As queimadas na Amazônia, localizadas a quase 2 mil quilômetros de distância de Goiás, têm influências sobre a mudança na precipitação e na fotossíntese das plantas no Estado, de acordo com especialistas. O Brasil teve de 1º de janeiro até ontem, 76.720 alertas de incêndio - 85% a mais que o mesmo período de do ano passado. Destes, 40.341 ocorreram no maior bioma do País.A Amazônia exerce um papel importante para as chuvas no País, fornecendo umidade para as correntes de ar - popularmente chamadas de “rios voadores” - que transportam o vapor d’água para outras regiões do Brasil, como a Centro-Oeste e a Sudeste, além de países vizinhos, Argentina e Paraguai. Pós-doutor pela Nasa Ames Research Center e pesquisador titular e professor da Pós-Graduação em Meteorologia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o goiano Saulo Ribeiro de Freitas explica que as árvores têm um importante papel no processo de retirar água do solo e lançar na atmosfera, mas ressalva que alterações na cobertura vegetal reduzem esta ocorrência (veja quadro). “Quando há desmatamento, esta capacidade de reciclar água é afetada. Fica menos água disponível e se torna uma região mais seca”, afirma o especialista.Freitas acrescenta que com a queima, há a emissão de gases e fumaça na atmosfera. “Estes gases podem se combinar. Um exemplo que pode ocorrer é a formação de mais ozônio (O3), o que inibe a fotossíntese das plantas”, detalha o pesquisador.Durante a estiagem, como o momento atual, a fuligem produzida pelas queimadas é transportada por correntes de ar semelhantes às que atuam no período de chuva. Este processo é tido como o responsável pelo anoitecer na tarde do último dia 19 na cidade de São Paulo. Freitas afirma que não é totalmente descartada a possibilidade de isto acontecer em Goiás, entretanto, as condições atuais indicam que a ocorrência do fenômeno é “pouco provável.” Na tarde de ontem, imagens de satélite disponíveis no site do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) demonstravam que as nuvens de poluição não estavam concentradas no Estado.As chuvas Goiás e em outras regiões do País não são formadas apenas pela quantidade de vapor d’água. As áreas também recebem influência de massas de ar vindas do oceano e frentes frias de acordo com o coordenador-geral do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Marengo. “Nós sabemos que a Amazônia contribui significativamente para este transporte de umidade no ar (para outras regiões do País)”, acrescenta Marengo.O especialista explica que os modelos matemáticos utilizados nos estudos apontam que quando há significativa perda de mata, há consequências nas temperaturas e nas precipitações. “As temperaturas aumentam e o volume de chuva diminui”, explica.Marengo chama a atenção para os possíveis efeitos negativos sobre o agronegócio. Ele afirma que Mato Grosso do Sul, Goiás e outros Estados recebem o fluxo de vapor d’água. “Isto ocorre particularmente nos meses de verão: novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março. Depois disto, é a estação seca do ano. Este transporte diminui e quase desaparece, voltando a partir de outubro”. O fluxo originado na Amazônia coincide com o período de chuvas no Centro-Oeste.AcordoO especialista acrescenta ainda que no longo prazo as queimadas podem contribuir para o aquecimento global. “É extremamente importante manter a floresta, porque ela transporta umidade e absorve carbono, e por isto existem as medidas de mitigação (das mudanças climáticas) do Acordo de Paris para tentar reduzir o desmatamento o máximo possível. A floresta tira dióxido de carbono (CO2) da atmosfera”, pontua.