O volante do Fellipe Bastos, do Goiás, registrou, nesta segunda-feira (9), queixa de injúria racial sofrida no Estádio Antonio Accioly, após o clássico contra o Atlético-GO. O jogador foi ao Grupo Especializado no Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (GEACRI), que vai abrir inquérito para a investigação do caso pela Polícia Civil.

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Fellipe Bastos chegou à delegacia por volta das 16 horas para prestar depoimento ao delegado titular do GEACRI, Joaquim Adorno, o que durou aproximadamente 40 minutos. O jogador do Goiás relatou os fatos ocorridos no Estádio Antônio Accioly, logo após a partida contra o Atlético-GO, e cobra punição.

“As pessoas têm de tomar essa atitude que tomei hoje, que é a de denunciar. É muito importante. Como falou o delegado, não fui só eu que fui atingido, mas todas as pessoas que passam por isso todos os dias e não têm uma voz, não têm uma entrevista para dar. Temos de denunciar, sim, e buscar achar os culpados para que haja punição. O importante não é só descobrir quem fez o racismo, mas punir com uma lei mais severa para que a gente tenha mais respeito com a nossa cor”, disse Fellipe Bastos.

O delegado Joaquim Adorno explicou que, após a denúncia de Fellipe Bastos, o inquérito policial está instaurado e que vai solicitar as imagens para todos os produtores de conteúdo que gravaram a partida, com imagens do período em que houve a agressão e também imagens do setor em que o denunciado estava. 

“Após a identificação, ele vai ser indiciado e responder a processo pelo artigo 140 (injúria racial) e parágrafo terceiro do Código Penal. Inicialmente, a pena é de um a três anos de reclusão. É um crime inafiançável, imprescritível porque é racismo”, explicou Joaquim Adorno.

Além das imagens das emissoras de televisão, o delegado vai pedir imagens de monitoramento do estádio ao Atlético-GO e ouvir testemunhas que presenciaram o ato de injúria racial denunciado por Fellipe Bastos.

“Todas as possibilidades serão esgotadas. Vamos verificar todas as emissoras e produtoras que estavam filmando, verificar com o proprietário do local e vamos atrás de todas as imagens para identificar o autor, inclusive pessoas que estavam ao lado do jogador que ouviram e viram”, destacou Joaquim Adorno, que apontou que não é essencial registro do momento da agressão.

De acordo com Adorno, desde que foi criado, em agosto de 2021, o GEACRI recebeu mais de 170 denúncias de casos de racismo, o que dá uma média de mais de 20 casos por mês. “Hoje, chegamos a um absurdo de ter essa média de 20 casos por mês. Então, isso tem crescido. As vítimas têm feito o papel delas e vindo denunciar. É preciso denunciar para combater o racismo e a intolerância todos os dias”, destacou o delegado titular do GEACRI.

Pouco menos de 24 horas após sofrer a injúria racial, Fellipe Bastos disse que teve uma noite difícil ao reencontrar a família e ser questionado sobre os filhos, que são duas crianças. O jogador esmeraldino, no entanto, reforçou a importância de seguir com o processo e denunciar a agressão sofrida para que isso não passe impune e sirva de lição para a sociedade.

“Foi uma noite atípica porque foi a primeira vez que passei por isso. Quando cheguei em casa, meus filhos, Giovanna (10) e Matheus (9), me perguntaram o que aconteceu, eles viram e entendem. Tive de explicar para eles. Eu e minha esposa passamos vídeos e explicamos o que tinha acontecido comigo e que realmente era racismo. Acho importante ensinar isso para as crianças, que são o futuro do nosso País e do mundo. Queremos um futuro melhor, eles perceberam que eu fiquei bastante triste. Mas falei que é hora de ter força e lutar contra esse tipo de gente, essas pessoas que pensam desse jeito e ensinar para essas pessoas que somos todos iguais, brancos, pretos, pardos. Precisamos ter isso na cabeça e colocar na cabeça da sociedade”, desabafou Fellipe Bastos.