Paulo chegou até sem fôlego em minha sala. Estava em sofrimento. Sua esposa havia comunicado que não desejava mais o casamento e iria seguir a vida com outro companheiro. A dor do marido era enorme como homem, porém se agravou quando, no papel de pai, recebeu a seguinte pergunta: “Papai, por que a mamãe vai embora com outro homem?”. Ele não conseguia pensar em uma maneira de responder à filha. Afinal, foi pego de surpresa duplamente, pela notícia e pela pergunta da criança. 
 
Acolhi Paulo, primeiramente como homem e depois como pai. Ouvi suas angústias e dores sobre o término da relação. Depois cuidamos do Paulo pai. Acredito muito na importância de separarmos esses papéis. São amores diferentes e será preciso mostrar esses variados amores a essa criança inconformada. 
 
Orientei Paulo a ter uma condução com a filha, seguindo os passos abaixo:
 
1) Trazer essa criança para perto, abraçá-la demoradamente e, depois, perguntar o que ela entendeu da ida da mamãe para outra casa.
 
2) Após a resposta da filha e entendendo o que se passa na cabecinha dela, lançar a segunda pergunta: Como está o seu coração? O que você está sentido? 
 
3) Com a resposta da criança, pedi que Paulo dissesse a ela que compreendia os sentimentos e a dor da filha para oferecer uma acolhida de aproximação. 
 
4) A partir desse conforto acolhedor, ele já poderia explicar à menina que o amor da mamãe pelo marido havia acabado, mas o amor da mamãe pela filha está preservado. É neste momento que Paulo deve mostrar à criança que são amores diferentes, que a relação do pai com a mãe é de marido e esposa, de homem e mulher, diferentemente da relação de mãe e filha. Portanto, ela não precisava se sentir traída ou abandonada. 
 
5) Também solicitei que o pai pudesse mostrar à filha como eles poderiam se relacionar a partir dessa ruptura do casal. A criança precisa entender como será a nova rotina para que se sinta segura. Onde irá morar? Continuará na mesma escola? Como será a relação com os avós? E por aí vai... São questionamentos que as crianças costumam ter e temer. 
 
6) Por fim, indiquei que Paulo abraçasse sua filha e dissesse a ela que essa seria uma das muitas conversas para que os dois aprendessem a lidar com essa nova situação. Mas, sobretudo, pedi que ele mostrasse à filha que a ama e que respeita a decisão da mamãe. Por mais dor que houvesse, essa ação seria benéfica para a criança nesse momento.
 
Paulo saiu com lágrimas nos olhos, no entanto, mais forte para o enfrentamento. Combinamos uma sessão após esse diálogo entre pai e filha. E, assim, daremos seguimento ao fortalecimento de ambos. Paulo se mostrou fragilizado, mas ávido por ajuda e esse é o primeiro passo para enfrentar algo que poderia ser paralisante em um movimento de cura da dor. Após a próxima sessão, trarei aqui como foi esse promissor encontro. 
 
*Fabíola Sperandio Teixeira do Couto trabalha desde 1984 em instituições de ensino e desde 1999 em consultório. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em Organização e Gestão de Centros Educacionais, especialista em Ensino Superior,  terapeuta de Família e Casais e mestre em Educação. Publica periodicamente no Blog Educar Faz Parte LUDOVICA - Organização Jaime Câmara e na Editora Geração Digital. Membro atuante no IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família e associada na ATFAGO - Associação de Terapia Familiar de Goiás.
 
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