O processo judicial no qual o comerciante Elmi Caetano Evangelista, de 74 anos, respondia pela acusação de ajudar o criminoso Lázaro Barbosa de Souza na sua fuga em Cocalzinho de Goiás em junho do ano passado está parado desde o dia 5 de novembro, quando a Justiça adiou o julgamento previsto para o dia 8 daquele mês e liberou o réu de usar tornozeleira eletrônica. O titular da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP), Rodney Miranda, chegou a chamar o comerciante de psicopata e dizer que integrava uma rede de proteção a Lázaro. A Polícia Civil acrescentou em entrevista que essa rede era formada por fazendeiros da região. Elmi se dizia inocente da acusação. Essa rede nunca foi identificada.Além de Elmi, a esposa e a ex de Lázaro também foram acusadas de ajuda-lo na fuga, mas ao contrário do comerciante, as duas tiveram o processo encaminhado para o juizado de pequenas causas e, no caso delas, foi proposto o pagamento de uma multa de R$ 550 para encerrar os processos. Apenas o procedimento contra o comerciante seguiu adiante.Prisão ElmiElmi foi preso no dia 24 de junho de 2021, em sua chácara, em Cocalzinho, três dias antes de Lázaro ser morto durante uma abordagem policial em Águas Lindas de Goiás. Lázaro vinha sendo procurado pelas forças de segurança de Goiás e do Distrito Federal desde o dia 9 de junho, quando matou uma família em uma chácara em Ceilândia (DF). Na fuga, o criminoso efetuou uma série de crimes, como roubos, furtos e tentativas de homicídio. No dia 28, foi morto por 38 tiros disparados por uma equipe da PM.A força-tarefa criada pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) de Goiás para encontrar Lázaro descobriu que um dos lugares que ele usava como esconderijo era a chácara de Elmi. A desconfiança teria vindo quando o comerciante se recusou a deixar os policiais entrarem na propriedade no dia 23. No dia seguinte, eles foram lá novamente e encontraram o caseiro, que alertou os policiais sobre a presença de Lázaro desde pelo menos o dia 18. Inclusive, minutos antes da entrada da PM no local, o criminoso estava escondido ali e seu vulto teria sido visto por um dos policiais.Na versão de Elmi, ele estava contrariado sobre a forma como os policiais entravam na sua propriedade destruindo a plantação e não teria impedido a entrada de nenhum deles. Ele também afirmava que não sabia da presença do Lázaro no local e achava que o caseiro estava equivocado sobre o que viu. Posteriormente, o próprio caseiro já admitiu que não acreditava na culpa do ex-patrão.InquéritoNo inquérito policial, ao qual O POPULAR teve acesso na época, é citado um boato que era forte entre os policiais militares: o suposto envolvimento de Lázaro com magia negra. Na chácara, no dia da prisão, foi encontrado um fosso com penas de galinhas, manchas de sangue e pichações numa das casas, além de velas vermelhas. Em um dos depoimentos, um PM faz a ligação disso com a suposta magia negra. O fosso, entretanto, era usado justamente como depósito para restos de animais e as velas eram enfeites, segundo a família de Elmi e o caseiro.Outra prova arrolada foram duas espingardas com numeração raspada encontradas no local. Na ocasião, a polícia chegou a dizer que uma delas havia sido roubada em outra propriedade por Lázaro. Mas posteriormente laudos periciais mostraram que elas nem mesmo funcionavam e erma muito antigas.A terceira prova foi um áudio que Elmi teria mandado para um grupo de Whatsapp dizendo que Lázaro estava escondido em sua casa. O caseiro também disse ter ouvido algumas vezes ele gritando pela janela chamando Lázaro para almoçar, mas acreditava ser em tom de brincadeira. Em julho, quando Elmi ainda estava preso, familiares e amigos dele disseram ao POPULAR que ele era muito brincalhão e que tinha mania de fazer piada com situações sem pensar nas consequências. Uma testemunha que teria ouvido o áudio foi ouvida pela Polícia e repetiu a versão da família.Após a morte de Lázaro, o titular da SSP chegou a afirmar que a pasta entraria na Justiça para confiscar a chácara de Elmi para bancar parte dos custos com a força-tarefa. Até o momento nenhum processo foi aberto. O comerciante ficou preso por 23 dias, mas seguiu com tornozeleira até novembro. Seu julgamento foi adiado por tempo indeterminado por questões burocráticas e administrativas do próprio Judiciário, envolvendo acúmulo de varas e de processos por parte do magistrado que respondia na época por Cocalzinho. Ele seguia sem poder sair de casa das 19h às 6h do dia seguinte e sem poder se ausentar de Águas Lindas de Goiás, onde ficava sua residência.Nas últimas manifestações registradas na Justiça, a defesa de Elmi alegava não haver motivos para seguir com as medidas cautelares que restringiam sua liberdade, que ele cumpriu rigorosamente tudo que foi pedido pelo magistrado e que ele estava com problemas de saúde. Já o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), pedia a manutenção das medidas, alegando não ter surgido nenhum fato novo para revoga-las. A causa da morte de Elmi não foi divulgada.Leia também:- Polícia não acha rede de apoio a Lázaro Barbosa durante investigação- Polícia conclui inquéritos sem apontar rede de apoio de Lázaro Barbosa- Áudio de acusado de ajudar Lázaro Barbosa foi 'brincadeira', diz testemunha