A quantidade de quedas de energia em Goiás aumenta quando as chuvas chegam. Porém, neste ano, a Enel Distribuição apresenta desde julho uma piora crescente no indicador de qualidade relacionado ao tempo em que os consumidores ficam no escuro. Os goianos atendidos pela companhia têm esperado mais para conseguir ter o retorno da luz após uma interrupção. Em setembro, a duração das quedas aumentou em média 81,42% na comparação com igual mês de 2020, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Naquele mês, o último com dados divulgados, a espera foi de 2,05 horas. O maior tempo desde 2018, quando a média era de 2,20 horas. O desempenho dos nove meses do ano mostra que somente em fevereiro, abril e junho a empresa conseguiu melhorar este indicador de qualidade no Estado. Diferente do que era esperado após os planos firmados com os governos estadual e federal, cujas metas para melhoria foram esticadas.

A defesa da Enel, conforme nota encaminhada à reportagem, é de que há trajetória de evolução da qualidade ao considerar 12 meses até setembro – a frequência (FEC) caiu 2,7% e a duração (DEC) 1,6%. A empresa diz que “ampliou o nível de investimento nos nove meses deste ano, atingiu R$ 1,48 bilhão, crescimento de 80,2% em relação a igual período de 2020”. Diante dos dados da Aneel, informou também que os recortes mensais não refletiram a melhoria, porque podem sofrer impactos meteorológicos.

“Este ano, as chuvas chegaram no mesmo período que em 2020, mas com muito mais força, gerando contingências de grande proporção”, diz a nota. Em julho, apesar de ainda não ter registro de chuvas, o desempenho da companhia já havia piorado. As primeiras precipitações na capital goiana, por exemplo, ocorreram a partir de agosto, como lembra o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim.

Ele explica ainda que em maior volume as chuvas passaram a ser registradas somente em outubro e novembro, e elas devem se manter até abril, o que compreende o período chuvoso. “Infelizmente, é um ano de La Niña e é normal ter tempestade”, pontua ao citar que entre fatores complicados como ventos e raios estão as árvores próximas às fiações elétricas que contribuem para ampliar as quedas de energia.

No plano de melhoria que a Enel apresentou este ano para a Aneel, dentro das questões técnicas, há a promessa do reforço de ações de manutenção que incluem as podas de árvores. Para este quarto trimestre, 24.139 podas são estimadas, sendo que esse tipo de prevenção aumenta no período chuvoso – quando as chuvas já estão mais frequentes.


Plano para piorar

Aliás, o Plano de Resultados 2021-2022, referente ao período de outubro de 2021 a setembro de 2022, apresentado pela empresa foi aprovado com ressalvas pela Aneel. Isso porque no que se refere ao tema continuidade do fornecimento de energia elétrica a agência exigiu alteração, pois no planejamento havia previsão da multinacional de piora nos indicadores em algumas regiões do Estado.

Na nota técnica de número 91, de 23 de outubro, a reguladora demonstra que o plano da Enel para dez dos 156 conjuntos da área de concessão prevê uma piora com descumprimento dos limites regulatórios e maior tempo sem energia para esses consumidores atendidos. São eles: Alto Buriti, Araçu, Flores de Goiás, Goianira, Goya S2, Inhumas S2, Itapaci, Itiquira, Itumbiara Nova e Rochedo.

De setembro do ano passado para agosto de 2021, 124 conjuntos (79,49%) transgrediram os limites regulatórios para o DEC e 74 (47,44%) para o FEC. Assim, somente em 32 áreas de Goiás o tempo sem energia estava dentro do máximo permitido e 82 cumpriam limite regulatório da frequência em que essas interrupções ocorrem.

Para o FEC também foi detectado previsão de piora, desta vez para 18 conjuntos. Na lista estão Alto Buriti, Anápolis Universitário, Cachoeira Dourada, Caldas Novas S1,Campinas S1, Campinas S2, Goianira, Guapó S2, Independência S1, Itajá S2, Itumbiara Nova, Nerópolis S2, Pacaembu S1, Pacaembu S2, Paranaíba, Quirinópolis, Real S1 e Rochedo.

A Aneel aponta ainda na nota que o plano da empresa também mantinha a transgressão de limites. Para a reportagem, a Enel respondeu que “um novo plano 2021/2022 foi apresentado, já com metas agressivas de qualidade” e “ainda não foi notificada da avaliação da Aneel e, quando isso ocorrer, avaliará a manifestação e se manifestará junto ao regulador em relação a eventuais ajustes que se façam necessários”.

Por fim, a nota diz que a empresa segue “trabalhando firme pelo cumprimento dos compromissos firmados com os órgãos reguladores e com as autoridades governamentais”. De acordo com a Aneel, existe a possibilidade de prorrogação do prazo final do plano de resultados por três meses, mas somente será avaliada ao final do período de acompanhamento e dependerá dos resultados alcançados pela distribuidora.