Ter ou não a posse de bola no futebol não é o que garante sucesso, mas ficar sem o domínio da bola no Campeonato Brasileiro nem sempre impede o Goiás de conquistar pontos contra equipes consideradas favoritas ao título ou que entram em campo com maior favoritismo contra o time esmeraldino. É o que o alviverde deve tentar repetir neste domingo (19), a partir das 16 horas, contra o Corinthians, vice-líder da Série A e postulante à briga pela taça.

No Brasileiro, o Goiás é o time que menos fica com a bola, em média, nos jogos. A equipe tem a pior média de posse da pelota na Série A, e a estratégia da equipe goiana levanta a discussão sobre futebol bonito x eficiente.

(Veja escalações, arbitragem e onde assistir no fim deste texto)

Neste domingo (19), a estratégia terá que funcionar para que o alviverde não fique ameaçado de entrar na zona de rebaixamento - antes do início da 13ª rodada, o clube esmeraldino é o primeiro fora do Z4, em 16º, com 14 pontos.

O Corinthians, adversário na rodada, é o 6º com melhor média de posse de bola nos jogos, de 53,4%, atrás de Atlético-MG, Flamengo, Fluminense, São Paulo e Botafogo. Os números são do SofaScore.

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Após 12 rodadas do Brasileirão, o Goiás tem média de 41,4% de posse de bola. Antes do jogo contra o Fortaleza, na 10ª rodada, era de 38,3%. O número aumentou depois de duas partidas seguidas como mandante, nas quais precisou buscar o resultado após começar atrás do placar contra Ceará (empate por 1 a 1) e Internacional (derrota de 2 a 1).

Não ter domínio da posse de bola é algo marcante na carreira do técnico Jair Ventura, que costuma utilizar a ideia de jogo quando entende que o elenco que possui não oferece uma estrutura técnica e tática para passar o maior tempo do jogo com a bola.

“O que acontece com o Goiás é aquilo que o Jair Ventura já provou fazer muito bem: arrumar um sistema defensivo muito forte e conseguir vencer jogos com uma estratégia baseada no contra-ataque”, reforçou o jornalista Leonardo Miranda, especialista em análise de desempenho pela CBF e em tática e estudo do futebol, que escreve no blog Painel Tático, do ge.globo.

A opção por não ter a bola, porém, não tira a competitividade da equipe do Goiás, que nesta Série A só foi derrotado por mais de um gol de diferença em uma oportunidade (na estreia para o Coritiba, por 3 a 0). O time marcou gols e foi vazado em 10 dos 12 jogos até aqui.

Apenas em três ocasiões nesta Série A, o Goiás terminou com mais posse que o adversário, contra Internacional (53% x 47%), Avaí (59% x 41%) e RB Bragantino (52% x 48%).

“Com a bola, você cria mais situações ofensivas para marcar gols, mas o Brasileiro tem uma particularidade de investimentos desproporcionais. Basta comparar equipes como Flamengo, Palmeiras, Goiás, Avaí e Juventude, por exemplo. Isso implica na montagem do elenco, que acaba tendo limitações para alguns clubes. Jogar sem a posse de bola pode ser mais inteligente do que tentar encarar de igual para igual”, analisou João Paulo Medina, especialista e fundador da Universidade do Futebol.

“Por vezes, quando o time precisa jogar em outros cenários (propondo mais o jogo), não consegue um grande desempenho, mas sem precisar ficar tanto com a posse, fora de casa, é um cenário muito bom para essa estratégia”, salientou o jornalista Leonardo Miranda.

O especialista João Paulo Medina reforça que, no Brasil, a opção por não ter a posse de bola é inteligente quando o elenco não fornece estrutura técnica para ter esse domínio, que é a explicação do técnico Jair Ventura para a ideia de jogo utilizada no comando do Goiás.

“Sou treinador mutável, acredito que, dentro da característica dos meus jogadores, vou implementar o que pode me dar o melhor com as características deles. Lógico que todo mundo quer ver o futebol bonito, dez gols para um lado, dez para o outro, mas nem todo mundo consegue fazer”, pontuou o treinador esmeraldino.

Nesta Série A, os times que lideram a estatística de posse de bola são: Atlético-MG (59,1%), Flamengo (58,4%) e Botafogo (56,4%). Na classificação do Brasileiro, o Galo é o melhor dos três, na 6ª colocação, com 18 pontos.

Transição ofensiva pode ser arma eficaz

Sem a posse de bola, há exemplos de equipes vencedoras que optaram por priorizar o sistema defensivo e usar a transição ofensiva como principal arma. A França foi campeã do Mundo em 2018 com média de 49,8%, a 19ª entre as 32 seleções. O Corinthians de 2017 foi campeão brasileiro com a tática de marcar gols rápidos, mas “sofrendo” no restante dos jogos.

“O Corinthians de 2017 foi uma exceção e bom exemplo, mas, para quem almeja zona intermediária, pode ser uma saída inteligente ter menos a posse de bola. Aquele que busca o título, por outro lado, é mais complicado, não só pelo sentido prático, mas também pela beleza do jogo. A referência estética de ver dois times jogando bonito ainda prevalece”, comentou o especialista João Paulo Medina.

Outro exemplo citado pelo analista são jogos de competições em que o nível técnico das equipes obrigam que estratégias ofensivas sejam utilizadas. “A Champions League é um campeonato específico, de mata-mata, mas, pela necessidade de vitória para seguir vivo, você vê grandes espetáculos. Ver um jogo do futebol brasileiro com dois times na zona de rebaixamento é duro”, opinou João Paulo Medina.

Filho de Jairzinho, o técnico do Goiás, Jair Ventura, diz ser fã do futebol bem jogado. Seu pai fez parte de uma das maiores seleções da história - tricampeã do mundo em 1970.

“A gente pode falar que teve igual, mas maior que a seleção de 1970 não teve, e acredito sempre no futebol bem jogado. Mas nem sempre você tem condições de fazer. Lógico que todos nós brasileiros gostamos de um futebol bem jogado. A 
França foi campeã do mundo tendo menos posse de bola, mas também já teve a Espanha que foi campeã e teve a posse (59% de média)”, exemplifica o treinador esmeraldino.

O técnico Fernando Diniz é conhecido no futebol brasileiro por gostar da bola. A estratégia do treinador, porém, é usar a ideia da posse para potencializar jogadores e ajudar na evolução desses atletas.

“Diniz é um exemplo de treinador que não olha só o resultado, ele pega o jogador que não tem potencial, em alguns casos, e transforma em protagonista. Falta isso no futebol brasileiro, treinadores que não têm medo de perder jogo, que tentam extrair mais talentos. Ter ousadia para tentar fazer algo diferente, com ou sem a bola”, completou João Paulo Medina.

FICHA TÉCNICA

CORINTHIANS: Cássio, Fagner (Rafael Ramos), Gil (Robson Bambu), Raúl Gustavo e Fábio Santos; Cantillo, Du Queiroz e Renato Augusto; Mantuan (Adson), Róger Guedes e Willian. Técnico: Vítor Pereira

GOIÁS: Tadeu; Maguinho, Da Silva, Yan Souto e Danilo Barcelos; Auremir (Sidnei ou Diego), Caio Vinícius, Fellipe Bastos e Élvis; Vinícius e Pedro Raul. Técnico: Jair Ventura

Local: Neo Química Arena (São Paulo-SP)
Data: 19/6/2022 (domingo)
Horário: 16 horas
Transmissão: Globo/TV Anhanguera e Premiere 4
Árbitro: Braulio da Silva Machado/SC (Fifa)
Assistentes: Alex dos Santos/SC e Henrique Neu Ribeiro/SC
Árbitro de vídeo: Wagner Reway/PB