Segundo dados do SNIS (SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO) aproximadamente metade da população no Brasil não tem acesso a um sistema de tratamento de esgotamento sanitário, o que significa que cerca de 100 milhões de brasileiros lançam seus dejetos em fossas negras ou nos próprios mananciais d'água.

Estatisticamente falando, metade da população que é atendida por um sistema de esgotamento sanitário, consome em média 129 litros de água por dia, sendo que 80% da água consumida se transforma em esgoto, onde apenas 49% desse esgoto recebe tratamento adequado, logo, temos que todos os dias são despejados no meio ambiente 5,16 bilhões de litros de esgoto sem tratamento algum, contaminando solos, rios, mananciais e praias, impactando diretamente na saúde da população.

O Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) criado em 2013 tem o intuito de garantir que até 2033, 92% dos esgotos estejam tratados. Uma pesquisa do Instituto Trata Brasil mostra que nosso país não conseguirá alcançar o que foi previsto pelo Plansab nos próximos 20 anos se o trabalho de implantar serviços de água e esgoto continuar no ritmo observado. Falta investimento no setor, e o valor arrecadado não é destinado como estimado.

Com a aprovação da Lei nº 14.026/2020 foi então criado e sancionado o novo marco do Saneamento Básico no Brasil, o qual tem uma meta ambiciosa, garantir até 2033, 90% ao tratamento e à coleta de esgoto nacional. De acordo com um estudo da ABCON-KPMG, os aportes necessários para a universalização do saneamento até 2033 são da ordem de R$ 520 bilhões.

E até lá o que faremos? Continuaremos culpando nossos governantes? Cruzamos nossos braços enquanto sofremos as consequências da falta de saneamento em época de pandemia?

A pandemia evidencia nossas deficiências estruturais, desafiando nossa capacidade de conter a contaminação do Covid-19 no presente. No entanto, a mensagem da Sanitation and Water for All (SWA) é clara: água, saneamento e higiene são essenciais na mitigação e no enfrentamento do vírus.

Existem alternativas sustentáveis as quais podemos recorrer, que se tratam de soluções práticas e simples, para o esgotamento sanitário de residências e de pequenos assentamentos rurais. Um exemplo são os SACS (sistemas alagados construídos) que são ambientalmente adequados, compatíveis com a realidade socioeconômica dessas comunidades, podendo ser executados de forma simplificada, utilizando mão-de-obra local, com materiais acessíveis e de baixo custo, além de demandar operação e manutenção também bastante simples, com nenhuma ou baixa utilização de energia elétrica, envolvendo a coleta e tratamento desses esgotos, mediante técnicas não sofisticadas, com o emprego de fossas sépticas, filtros e os SACs. E além disso, a disposição dos resíduos sólidos (lodos) proveniente destes tratamentos dos esgotos, podem ser utilizados como fonte de matéria orgânica para o solo em diversas culturas.

O que nos falta hoje não é só a questão de saneamento no Brasil, falta conscientização da população, em não dispor de forma inadequada seus dejetos, poluindo solos e mananciais. A conscientização ainda é uma ferramenta muito importante para a solução de problemas sociais, falta estarmos ciente da problemática que vem acontecendo com o setor de saneamento básico. Acredito que com a informação é possível mudar a forma de pensar da população e reverter o “Desgoto” no Brasil.

Autora do texto:
Profa. Ma. Marielle Vieira Felix Rocha
Engenheira Civil formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
Especialista em Projetos de Estruturas e Fundações.
Mestra em Engenharia Aplicada e Sustentabilidade pelo Instituto Federal Goiano. Professora de Graduação nos cursos de engenharia civil e engenharia mecânica nas universidades UNIARAGUAIA E UNIALFA.