Até o dia 30, trabalhadores com carteira assinada recebem a primeira parcela do 13º salário, e até 20 de dezembro será paga a segunda parcela. Um dinheiro a mais que chega em meio aos jogos da Copa do Mundo, promoções da Black Friday e o início das confraternizações de fim de ano, com decoração natalina atraindo para a compra de presentes.Apesar dos apelos ao consumo, pesquisas indicam que a maioria deve usar esse recurso extra para quitar dívidas, afirma o economista Marcus Teodoro, especialista e mestre em Finanças, autor do livro Erros e Acertos na Gestão do Dinheiro (Editora Kelps). E essa deve mesmo ser a prioridade, orienta ele. O contingente de brasileiros endividados confirma tal necessidade.Foi de apenas 0,1 ponto porcentual a queda na proporção de endividados no País em outubro, após três altas consecutivas. No total, 79,2% das famílias pesquisadas relataram ter dívidas a vencer (cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, prestação de carro e de casa). Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).Ainda de acordo com a pesquisa da CNC, na inadimplência, a proporção de famílias brasileiras com contas atrasadas cresceu de 30% para 30,3%, quarta alta mensal seguida. Em um ano, o avanço de 4,6 ponto porcentual no indicador foi o maior desde março de 2016.Nesse cenário, em que o uso do 13º para pagar dívidas tende a prevalecer, o mestre em Finanças alerta ser mais indicado ficar livre dos débitos que têm juros maiores, como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal. Ele também recomenda cautela na forma de usufruir desse ganho extra para ter mais benefícios. “O melhor é utilizar de forma inteligente, porque o recurso é escasso, vem só uma vez, é um salário só”, destaca Marcus. Ou seja, diz ele, “deve prevalecer a racionalidade, e não só a emoção”.Como argumentos para um freio nos ímpetos de ir às compras, o economista lista o custo de capital altíssimo, com a Selic (taxa de juros básicos) em 13,75%, podendo ir a 14%, dólar em alta e com tendência a aumentar, devido a incertezas no cenário econômico provocadas pela transição de governo, fatores que têm reflexos na inflação e no custo de vida.“Vamos supor que a pessoa receba R$ 4 mil, o primeiro passo é pagar dívidas e não fazer outras, especialmente no cheque especial e cartão. Depois, com o que sobrar, pode sim pensar em trocar eletrodoméstico ou um móvel em casa, vale a pena, se estiver precisando”, pontua.Em mês de Black Friday, Marcus reforça a importância de pesquisar para aproveitar um desconto que realmente compense e investir em produtos úteis. “Por exemplo, se o tênis da academia está velho, e é um produto que a pessoa vai usar mesmo, tem utilidade, é hora de buscar descontos e comprar, negociar pagamento à vista. O indicado é isso”, diz Marcus.Outra indicação dada pelo especialista em relação ao 13º é capitalizar uma parte, aplicando em investimento seguro e com alta liquidez. “Não se sabe o dia de amanhã, a pessoa pode perder o emprego ou enfrentar uma emergência, por exemplo. Ideal é conseguir ter uma reserva de 10%, 20% ou até mais.” Na avaliação de Marcus, não se trata de abrir mão de usufruir do dinheiro, mas de um cuidado pessoal. “É pensar em pagar primeiro a pessoa mais importante da sua vida, você mesmo.”Mas ele reconhece o simbolismo das festas de final do ano, do Natal. “Somos humanos, a vida é curta, a pessoa tem filhos, quer comprar presentes, é difícil não corresponder à data.” Entram aí equilíbrio, bom senso e até negociação para um possível adiamento do presente. “Com a proximidade do Natal, a demanda aumenta e os preços também”, lembra o especialista. Portanto, principalmente na aquisição de bens de maior valor, a dica é deixar para janeiro, quando diminui o movimento nas lojas e há mais chance de negociar.Quem planeja investir em bem de maior valor usando o 13º para complementar, como um carro, deve avaliar caso ainda precise de financiamento. “Melhor, nesse caso, é recorrer à reserva e depois refazer, com disciplina, essa economia. Ao invés de pagar ao banco, ir capitalizando para si mesmo.” E se tiver que parcelar, que seja no prazo mais curto, diz, pois quanto maior o prazo, maiores os juros.Leia também:- Trabalhadores, maioria mulheres, pedem jornada menor e salário igual para cuidar de filhos- Goiás entra briga pela descarbonização do setor aéreo-Imagem (1.2564229)