Por que é tão difícil sermos generosos com nós mesmos? Será que não nos consideramos dignos de receber? Será que temos somente o dever de dar? É egoísmo pensarmos em nossas necessidades e doarmos tempo, amor e cuidado para nós mesmos? O movimento entre atender às nossas necessidades e às dos outros não pode ser uma questão de isso ou aquilo, mas sim de isso e aquilo.

Os pares de opostos – dia e a noite, movimento e imobilidade, dar e receber, escuta interna e escuta externa, cuidado com o outro e autocuidado, generosidade e autogenerosidade etc. – não precisam se transformar em centros de conflitos. Eles podem ser um convite para transitarmos entre os dois e gerarmos interação. Os problemas surgem quando nos fixamos em um dos polos e ignoramos o polo oposto. 

Já pensou em um dia sem noite ou uma noite sem dia? Isso causaria estranheza e até mal-estar, não é mesmo? Então, por que não estranhamos quando enrijecemos em uma única polaridade. Querendo só dar ou só receber? Por que para algumas pessoas parece estranho cuidar de si e para outras o estranho é cuidar dos outros? Perceba que tudo é uma questão de movimento, de permitir que a vida flua, transitando entre o dar e o receber, entre o cuidado e o autocuidado. A fixação em um desses comportamentos vai gerar um desequilíbrio interno, que vai acabar respingando em nossas relações.
 
E esse fluxo da vida acontece quando abandonamos as polaridades e desenvolvemos uma escuta externa e interna, nos movimentando em direção ao outro sem nos perdermos de nós mesmos. Para abandonarmos essas polaridades podemos nos apoiar na honestidade e na generosidade para conosco e para com o outro.  Sermos honestos com relação às nossas necessidades nos permite cuidarmos de nós mesmos, nos oferecendo o que precisamos ou mesmo pedindo ao outro aquilo que não podemos nos oferecer. O importante é que a generosidade e o cuidado tenham uma via de mão dupla: eu ofereço-os ao outro, mas também a mim.
 
É importante abandonarmos esse espaço de achar que o outro tem que adivinhar nossas necessidades e nos arriscarmos a pedir. Sermos honestos e corajosos o suficiente para percebermos quando podemos nos satisfazer e quando dependemos do outro para que isso ocorra. Ao nos responsabilizarmos pelo cuidado de que precisamos, não ficamos esperando que o outro cuide de nós. Nós mesmos nos cuidamos, sendo generosos e gentis conosco. E, assim, nutridos, podemos ir ao encontro do outro sem tantas carências, sem infinitos vazios. 

Podemos nos encontrar com o outro, criando um espaço de dar e receber, de olhar e ser olhado, de cuidar e ser cuidado, de amar e ser amado. Em constante movimento, seguindo o fluxo da vida e do amor. 

*Yara Carvalho é pedagoga, psicopedagoga e especialista emocional. Tem pós-graduação em Psicopedagogia, Psicologia Analítica e Psicologia Transpessoal e várias formações na área de desenvolvimento humano, inteligência emocional, relacionamentos interpessoais e Psicologia Positiva. É facilitadora de programas de autoconhecimento e desenvolvimento de inteligência emocional. 

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