O preço de produtos agrícolas subiu em todo o mundo incrementado pela invasão da Ucrânia pela Rússia. As consequências já chegaram aos consumidores brasileiros. Em Goiás, por exemplo, o preço do pãozinho começa a aumentar nas padarias com expectativa de chegar a R$20 o quilo como reflexo da disparada que vive o trigo. Mas, além dos derivados desse cereal, as incertezas respingam em praticamente todas as commodities, com destaque também para o óleo de soja e o milho, sem mencionar o petróleo.Os países em guerra, juntos, representam mais de um terço das exportações globais de cereais, o que fez os valores avançarem de forma expressiva pela preocupação quanto à disponibilidade. No caso do trigo, que apresenta maior disparada, há dependência do Brasil de importações e os valores avançaram, nesta semana, de forma expressiva inclusive na cotação dos derivados influenciados pelas incertezas. Assim, do pão ao macarrão e bolos, a indústria já anuncia reajustes.Por nota, a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi) afirma que “haverá reajustes de preços nas próximas semanas, mas com o horizonte indefinido”. “O consumidor brasileiro deve começar a sentir os efeitos em breve, quando as indústrias comprarão as novas safras.” Alguns repasses já foram feitos, assim como também ocorreu nas panificadoras.De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria do Estado de Goiás (Sindipão), Marcos André Rodrigues de Siqueira, os principais fornecedores de farinha suspenderam as vendas com os primeiros impactos e retornaram 15 dias depois com valores até 30% mais altos e sem garantia de entregas. Um saco de 25 quilos passou de R$ 85 para R$ 110, exemplifica ao pontuar que, por esse motivo, pontos comerciais iniciaram o repasse ao consumidor.“Os custos das empresas, na atual conjuntura, estão muito preocupantes, porque é muita alta e de forma descontrolada. Não é só a farinha de trigo. Por isso, a expectativa é de mais repasses. Mas o poder aquisitivo da população não aumentou, o poder de compra caiu. Por isso, os empresários tentam repassar o mínimo possível”, explica ao citar a pressão causada também pelos combustíveis e pela energia elétrica.No caso do pão francês, o representante do Sindipão acredita que o preço médio de R$ 18 o quilo possa aumentar até R$ 2 nos próximos dias. Enquanto isso, a substituição da farinha de trigo ainda é vista como complexa, inclusive pelas fábricas. Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Sandro Mabel avalia que um grande impacto para o consumo ocorre porque não se tem perspectiva de quanto tempo a guerra ainda vai durar e a logística está comprometida.“O aumento de custo vai se refletir especialmente em alimentos populares como massas e pães. É possível substituir a farinha em parte por amido, fécula de mandioca, mas isso não é significativo.”A especulação sobre o óleo de soja também, como lembra, influencia o preço de produtos após mais de 20 dias de guerra. A Ucrânia é fornecedora de óleo de girassol e há movimento para substituição que eleva a procura e o preço do substituto de soja, além do fato de que ele é um componente importante para a produção de biodiesel.Localmente, essas preocupações para as indústrias de alimentos se somam a problemas com outra commodity, o petróleo. Além de aumentos para o transporte, Mabel pontua que novamente as embalagens plásticas, que estão nos mais diversos produtos, voltaram a ter alta expressiva no mercado, o que durante as primeiras ondas da pandemia de Covid-19 também ocorreu.“Temos uma única fabricante e que anunciou aumento de 12%. Isso vai direto para o preço dos produtos. Tudo se reflete de duas maneiras. Conforme a inflação sobe, o poder de compra fica prejudicado e cai a demanda. Por outro lado, não tem como não repassar as altas”, alerta.Novas marcas Antes mesmo da guerra na Ucrânia acrescentar maior pressão aos preços dos alimentos, os efeitos da inflação já faziam os consumidores mudarem os hábitos. Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), divulgados em março, mostram que houve aumento da substituição de marcas e isso acontece especialmente nas commodities, como arroz, feijão, açúcar, óleo e café.“Essa migração vem de longa data, porque as pessoas buscam fazer com que as compras caibam no bolso, uma ciranda a que estamos acostumados”, pontua o presidente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), Gilberto Soares da Silva. A troca de marcas de grife por secundárias, como classifica, já era observada e ainda não possui forte ligação com a guerra, “mas pode passar a ter uma relação com o repasse da alta da farinha de trigo e do óleo de soja, que traz uma outra situação”.As ofertas, por enquanto, Gilberto afirma que estão normais, apesar de que é esperado que os próximos pedidos venham com valores alterados. “Trabalhamos com nossos estoques para que semana que vem possamos ter novos pedidos que certamente virão com alterações. Mas os fornecedores estão estocados e deve ocorrer uma média de custo com o preço antigo, porque o consumidor não pode arcar com mais altas.”A pressão nas commodities desafia os consumidores desde o ano passado de forma que é relatada a redução de margem de lucro dos mercados e, da outra ponta, as indústrias também têm oferecido mais opções de marcas com destaque para os itens da cesta básica.Produção pode ser impulsionada pelo cenário externoO conflito entre Rússia e Ucrânia tem impactado o preço de produtos agrícolas em todo o mundo, entre os principais com reflexos para o mercado do Brasil estão trigo, óleo de soja e milho. O coordenador institucional Instituto para Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Leonardo Machado, explica que o trigo e seus derivados alcançaram os maiores patamares já vistos porque as exportações russas abastecem grande parte da demanda mundial. Por outro lado, internamente, isso também pode gerar uma reação no campo brasileiro.O nível de preço pode influenciar em um maior impulso para o cultivo do cereal, inclusive em terras goianas. “Temos de lembrar que somos importadores. Os produtores podem, especialmente aqueles que não plantaram a safrinha, buscar além do milho fazer plantio de trigo. Isso pode levar a um aumento da área, principalmente na safra que vem”, aposta.A opção é considerada para o cultivo após a colheita da soja. “O plantio na Rússia e na Ucrânia é para colher no segundo semestre e, se a guerra continuar, será difícil conseguirem ter uma boa safra e há perspectiva de alta de preço a médio prazo, o que é um incentivo.”O Estado, aliás, já apresenta crescimento na cultura que é considerada mais nova na região em relação ao Sul do País. Para a safra 2021/22 é esperado aumento de 35% na produção em relação ao ciclo passado, com 174,5 mil toneladas, conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Superintendente de Inteligência e Gestão da Oferta da Conab, Allan Silveira explica que o conflito gera incertezas de oferta para a próxima safra, mas ainda não há materializado o tamanho da crise com o conflito entre Rússia e Ucrânia.“Não dá para se falar em escassez ainda. O que dá para falar é de preços mais altos que já foram incorporados. A gente tem de acompanhar os próximos meses para falar se vai ter escassez e o tamanho dela no mercado mundial”, pondera.Além do trigo, há atenção até mesmo com o milho, pois a Ucrânia é grande produtora. Em Goiás, Leonardo Machado acredita que o preço também pode potencializar a safrinha, ao mesmo tempo em que também há pressão nos custos, como é o caso dos fertilizantes. “Os produtores estão acostumados com a dobradinha soja e milho e os preços estão elevados. Há mercado favorável, inclusive para o óleo de soja que pode ampliar área”, pontua ao citar possíveis avanços em pastagens e áreas de cana-de-açúcar.Já o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja), Joel Ragagnin, analisa que há dois aspectos. De um lado a cadeia do agronegócio valorizada com a restrição mundial, queda na oferta também de óleo de palma e girassol, mas também há impactos preocupantes no campo. “A preocupação está para a próxima safra, porque vai entrar com um custo muito elevado e não se tem uma garantia do comportamento do mercado”, defende.“O mercado é dinâmico e gera oportunidades quando tem conflito ou quebra de safra. Tem dois lados, não podemos comemorar resultados no Centro-Oeste, porque tivemos problemas graves (para soja) na região Sul. Por isso, é preciso trabalhar de forma responsável.”-Imagem (1.2422434)