Um outdoor de 750 metros quadrados em uma das avenidas mais movimentadas de Kansas City é o sinal mais claro do quanto a cidade pensa na Copa do Mundo.

Mas o anúncio nada tem a ver com a contagem regressiva de um ano para o torneio no Qatar, iniciada neste domingo (21). O foco no centro-oeste dos Estados Unidos é a edição de 2026 do Mundial.

A placa, que ocupa o equivalente a seis andares da lateral de um prédio comercial, é direta: "Queremos a Copa do Mundo". É o desejo ecoado na cidade de cerca de 500 mil habitantes.

Um moderno bonde que cruza as ruas de Kansas City foi envelopado com o slogan da campanha. Além disso, são incontáveis as bandeiras suspensas nos postes de luz e os prédios iluminados com as cores e o símbolo da iniciativa. Pequenos comerciantes e moradores aderiram ao movimento.

No último mês, a mensagem foi intensificada, com apoio de entidades privadas, como a administração do aeroporto local e a rede hoteleira, por causa da visita de representantes da Fifa.

Kansas City é uma das 17 metrópoles americanas que ainda luta pela chance de sediar a 23ª edição da Copa. Onze serão escolhidas. Elas irão se juntar a três cidades mexicanas e duas canadenses, já que, pela primeira vez, a competição será realizada em três países ao mesmo tempo. O anúncio das sedes deve ocorrer no primeiro semestre de 2022.

"Não há lugar mais animado ou mais preparado do que Kansas City para receber a Copa do Mundo em 2026", diz o prefeito Quinton Lucas à Folha. "KC não oferece apenas uma combinação única de acessibilidade e apoio regional, mas também o amor de nossa comunidade pela nossa cidade. Estamos empolgados para mostrar tudo o que temos a oferecer."

Apesar do otimismo, o prefeito sabe que a disputa será complicada, porque envolve locais mundialmente famosos, como Los Angeles e São Francisco, na Califórnia, Nova York e Nova Jersey, na costa leste, e Seattle, em Washington. A aposta para vencer a corrida é trabalhar, também, a força regional.

"Quando a gente pensa nos Estados Unidos, sempre pensa nas costas leste e oeste", disse o francês Yann Passet, que está há sete anos no país e é gerente estratégico da campanha.

"Temos muito para falar do centro-oeste. As pessoas merecem conhecer a região e a região merece estar nesse centro de atenção."

Por ficar no meio do país, Kansas City é conhecida como o "Coração dos Estados Unidos". Este também é um diferencial na corrida pela Copa. Se uma viagem de avião de Los Angeles para Nova York dura quase cinco horas e meia, o trajeto de Kansas City a Los Angeles pode ser feito em três horas e 12 minutos. Para Nova York, não dura nem três horas.

O apoio da população é outro alicerce da campanha. A petição para que a cidade sedie a Copa tem assinaturas vindas dos quatro cantos do país e é quatro vezes maior do que qualquer outra solicitação com o mesmo objetivo. Além disso, associações de futebol juvenil de nove estados diferentes reforçaram o desejo de ter Kansas City como sede.

Trazer a Copa do Mundo para Kansas City é esforço conjunto. A começar pelo fato que a cidade é "dividida" por dois estados: Kansas e Missouri.

A candidata a receber o Mundial está no Missouri, mas tem o apoio da vizinha homônima, que se beneficiaria do torneio por concentrar os possíveis centros de treinamento.

Nos últimos dois anos, a cidade esteve no centro dos noticiários esportivos. Isso porque o time de futebol americano da região, o Kansas City Chiefs, chegou a duas finais do campeonato nacional, levando para casa o título do Super Bowl em fevereiro de 2020.

E seria justamente na casa dos Chiefs, o Arrowhead Stadium, que os jogos seriam realizados. Isso porque a capacidade de público lá é de 76.416 pessoas -quatro vezes maior do que a do estádio do Sporting KC, time de futebol da cidade.

Já há um plano de reestruturar o Arrowhead caso a Copa do Mundo venha para o município. Segundo Katharine Fox, diretora da campanha, a reforma do local deve ser o maior investimento.

"Precisaríamos mexer no tamanho do campo, no posicionamento das câmeras e nas áreas VIPs", diz à reportagem.

De acordo com a prefeitura, há outras obras em ação que devem ajudar no processo de trazer a Copa do Mundo para o centro-oeste.

A previsão é que o novo terminal do aeroporto de Kansas City, que custará 1,5 bilhão de dólares (R$ 8,19 bilhões), esteja pronto em 2023, três anos antes da Copa. Além disso, no último ano, mais de 1.300 novos quartos de hotéis foram abertos no centro da cidade. Hoje são mais de 34 mil na área metropolitana.

O destaque do time de futebol americano da região não impede Kansas City de ostentar o título de capital do "soccer" nos Estados Unidos.

"A cidade é apaixonada por futebol. O estádio, por conta da torcida, é conhecido em toda liga por ter uma atmosfera que assusta. É o caldeirão, como eles chamam", diz Igor Julião, lateral direito do Vizela, em Portugal, que recentemente deixou o Fluminense e também já defendeu o Sporting KC.

Caso seja escolhida para sediar a Copa do Mundo, a cidade deve receber de cinco a sete jogos. Em 2026, o torneio terá um aumento no número de participantes, passando de 32 para 48.

Em 1994, na única vez que um Mundial foi jogado nos Estados Unidos, foram 24 seleções e apenas nove sedes. Na época, Kansas City nem teve chance de ser incluída, mas agora o cenário mudou e o entusiasmo para receber o torneio também.

"Além da cidade ser super preparada e ter uma boa estrutura, os torcedores são apaixonados. O pessoal da cidade consome muito futebol", finaliza Julião.