conhecer os responsáveis pela assessoria de prefeituras na militarização. Ele defende que o nome correto do projeto é “gestão compartilhada”, para ser aceito com mais facilidade. “As pessoas mais esquerdistas não gostam do ‘militarizada’”, justifica. 

A ideia do requerimento surgiu depois de visitar a unidade militarizada de Piranhas, segundo o deputado. Ele defende que o método militar é eficiente mesmo para bebês. “Se acompanhar o desfile de 7 de Setembro, você pode observar que a criança está praticamente marchando no colo do pai. Se colocar ela pequenininha no chão, ela já começa a marchar imitando o soldado da PM. É uma maneira lúdica de incutir esses valores na cabeça dela.”

MP questionou Quirinópolis
Em novembro de 2017, o Ministério Público entrou com uma ação contra a cobrança de taxas na Escola Municipal Militarizada Canaã, em Quirinópolis. Na época, a Justiça barrou a cobrança do valor e a promotora Angela Acosta Giovanini afirmou que iria questionar a constitucionalidade da lei que militarizou a escola. Ela também questionou a falta de eleição para a direção e de diálogo com a comunidade para implantação do modelo.

Pedagoga responsável pela assessoria da prefeitura de Quirinópolis na militarização da Escola Canaã, Deusdetina Alves nega que haja cobrança de taxas, que isso seria feito de forma voluntária e que, na verdade, haveria uma confusão de entendimento por parte dos pais. Ela também defende que o modelo militar orientado por sua assessoria é de acrescentar o militar e não de tirar funções dos civis que já estavam na escola. 

Outras três prefeituras do Estado já contrataram os serviços do Athenas e estão com projeto de lei prontos para a militarização. Além delas, mais três cidades de Goiás, uma em Minas Gerais e uma no Mato Grosso demonstraram interesse no projeto, de acordo com Deusdetina. Ela diz que não teve autorização dos municípios para revelar o nome das cidades. Segundo ela, a divulgação poderia atrapalhar a aprovação do projeto.