Os vizinhos de Chris Wallace da Silva, de 24 anos, que morreu na terça-feira (16) após supostas agressões durante abordagem de policiais militares no Residencial Fidélis, em Goiânia, dizem que a passagem de viaturas na região aumentou após a repercussão do caso. Ao mesmo tempo, nem a Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO) nem a Secretaria de Segurança Pública (SSP) se posicionaram publicamente sobre a denúncia, que cita a possibilidade de que a ação tenha sido registrada por câmeras de seguranças.

O movimento de viaturas teria se intensificado mesmo antes do velório de Chris, realizado entre a noite de quarta-feira (17) e manhã desta quinta-feira (18). O jovem, que lutava contra um câncer nos ossos há dez anos, morreu após ficar seis dias internado no Hospital de Urgências de Goiânia, onde deu entrada com descrição médica de espancamento. Antes de ser entubado, Chris disse à família que as lesões foram causadas por militares durante abordagem, mesma versão contada por um amigo que estava com ele.

Uma vizinha que era amiga de Chris relatou ao POPULAR que enquanto familiares e conhecidos do jovem estavam reunidos na porta da casa, à espera do início do velório, notaram a passagem de viaturas pelo menos três vezes. “Aqui no bairro você quase não vê polícia, e agora isso?”, questiona a amiga, que preferiu não se identificar. Há o receio por parte dos conhecidos de Chris de que os moradores que têm câmeras de segurança que registraram a ação se sintam coagidos. O bairro, que fica na Região Oeste da capital é pacato, tendo muitas ruas com lotes baldios e grandes áreas sem nenhuma construção.

Investigações

A denúncia registrada pela família no 11º Distrito Policial de Goiânia na terça-feira foi transferida para a Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH) no dia seguinte. As investigações são conduzidas pelo delegado Ernani Oliveira Cazer. Segundo a DIH, a apuração permanecerá em segredo pelo menos até a próxima quarta-feira (24). À reportagem, um dos policiais que investigam o caso disse que a equipe está na fase de colher os depoimentos de testemunhas, além da análise dos laudos da morte.

A recuperação das imagens de câmera de segurança está programada para os próximos dias, segundo a DIH. Até o momento, a defesa da família de Chris dispõe de gravações que não mostram o momento da suposta abordagem, mas que registraram o jovem caminhando com o amigo, identificado apenas como Marcos. Pouco tempo depois, surge um carro da PM com o giroflex desligado.

O amigo de Chris, que já foi ouvido pela Polícia Civil, diz que ele próprio avisou aos militares sobre a condição de saúde do amigo. “Não bate nele, ele tem câncer nos ossos”, teria dito Marcos, que afirma não só ter sido ignorado, como também ter sido ironizado pelos militares.

A defesa da família afirma que pedirá o indiciamento dos policiais por homicídio doloso, tipo de crime quando se tem plena consciência de que as ações cometidas podem tirar a vida de outra pessoa.

“A partir do momento que os PMs têm conhecimento sobre a doença, e mesmo assim praticam os atos de maneira abrupta e desproporcional, eles assumem o risco de causar o resultado que causaram. O homicídio é doloso”, sustenta Emanuel Rodrigues, um dos advogados da família de Chris. O advogado pondera que, mesmo sem a doença, pela gravidade das agressões, o caso já poderia ser enquadrado como homicídio doloso.

O advogado Diogo Emílio, que também compõe o suporte à família de Chris, diz que não há hipótese possível para justificar o ocorrido. “Ele não estava em situação de flagrante, ele não estava colocando ninguém em risco e nada justificaria”, diz Emílio. O advogado Rodrigues complementa: “Se ele estava portando algo, porque não foi registrado boletim de ocorrência? Não foi conduzido para a delegacia? Onde está o registro de abordagem?”.

O POPULAR solicitou resposta da PM e da SSP sobre o caso em seis oportunidades em menos de 24 horas, mas ambos não se pronunciaram até a conclusão desta reportagem, na noite desta quinta-feira (18).

 

Esperança por justiça

Enquanto o caso é investigado, familiares e amigos dizem esperar por justiça. Um dos amigos de Chris Wallace da Silva, um idoso conhecido como “Mato Grosso”, chorou ao falar com a reportagem. “Um menino bom, sempre que passava falava comigo e gostava de conversar”, diz.

Outra amiga que preferiu não ser identificada afirma que o jovem era afetuoso e ajudava aqueles que o cercavam. “E sempre forte. Dizia que o câncer não ia derrubá-lo. E de fato não derrubou”, diz a amiga.

Em entrevista ao POPULAR na quarta-feira, a mãe de Chris, Vanderlete da Silva Leite Souza, de 40 anos, diz que confia na Justiça. “Apesar de ter policiais que fazem isso e agem dessa forma. Eu guardo a força dele. Muitas vezes eu o via gemer de dor, mas não chorava. Ele era tão forte que conseguiu chegar em casa andando. É uma força que se fosse eu lá levando a surra que ele levou dos policiais, eu tinha morrido”, diz Vanderlete.

Mesmo com força, a mãe sintetiza o sofrimento vivido nos últimos dias: “Sensação de impotência, de tristeza, não sei dizer. Eu tinha o maior cuidado com meu filho para ele não se quebrar, cuidava e me dispunha de tudo na minha vida por ele. Se meu filho tivesse morrido por causa do mieloma eu estaria mais conformada”.