Quem já andou num trem fantasma sabe que a cada parada o susto pode ser maior. Quem tiver coragem de embarcar novamente nessa aventura de medo e riso ou de experimentar pela primeira vez uma viagem sem volta, o destino é um parque de diversões macabro que será montado no palco do Teatro Goiânia. O público será embalado por um clima de suspense e comédia nas peripécias da terceira temporada do espetáculo O Mistério de Irma Vap, do diretor goiano Jorge Farjalla, com Mateus Solano e Luis Miranda, neste sábado (3), às 21 horas, e no domingo (31), às 20 horas.

“Espero que vocês possam se divertir o tanto que eu me divirto em cena nessa obra-prima. É uma superprodução feita com carinho. No palco, eu e o Luís trocamos muita intimidade, suamos, um cospe na cara do outro. É uma relação que só tem crescido nos últimos quatro anos por conta das temporadas”, conta Mateus Solano, em entrevista por telefone ao POPULAR. O ator é um velho conhecido dos palcos goianos. Em 2014, ele apresentou a montagem Do Tamanho do Mundo e voltou em 2018 com Selfie. “Sempre fui bem recebido e as lembranças são de um público caloroso e participativo”, lembra.

Considerado um dos maiores sucessos do teatro mundial, O Mistério de Irma Vap foi escrito pelo diretor e ator Charles Ludlam (1943-1987). A estreia foi em 1984 em um pequeno teatro em Nova York (EUA). A trama narra a volta de um casal de nobres para uma velha mansão amaldiçoada. No Brasil, a primeira adaptação foi em 1986, com direção de Marília Pêra (1943-2015), que assistiu a uma das sessões e quando retornou ao Brasil decidiu apostar no texto. Marco Nanini e Ney Latorraca formaram o elenco do espetáculo que ficou 11 anos consecutivos em cartaz, o que garantiu registro no Guiness Book.

O espetáculo ficou marcado na história do teatro por uma espécie de gincana de troca de figurinos em tempo recorde de 3 a 4 segundos, o que segue na versão de Farjalla. Nem Mateus Solano e Luís Miranda nem o diretor viram a performance de Nanini e Latorraca à época do sucesso. Também evitaram ver vídeos para que começassem um trabalho do zero. “Não tivemos esse prazer de assistir. O que é uma faca de dois gumes. Por um lado, perdemos um dos maiores sucessos do teatro nacional, por outro, foi bom para que a gente não tivesse essa referência e criássemos nossos personagens”, comenta Solano.

Na nova adaptação para o teatro, Farjalla inovou ao retirar o texto original da mansão mal-assombrada e adaptar para dentro de um parque de diversões, cenário assinado por Marco Lima. A trama se passa em um trem fantasma, onde o carrinho é utilizado de forma manual, artesanal e mecânica. O diretor usou como referência os filmes de terror, como Pague para Entrar, Reze para Sair (1981), de Tobe Hooper, e Rebecca (1940), de Alfred Hitchcock. Ele também mergulhou na estética do videoclipe de Thriller, de Michael Jackson, que foi dirigido pelo cineasta John Landis, uma referência do gênero.

Montagem

A montagem atual começou a ser apresentada antes da pandemia e acabou sendo suspensa na metade da temporada e durante um final de semana em São Paulo por conta do aumento de casos da doença. “Foi desesperador o que aconteceu com a classe teatral, que não sou eu, nem o Luís, são as pessoas que trabalham nos bastidores. Mas voltar aos palcos foi emocionante, estávamos com muita saudade e também foi legal perceber o tamanho da falta que o teatro fazia para o público. O pessoal está bastante sedento pela experiência do ao vivo. Está sendo emocionante o retorno pelo País”, celebra Solano.

Irma Vap (o nome é um anagrama de vampira) tem uma trama que mistura humor e mistério. A obra, de Ludlam, é apenas um fio condutor, feito mais para servir de base para improvisos, brincadeiras e levar o público ao riso. A trama começa com uma mulher (Lady Enedy) que, ao se casar, tem de conviver com os fantasmas da ex-mulher de seu marido – e com muitas outras assombrações. Os dois atores interpretam cinco personagens – ao longo de quase duas horas -, o que exige uma troca constante de figurinos e de vozes, tanto femininas quanto masculinas. Tudo acontece no palco.

“No palco, eu faço dois personagens e o Luís três. São rápidas trocas de roupas, às vezes, o meu personagem está conversando com outro que eu faço também, onde preciso trocar de figurino e responder. É realmente insano. É uma coreografia que fazemos com a ajuda de outros quatro atores no palco. A gente expõe essas mudanças na cara e o público fica sabendo como elas acontecem. A peça acaba sendo uma homenagem ao próprio bastidor do teatro”, diz Solano. “Quero que a plateia sinta o trabalho do ator e como eles vão dividir esses papéis em um jogo de espelhos”, complementa Farjalla.

É a primeira vez que Solano, que tem uma carreira bem diversificada no entretenimento, com atuações nas novelas Viver a Vida, Pega Pega e Amor à Vida, trabalha com Luís Miranda – um dos maiores humoristas do cenário nacional - no teatro, lugar onde eles iniciaram a carreira de ator. “Vou confessar para vocês que às vezes estou em cena e me distraio, fico assistindo-o. Sou um fã do trabalho dele e nem acredito que estou jogando bola com ele”, ressalta Solano. “Os dois são de uma genialidade, uma elegância artística. Eles têm juntos uma energia maravilhosa”, comenta Farjalla sobre a parceria.

Diretor
Nascido em Catalão, Jorge Farjalla estudou artes cênicas na Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, onde, posteriormente, se tornou professor, ocupando a cadeira de direção e interpretação. O diretor, que vive no Rio de Janeiro desde 2007, assina dois espetáculos de muito sucesso que estão rodando o Brasil simultaneamente, caso de O Mistério de Irma Vap e de Brilho Eterno, com destaques para Reynaldo Gianecchini e Tainá Muller. “É um artista que tenho muito orgulho de fazer parte da trajetória dele. Ele está fazendo bastante sucesso hoje. Tenho certeza que é só o começo da carreira desse cara tão criativo, tão lúdico e tão apaixonado pelo trabalho”, comenta Mateus Solano.

Criador da Cia. Guerreiro, a pesquisa em teatro de Farjalla é ligada ao universo de Antonin Artaud, Bertolt Brecht e Constantin Stanislaviski, tendo como ápice suas montagens sobre as obras míticas de Nelson Rodrigues: Álbum de Família, Anjo Negro, Senhora dos Afogados e Dorotéia. No primeiro semestre de 2018, ele dirigiu a montagem Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?, de Yuri Ribeiro com Paula Burlamaqui, Vitor Thiré e grande elenco no Teatro das Artes no Rio de Janeiro. Ele foi indicado como Melhor Diretor ao Prêmio Botequim Cultural, e foi o grande vencedor do Prêmio FITA 2018 como Melhor Diretor, Melhor Figurinista e Melhor Espetáculo.

SERVIÇO
Espetáculo: O Mistério de Irma Vap
Atores: Mateus Solano e Luís Miranda
Data: Sábado (30), às 21 horas, e domingo (31), às 20 horas
Local: Teatro Goiânia / Rua 23, nº 252, Centro
Gênero: comédia
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: Plateia Inferior R$ 150 (inteira) e Plateia Superior R$ 100 (inteira)
Informações: www.sympla.com.br

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