Depois da disparada no preço da carne bovina, o consumidor agora tem levado sucessivos sustos na hora de comprar verduras e legumes nas feiras livres, supermercados e verdurões. A reclamação é geral, por exemplo, com o quilo da cenoura sendo vendido por até R$ 12 e o do tomate por até R$ 10 em Goiânia. Mas estas altas começam ainda nos preços vendidos na Centrais de Abastecimento de Goiás (Ceasa-GO), que chegaram a quadruplicar nos últimos 12 meses.Os fortes aumentos se tornaram um assunto frequente nas rodas de conversa e resultaram em diversos memes nas redes sociais. Foi o caso da cenoura: a caixa com 21 quilos passou de R$ 35 em 1º de abril de 2021 para R$ 140 no mesmo dia deste ano, um alta de 300%. Mas a caixa chegou a ser vendida por até R$ 180. “No caso da cenoura, tivemos uma explosão histórica. Mas antes o preço estava bem aquém das necessidades do produtor”, diz o gerente técnico da Ceasa-GO, Josué Lopes.Ele explica que, com o preço antes muito baixo, a falta de valorização de mercado levou muitos produtores a reduzirem o plantio em até 80% ou até deixarem de plantar. Outro problema foi a disparada nos custos de produção, que quase triplicaram. “A grande maioria dos produtores na Ceasa são pequenos. Se um produz em 3 hectares e o custo aumenta muito, ele reduz a área plantada para continuar produzindo”, destaca. A produção de hortifrutigranjeiros também sofreu o impacto do excesso de chuva nos três primeiros meses do ano, que afetou a produtividade das lavouras. “Todos estes fatores reduziram a oferta e contribuíram para impulsionar os preços no mercado. É a lei da oferta e procura. Quase todos os produtos tiveram valores acima do normal, fora da casinha”, destaca Josué.O produtor de tomates Sandro Rocha, que produz entre 500 mil e 600 mil caixas por ano, conta que a produção chegou a cair 50% no ápice do período chuvoso. “Na minha horta, chegou a chover 28 dias sem parar”, lembra. Outro problema foi a disparada nos custos de produção. Segundo ele, se antes o cultivo de mil pés de tomate custava entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, hoje já está em cerca de R$ 15 mil. “A mão de obra também subiu muito e, mesmo assim, ainda faltam trabalhadores”, informa.Com isso, muitos produtores reduziram ou até pararam de plantar. Mas, de acordo com Sandro, nos últimos meses o preço mais remunerador ajudou os demais agricultores a permanecerem na atividade. No dia 1º de abril, a caixa de tomate com 22 quilos estava sendo vendida por R$ 150, em média, na Ceasa. “Com o alto custo de produção atual, se o preço cair teremos que reduzir ou até parar de plantar”, diz.O produtor Lourivan dos Santos Ferreira, presidente da Cooperativa Mista de Produtores de Hortifrutigranjeiros de Goiás (Comphego), que reúne 270 agricultores familiares, conta que resolveu dar um tempo em sua produção de beterraba, tomate e repolho, ficando apenas com cará e banana. Com isso, passou a produzir quase 90% menos. “Resolvi parar por causa do susto com os preços dos insumos e as incertezas de mercado. Mas agora já estou voltando”, informa.Custos e preçosO temor de muitos produtores como Lourivan era de que os preços de mercado não acompanhassem as altas nos custos de produção e eles tivessem muito prejuízo. “Adubo, defensivos, mão de obra. Tudo subiu muito, muita coisa por reflexo da pandemia”, lembra o presidente da Comphego. Com isso, muita gente pisou no freio do plantio.Lourivan lembra que a cooperativa precisou até pedir a revisão de contratos de fornecimento de produtos para escolas púbicas, que estavam com valores muito defasados após as fortes altas dos custos. Um bom exemplo era o preço da cenoura, que estava estipulado em apenas R$ 1,36 nos contratos, enquanto o valor de mercado já ultrapassava os R$ 10. “As chuvas este ano também superaram todas as expectativas dos produtores para o período”, completa.O gerente técnico da Ceasa lembra que mais de 240 produtos são comercializados por lá e que o volume de vendas de cada um deles oscila de acordo com os preços no momento. “Os compradores procuram comprar menos os produtos que mais subiram e acabam levando outros que estão mais baratos, para ter um equilíbrio”, explica. Para Josué Lopes, ninguém ganha com preços tão altos, que prejudicam toda a cadeia: o produtor, que deixa de ganhar mais porque passa a produzir menos, os varejistas, que precisam apertar suas margens de lucro para manter as vendas, e o consumidor, que tem seu orçamento pressionado e compra menos. “A partir de agora, com o fim do período chuvoso, a tendência é de recuo nos preços”, prevê.Vendas nas feiras livres da capital caíram quase 50%Um levantamento do FGV IBRE apurou que a inflação dos 31 itens hortifrutigranjeiros do IPC/FGV acumula alta de 24,35% em 12 meses. A liderança ficou por conta das hortaliças e legumes, que aumentaram em média 31,43% no período. O aumento foi quase o triplo da inflação média apurada pelo IPC-10/FGV (9,2%). Matheus Peçanha, pesquisador e economista do FGV IBRE, confirma que a lavoura de curto prazo tem sofrido muito desde 2021 com problemas climáticos, saindo de uma seca histórica e generalizada para excesso de chuvas e secas localizadas.Nas feiras livres, o consumidor tem comprado cada vez menos. É o que garante o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Feirantes e Vendedores Ambulantes do Estado (Sindifeirante), Wellington Mendanha. Segundo ele, as vendas já caíram até 50% nos últimos meses e, com isso, os feirantes também passaram a comprar entre 35% e 40% menos produtos.“Sempre esperamos altas nesta época por causa das chuvas. Mas, este ano, houve um excesso e os preços subiram demais”, avalia o feirante. Ele garante que os varejistas não conseguem repassar todos os aumentos, por conta do risco de uma queda ainda maior nas vendas e perda de produtos.Para reduzir o impacto dos reajustes, Mendanha informa que os clientes têm procurado substituir um produto por outro e a maioria também reduziu o volume de compras. “Quem levava 1 quilo, hoje compra apenas meio quilo, por isso as vendas caíram muito”, explica.Ele reclama que os feirantes também têm sentido muito o impacto das altas dos combustíveis em seus custos, já que precisam buscar produtos quase que diariamente na Ceasa e fazem feiras em diversas regiões da capital. “Quem colocava R$ 120 no tanque, hoje tem que colocar R$ 200 para fazer o mesmo percurso de antes”, ressalta.Leia também:- Feira de Empregos oferece 3 mil vagas de trabalho em Goiás- Antonio Chavaglia cobra autoridades por crédito rural na abertura da Tecnoshow-Imagem (1.2432714)