Tente tirar o celular da mão de um adolescente enquanto ele rola o feed da rede social favorita e falhe miseravelmente. Com a pandemia, o consumo de entretenimento através dos dispositivos digitais sofreu um boom impressionante: o TikTok, por exemplo, chegou à marca de mais de 1 bilhão de usuários em 2019 impulsionado pelo período e se tornou o aplicativo mais baixado do mundo no 1º trimestre de 2022 nas lojas da Apple e da Google. O maior público da plataforma tem entre 10 e 19 anos, somando cerca de 32%.Diante desses dados, os pais se perguntam: existem estratégias para conseguir que os jovens tenham uma relação mais saudável com as redes sociais? E a proibição, funciona? “Não, não funciona”, adianta a psicóloga clínica Helga Castro. Ela reitera que a dica de ouro para lidar com essa situação está no trabalho com a autoestima dos adolescentes. “O aumento da procura pela psicoterapia na pandemia foi notório justamente por eles ficarem a maior parte desse período no universo digital, onde se modificam as formas de se relacionar, dificultando o convívio e o diálogo. Para estimular as redes sociais na medida certa é preciso fazer com que esse adolescente se sinta amado e percebido”, diz.Promover o diálogo e dar opções de outras atividades que não envolvam telas está entre as estratégias possíveis para modificar essa relação com o virtual, o que afeta diretamente a autoestima desses jovens. “É preciso que eles comecem a trocar vivências reais em grupo e não projetadas no ambiente digital”, aponta.Outra observação destacada por ela é que os pais percebam se os filhos têm maturidade suficiente para estar frequentando o ambiente virtual. “Liberdade e autonomia tem que ser dadas de acordo com a maturidade que eles têm para lidar com o que está disponível ali. A internet é um campo riquíssimo que poderíamos usar a nosso favor, mas às vezes achamos que o adolescente está pronto e o mundo está muito dinâmico”, aponta.E como esses jovens têm chegado até os consultórios em relação à superexposição ao ambiente virtual? “Eles chegam com um incômodo, um mal estar, que não sabem o que é e porque estão sentindo e que às vezes se trata da agitação e excitação que os estímulos do digital vão dando”, observa Helga. “Eles pegam muita informação e trazem percepções que aquele universo trouxe como verdades absolutas e que não querem nem querem discutir com adultos”.Algo que vem sendo trabalhado com adolescentes e adultos jovens, segundo a especialista, é o porquê da necessidade de receber tanta informação o tempo todo e saber tanta coisa. “Isso traz essa angústia. No TikTok, por exemplo, estão criando muitos conteúdos sobre diagnósticos de doenças psiquiátricas. As pessoas têm ficado impactadas, pensando ‘será que estou desenvolvendo isso? Será que é isso que eu tenho?’”, observa. “Apesar da internet ser um campo riquíssimo, que podemos usar a nosso favor, são questões que a pessoa nem tem maturidade para lidar”.É assim mesmo?A melancolia que certos adolescentes apresentam é considerada como algo natural da idade para muitos adultos. “Adolescente é assim mesmo, está em conflito”, dizem. Mas ao seguir essa lógica, como identificar o momento em que deixa-se de se tratar de melancolia e passa a ser um sofrimento psíquico importante, que precisa ser tratado com especialistas e outras estratégias? “Quando esses jovens deixam de fazer as coisas usuais já é um indicativo. Que está deixando de querer almoçar na mesa, de encontrar amigos”, aponta Helga.É importante não estigmatizar ou minimizar o sofrimento de um adolescente ou criança. “A melancolia é muito diferente de um estado depressivo. Uma pessoa melancólica ainda consegue fazer as coisas do dia a dia. Se você oferece opções de atividades e ele não ter acatado nenhuma, está na hora de agir e observar se continua frequentando ambientes sociais”, diz.Leia também:- Pandemia incluenciou na hiperdigitalização dos adolescentes- Atividades artísticas são aliadas da saúde mental das crianças- Qual a receita para criar bem os filhos?