Os impactos do estresse na saúde e produtividade das empresas são apontados por 81% dos participantes de pesquisa feita pelo Instituto Habiens de Neurociência e Comportamento em parceria com a Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg). Para 96% dos trabalhadores, o estresse é um fator importante no clima da empresa, e 92,6% afirmaram que a saúde mental merece atenção especial.

O estudo é sobre a percepção que líderes, gestores e demais trabalhadores do setor produtivo em Goiás têm do estresse e do esgotamento mental no trabalho, e de como isso afeta a produtividade e a qualidade de vida dos trabalhadores no cenário atual.

Foram ouvidos 318 profissionais de várias áreas de atuação, dos quais 89,9% atuam no setor privado e 8,8% no setor público, no período de 20 de fevereiro a 10 de março deste ano.

Os trabalhadores responderam a questões como a maneira de abordagem do estresse nas empresas. Para 48,6%, o problema não é abordado de forma clara. Outra pergunta foi sobre os impactos do esgotamento e da síndrome de Burnout na saúde e produtividade da empresa: 52,7% dos trabalhadores disseram que pode impactar na produtividade da empresa e reverberar na marca empregadora.

A pesquisa indica que crescem as expectativas dos participantes por mudanças na forma como a empresa irá gerenciar o estresse após a reclassificação da síndrome de Burnout como condição resultante da má gestão do estresse no ambiente de trabalho pela CID-11 (Classificação Internacional das Doenças): 62,8% acreditam que haverá mudança na gestão do estresse e 26,11% relatam que talvez haja mudanças nesse quesito.

Afastamentos

Ainda em meio à pandemia, que desde março de 2020 vem impondo mudanças no setor produtivo, foi feita aos trabalhadores a seguinte pergunta: o coronavírus mudou a forma como você e o seu grupo abordam o tema estresse e saúde mental dentro da empresa? Respostas: 43,9% dizem que houve mudança na forma de lidar com o tema; 20% dizem que nada mudou e 28,4% consideram que se fala pouco e, na prática, não houve mudança.

O estudo do Instituto Habiens/Acieg também traz dados da Secretaria Especial de Previdência do Trabalho, segundo os quais, em 2020 houve uma alta de 26% em relação a 2019 nos pedidos de concessão de auxílio-doença e de aposentaria por invalidez proveniente de transtornos mentais. Foram mais de 576 mil afastamentos; depressão e ansiedade lideraram os principais motivos de solicitação dos benefícios, registrando um aumento de 33,7% em relação ao ano anterior. “Acredita-se que isso deva custar R$ 5 bilhões aos cofres das empresas até o final de 2022”, informa também a pesquisa.

Um dos casos há confirmar que por trás de números, estatísticas e projeções há pessoas em situação de sofrimento é o da técnica em enfermagem O.S., 55 anos, há 35 anos exercendo a profissão que exige longos plantões em mais de uma unidade hospitalar. Ela, que prefere não se identificar para evitar constrangimentos no ambiente de trabalho, conta que vem lutando há anos contra a depressão, usando remédios, doença que foi se manifestando inicialmente como estafa, estresse.

Há três anos, teve de se afastar 30 dias do trabalho devido a “uma ansiedade muito forte”. Melhorou, mas veio a pandemia e com ela, uma recaída.

“No ano passado, por depressão, fiquei afastada de novo um mês”, relata, descrevendo uma pressão muito grande com a mudança de chefia em sua área após nova Organização Social (OS) assumir a administração de um dos hospitais onde trabalha.

Neste ano, diz a trabalhadora, a médica quis dar-lhe nova licença, mas ela recusou, considerando que poderia ficar pior. “A gente estava saindo do isolamento da pandemia, eu já tinha ficado muito tempo em casa”, justifica, embora acredite que “90% do problema tem a ver com a pressão no trabalho”.

A técnica em enfermagem trabalha em UTI, onde na pandemia tinha de ver a morte de duas, três, até mais pessoas por dia devido ao novo coronavírus. “Tenho dificuldade muito grande de lidar com a morte de pacientes”, explica sobre o agravamento da depressão. Reclama não receber apoio. “Pelo contrário, a cada licença, é uma perseguição. Sou concursada e trabalho em hospital de OS, quando saio e volto, mudam de posto, é cara feia. É muito difícil.”

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Casos cresceram 25% durante a pandemia

Pandemia fez aumentar índices de depressão e ansiedade, alerta a especialista mestra em psicologia, psicoterapeuta comportamental, diretora do Instituto Habiens e presidente do Conselho de Gente e Gestão da Acieg, Marilene Martins, confirma que os índices de depressão e ansiedade aumentaram 25% após a pandemia, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), com alerta para “a importância de incluir a saúde mental nos serviços de saúde intensificando o apoio psicossocial da população”. 

Os índices elevados, explica Marilene, “se devem aos múltiplos fatores de estresse provenientes da pandemia, as restrições que impactaram a capacidade de as pessoas trabalharem, o luto, o medo, a insegurança, a solidão, as preocupações financeiras, o trabalho em home office, as pressões e exaustão dos profissionais, principalmente os da área da saúde”. 

Diante do que define como “a quarta onda da pandemia”, que é o problema da saúde mental, a especialista chama atenção para a necessidade de unir esforços, propondo um diálogo entre o setor produtivo, o governo e o trabalhador. A ênfase, indica, deve estar na prevenção do estresse e do esgotamento mental no ambiente de trabalho, assim como na capacitação de líderes e gestores para manejar o estresse e acolher o trabalhador em situações de sofrimento psíquico.