Você já se deparou com um lançamento imobiliário, nas grandes cidades do Brasil, e notou a quantidade de containers, indicando obras nestes empreendimentos recém ocupados? Qual será o motivo que levam os compradores destes produtos a fazerem reformas consideráveis, em seus imóveis novos, já no momento de sua ocupação? Segundo Strapasson (2011), a falta de flexibilidade dos projetos ou o não atendimento das necessidades dos usuários são os principais causadores das intervenções precoce nas edificações. Infelizmente, este fato contribui no impacto ambiental causado pelos resíduos sólidos produzidos pela indústria da construção civil, que é considerada hoje, a atividade humana que gera maior prejuízo ao meio ambiente, por isso, nos últimos anos, pesquisas visando reduzir este problema são cada vez mais frequentes (Villa, 2016).

A construção civil é um importante segmento para economia brasileira, atualmente, é um dos setores que mais gera empregos formais no Brasil. Mesmo em meio à crise sanitária pela COVID 19, o setor gerou 317.159 novas vagas de emprego, entre junho de 2020 e maio de 2021, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), um impulso para economia do país em um momento de fragilidade. Em contrapartida, o setor também ocupa o ranking de maior gerador de resíduos sólidos e consumidor de energia, contribuindo para degradação do meio ambiente. A indústria da construção brasileira é responsável por gerar cerca de 122.262 toneladas de resíduos por dia, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil publicado pela a ABRELPE – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, em 2014.

Diante disto, como a arquitetura pode intervir para reduzir as reformas precoces e minimizar o impacto ao meio ambiente? É preciso repensar a forma de se projetar arquitetura, desde a década de 1980, a prática de elaboração dos projetos arquitetônicos, tem adotado, como parâmetro usual de dimensionamento, critérios fixos de metragem quadrada de acordo com as tarefas que serão exercidas no ambiente (CHERRY, 1999; DUERK, 1993), desconsiderando as atividades cotidianas dos usuários dentro do ambiente à ser ocupado, e isso se perpetua até hoje. No entanto, o modo de vivenciar o espaço construído mudou, juntamente com a nova formatação da família contemporânea e suas necessidades.

Neste sentido, a etapa de investigação das reais necessidades dos usuários, por parte dos arquitetos, o chamado Programa de Necessidades Arquitetônico (PNA), mostra-se como uma ferramenta preciosa na elaboração dos projetos, permitido ao arquiteto enxergar sob uma ótica que observa as variáveis do modo que seus clientes vivenciam o espaço construído. A definição precipitada de soluções na fase de elaboração do PNA, torna-o um elo fraco do processo construtivo. Além do risco do projeto ter de ser alterado com mais frequência e de maneira mais radical. Isso custará tempo e dinheiro e, consequentemente, causará insatisfação das partes envolvidas (VOORDT & WEGEN, 2013).

Portanto, deve-se ter cautela ao seguir tendências arquitetônicas que não são funcionais ao cotidiano dos usuários ou espaços rígidos que não permitem flexibilizações, pois inevitavelmente, serão necessárias reformas precoces, uma vez que, o ambiente construído deve adaptar-se às necessidades das pessoas e não o contrário. Assim, planejar o espaço edificado de forma adequada, com um profissional competente, o espaço será personalizado para melhor atender as suas expectativas, evitando reformas precipitadas, e como resultado, trará maior economia financeira, além, de preservar o meio ambiente. Todos se beneficiam e o meio ambiente agradece.

Daniela Ferreira Rocha Soares
Mestre em Arquitetura e Urbanismo com ênfase em Ergonomia, pela UNB (2019). Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela PUC/GO (2010). Tem experiência em Projetos de Arquitetura em geral, Projetos de Personalização e Acompanhamento em obra. Atualmente faz parte do corpo docente da Uniaraguaia (membro do NDE) no curso de Arquitetura e Urbanismo.