Nos treinos do Atlético-GO, Léo Pereira é um dos jogadores mais aguardados pelas crianças ou os pais delas. Sempre para autografar alguma coisa, brincar com os pequenos, fazer a alegria deles. Autor do golaço na vitória sobre o Corinthians por 2 a 0, no jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil, o jovem atacante, de 22 anos, se comporta como uma eterna criança e sempre se misturou com o universo infantil.

Léo Pereira gosta de dancinhas, é alegre, irreverente e, até quando estava iniciando a carreira na base do Noroeste, de Bauru-SP, aproveitava o tempo livre para fazer as vezes como auxiliar técnico do “professor” Luciano Sato para treinar a meninada. Quando adolescente e candidato a jogador, de 12 para 13 anos, fazia o papel inverso em meio a cerca de cem garotos. “As crianças me chamavam de tio Léo. Até hoje, alguns se lembram de mim nos treinos”, contou Léo Pereira.

O atacante não fez um gol qualquer. O “tio” Léo teve uma daquelas intuições dos tempos de menino ao receber o passe de Luiz Fernando. Bola colada aos pés e chute colocado, por cobertura, uma surpresa para o gigante goleiro Cássio, de 1,96m, aos 43 minutos do segundo tempo. “Gol mais bonito da carreira”, atesta o autor da obra.

48 jogos disputou Léo Pereira no Atlético-GO. Geralmente, o atacante entra no decorrer da partida. Já marcou quatro gols e deu cinco assistências
7 minutos foi o que Léo Pereira precisou para o golaço sobre o Corinthians. Entrou em campo, no lugar de Rato, aos 35 minutos do 2º tempo, e fez o gol aos 42

Brincadeira de criança bastante aperfeiçoada nos últimos treinos com o auxiliar, Anderson Gomes. “Ele (Anderson) tocava, eu dominava e chutava, dominava e chutava. Só um toque e o chute. Foi muita repetição”, descreveu o jogador que, como uma criança, teve momentos de choro ao entrar no segundo tempo do jogo diante do Olimpia (Paraguai) e, antes do final, ser substituído pelo técnico Jorginho porque não havia entrado bem.

Léo Pereira foi visto chorando muito no banco de reservas. Não teve a chance de cobrar um dos pênaltis. No vestiário, recebeu o abraço de Jorginho. “Aquilo foi superado. Ele (Jorginho) me deu confiança. Você tem de ser homem, aprender a lição.”

No aprendizado com o episódio, o menino e “tio” tratou de se esmerar no treinos. A repetição nos treinamentos diários tem sido aliada. No Goianão, Léo Pereira era a válvula de escape do time. Perdeu espaço, sem esquecer o lado irreverente para treinar, esperar a chance e brincar de mandar a bola fora do alcance de um dos melhores goleiros do País. Além disso, nos pênaltis, Léo Pereira é considerado exímio batedor e mostrou isso na disputa pela vaga da Copa do Brasil contra o Cuiabá-MT (1 a 1 e 5 a 3 nos pênaltis).

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O “tio” Léo Pereira sempre viveu rodeado de crianças, fora de casa e em casa. Conta que viveu certa fase da vida na casa da bisavó materna, Ilda. Ela teve 18 filhos. Tempos difíceis, mas também de muitas brincadeiras. O lado maternal da bisavó fez com que a família (pais, tios e irmãos dele) dividissem a mesma casa.

Nela, moravam em média seis, sete crianças. Os tios dele trabalhavam com a comercialização de mel. “Era a família dos Abelhas”, lembra, sobre o apelido dos parentes. Ele não chegou a trabalhar no ofício. “Meus tios não deixavam, diziam que eu era a joia da família”. Assim, foi lapidando o jeito para jogar futebol.

Léo Pereira realizou o sonho da bisavó quando se transferiu para o Ituano-SP, aos 16 anos. Foi para base do Corinthians mais tarde (2019 e 2020) e jogou ao lado de outro xodó da torcida atleticana - Janderson, hoje no Grêmio e que atuou no Dragão em 2020 e 2021. Por pouco, a carreira e vida de Léo Pereira não tiveram uma guinada.

Quando estava a caminho de Porto Alegre (RS), para se apresentar ao Grêmio, em 2020, Léo recebeu a notícia da morte da bisavó. “Pensei em parar, deixar tudo. Mas era o sonho dela. Resolvi seguir, por ela, por mim”, explicou o atacante, sempre à procura de um porto seguro e colo.

Léo Pereira havia passado por Ituano-SP, Corinthians e Grêmio. Apareceu a proposta para se transferir para o Atlético-GO com contrato de três anos. O atacante aprovou o projeto e mora sozinho em Goiânia. O restante da família continua em Bauru (SP). Uma das metas é dar uma casa para a mãe, Edileusa, que trabalhou como faxineira e babá. Até agora, foi possível presenteá-la com um carro. Léo Pereira tem mais três irmãos, um sobrinho, pai e padrasto. Curte quando é possível estar ao lado dos parentes, especialmente as crianças, para o tempo das brincadeiras. “Elas (crianças) me motivam. Com elas, não fico triste. Por isso, gosto de brincar.”

Além do projeto de presentear a mãe com uma casa, Léo Pereira planeja criar um projeto social quando tiver possibilidade. Nele, quer dar espaço, voz e vez ao público infantil, encampar crianças que precisam de um lugar para viver, brincar e ter alguma perspectiva de vida. É algo que pretende elaborar com mais calma e no tempo certo.

O outro plano de Léo Pereira é criar uma grife de roupas, a LP, para produzir peças casuais, bonés e outras peças para vestuário. O atacante chegou a colocá-lo em prática, mas viu que não era o momento certo. Dançarino, Léo Pereira curte a música e a dança, mas também as vê pelo lado lúdico. Produz vídeos curtos no Tik Tok. Nas redes sociais, é só curtição, assim como quando está rodeado pelos pequenos e quando faz gols, como o que fez sobre o Corinthians.