“Eu achava que estava preparada para ser mãe, mas é um susto atrás do outro.” A frase é de Marceliza Varanda Souza, de 35 anos, que no dia 8 de dezembro de 2021 deu à luz à Luísa, a primeira filha. Moradora de Abadia de Goiás, na região metropolitana de Goiânia, ela encontrou no projeto Guardiões da Vida - Prematuros, o suporte para enfrentar os sobressaltos comuns às mães de primeira viagem. A menina, que nasceu antes do tempo previsto e precisou de internação na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal (UCIN) do Hospital Materno Infantil (HMI), é monitorada pela ação idealizada pela Secretaria Estadual de Saúde (SES).O projeto, elaborado na Superintendência de Atenção Integral à Saúde (Sais), através da Coordenação da Rede Materno Infantil, é desenvolvido desde o dia 10 de dezembro último pelo Centro Estadual de Orientação em Saúde (Cori). Na fase inicial, estão sendo monitorados oito bebês que nasceram prematuros e precisaram de cuidados na UCIN, nenhum deles por causa da Covid-19. Coordenador do Cori, Fabrício Montes explica que recebe demandas de toda a SES e esta, em especial, é inspiradora. “As mães são acolhidas por uma psicóloga e orientadas por um médico. Acredito que muito em breve vamos expandir esse trabalho.”Coordenadora da Rede Materno Infantil da Sais, Alexandra Nunes de Assis, que há quase três décadas se dedica à neonatalidade e trabalhou na UCIN, explica que a ideia surgiu no auge da pandemia da Covid-19, antes da vacinação, quando foi preciso acompanhar gestantes contaminadas mais de perto, cuidado que refletiu em menor número de internação e de óbitos. “Pensamos em levar o monitoramento aos bebês prematuros porque a gente percebe que, ao sair da UCIN, eles pioram muito. E, normalmente, crianças que vão a óbito no primeiro ano de vida, precisaram de tratamentos intensivos logo que nasceram.”Fisioterapeuta e uma das primeiras tutoras do Método Canguru no HMI - modelo de assistência humanizado em que o bebê é colocado em contato com a pele dos pais -, Alexandra explica que dentro do hospital as mães aprendem a reconhecer sinais de alerta, mas sempre há intercorrências quando as crianças recebem alta da UTI. “Elas se ocupam de outros afazeres, estão cansadas e a grande maioria tem dificuldade de acesso a um socorro imediato.” Outra questão importante é que muitas deixam de amamentar, o que é fundamental para a melhoria da condição imunológica do bebê e para ganhar peso.O HMI foi escolhido para desencadear o projeto por ser a unidade referência goiana do Sistema Único de Saúde (SUS) para partos de alto risco. “Nosso trabalho é orientar as mães para que elas evitem sair de casa em busca de atendimento médico emergencial e exponham as crianças a outras patologias num pronto-socorro”, explica o pediatra neonatologista Flávio Matias de Moraes, que da sede do Cori, em Goiânia, faz o monitoramento e as orientações pelo telefone, por ligações de voz ou vídeo. Ele explica que grande parte das famílias beneficiadas vive no interior do estado.A ideia simples tem feito enorme diferença no cotidiano dessas famílias. “Outro dia liguei para uma mãe que já estava com as malas no carro para vir a Goiânia porque o menino não evacuava há três dias. Depois da minha orientação, ela não viajou e o problema foi solucionado. A gente minimiza os riscos. Esse trabalho tem sido muito gratificante”,diz o médico.Para ingressar no projeto, as mães respondem a algumas perguntas elaboradas pelos idealizadores. “O monitoramento não substitui as consultas”, alerta Alexandra, explicando que muitas mães desaparecem após a alta do bebê, contribuindo para a sua vulnerabilidade.Denise Suguitani é fundadora e diretora executiva da Associação Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros (ONG Prematuridade), baseada em Porto Alegre (RS) que desde 2014 se dedica à prevenção de partos prematuros, à educação continuada para profissionais de saúde e à defesa de políticas públicas voltadas para as famílias. Para ela, a ideia é muito válida e pode vir a somar nas ações para reduzir o número de prematuros no Brasil, mas lembra que governos precisam investir na prevenção, como incentivar o pré-natal bem feito e em políticas de planejamento familiar.“Um susto atrás do outro”, diz mãe de recém-nascidoMarceliza Souza acredita que pode estar pagando um alto preço por ter menosprezado o pré-natal. Ela morava com o marido Luiz Antônio num sítio no interior do Tocantins e, quando engravidou, o casal decidiu vir para Goiás em busca de melhores oportunidades. “Eu não conhecia nada, posto de saúde longe e com a pandemia preferi não ir. Fui uma vez e me disseram que a pressão estava alta, mas voltei para casa, reduzi o sal e tomei chá. Achei normal o inchaço porque toda grávida incha. Tive pré-eclâmpsia e um parto de risco. Luísa nasceu com baixo peso e problemas respiratórios. Ela estava com 39 semanas, mas os médicos disseram que desde a semana 27, minha placenta não a alimentava direito. Minha filha ficou na UTI durante 18 dias”, conta. A “marinheira de primeira viagem” praticou o Método Canguru, recebeu orientações na UCIN de como cuidar da filha, mas não se sentia segura quando teve alta. “Estou achando maravilhoso ser monitorada porque tenho muitas dúvidas. Me sinto mais segura com a orientação do dr. Flávio porque sou inexperiente.” O que mais chama a atenção do pediatra é a dificuldade das mães em absorverem as instruções. “No momento da alta dizem que entenderam, mas quando chegam em casa todas as dúvidas aparecem.” Em Nova Veneza, também na Grande Goiânia, a situação não é diferente para Luma Larissa Silva Camargos, de 25 anos, que em outubro do ano passado deu à luz ao primeiro filho, Alexandre Henrique. A gravidez estava normal até os seis meses, mas depois iniciaram dores e sangramentos. O parto foi às pressas e o garoto veio ao mundo pesando 1.385 kg e precisou de cuidados intensivos. Luma viu o filho 20 dias depois, mas a internação se estendeu por mais de um mês. O leite secou e ela não pode amamentar. O primeiro grande susto veio após uma mamadeira. “Ele ficou molinho, parecia que parava de respirar. Minha mãe o levou para o hospital daqui, mas logo foi para o HMI e ficou mais três semanas na UCIN entubado. “Agora o dr. Flávio me ajuda muito, me deixa mais calma e mais segura. Achei o máximo esse projeto. Um dia desses o bebê estava com a respiração ofegante, ele me disse o que tinha de fazer e não precisei levá-lo ao hospital. Ele me liga de duas a três vezes por semana”, detalha. Nos últimos dias, Luma precisou se afastar de Alexandre Henrique porque pegou Covid. O bebê não teve diagnóstico positivo e ficou sob os cuidados da avó. Mais de 300 mil bebês nascem prematuros no Brasil por anoDados da Rede Materno Infantil da SES mostram que Goiás possui taxa de prematuridade de 10,6%, menor do que o índice nacional que chega a 11,7%, o que coloca o Brasil em décimo lugar no ranking dos países com maior taxa de partos prematuros. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prematuridade é atestada em bebês que nascem antes das 37 semanas de gestação. Em média, 340 mil bebês brasileiros nascem antes do tempo todos os anos. Em Goiás, em 2021, ano em que os partos diminuíram por causa da pandemia da Covid-19, dos 87.561 nascidos vivos, nas redes pública e privada, 9.281 foram prematuros. Especificamente no HMI, foco do projeto Guardiões da Vida, nasceram 2.735 bebês, dos quais 1.674 eram prematuros e 137 deles não resistiram às consequências dessa antecipação, perdendo a vida no primeiro ano. Em 2019, a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicaram o relatório Sobreviver e prosperar: transformando o cuidado de todos os recém-nascidos pequenos e doentes. O documento destaca como os países podem fortalecer os cuidados para apoiar bebês nascidos muito pequenos ou muito cedo, utilizando não somente investimento público, mas uma melhor parceria com as famílias. Alexandra de Assis, da Sais, acredita que o projeto da SES é pioneiro e torce para que ele se torne uma estratégia exemplar de boas práticas.Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade, concorda. “Se existe algo, não conheço, mas a ideia é válida e eu gostaria de conhecer. A pandemia trouxe a possibilidade da telemedicina. Nesse acompanhamento é possível identificar situações de risco e antecipadamente intervir e fazer o encaminhamento adequado. “A prematuridade pode deixar algumas sequelas que só vão aparecer ao longo do tempo da primeira infância”.O ideal, segundo Denise, é que bebês prematuros sejam acompanhados por uma equipe multidisciplinar, mas o contato do médico neonatologista, mesmo à distância, desenvolve um vínculo entre o profissional e a família. “Hoje falamos muito em letramento em saúde, para garantir que o paciente entenda o que está sendo dito. Isso fará toda a diferença para a saúde, nesse caso para os prematuros. Muitas crianças e jovens que são atendidos em centros de reabilitação, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), nasceram prematuramente e ficaram com sequelas.