Na primeira fase de Pantanal, Joventino (Irandhir Santos) foi responsável por dar início a essa saga que envolve família, amor e muitos aprendizados sobre os relacionamentos humanos e o respeito à natureza. Quando escolhe o Pantanal como morada e desaparece no mato após aprender a maior lição de sua vida – que boi marruá se conquista com feitiço e não no laço –, o peão deixa o filho, José Leôncio (Marcos Palmeira), com um buraco no peito e com uma esperança genuína de que o pai está vivo em algum lugar no meio daquele imenso bioma. E, de certa forma, está. José Leôncio não sabe, mas ele encanta no Velho do Rio (Osmar Prado), como esse meio homem, meio sucuri diz a Jove nos próximos capítulos de Pantanal. Se Joventino não volta, quem aparece novamente em cenas que vão ao ar a partir deste sábado (14) é Irandhir Santos, dessa vez como o personagem José Lucas de Nada. Fruto de uma relação fortuita de José Leôncio com uma prostituta, não é batizado “De Nada” por ódio ou rancor, mas por ser, de fato, filho de pai desconhecido. José Lucas nunca ganhou nada de mão beijada. Foi educado pela mãe, avó e pelos muitos peões que pousavam pela currutela onde elas trabalhavam. Foi com aqueles homens, simples e rudimentares, que José Lucas aprendeu o ofício de peão e saiu, em companhia deles, para ganhar o mundo como caminhoneiro. Ganha, mas também perde. Em uma das primeiras cenas de José Lucas de Nada em Pantanal, o rapaz é assaltado, levam carga e caminhão, que estava sem seguro. Jacutinga (Glaucia Rodrigues), a quem chama de avó, é quem lhe acolhe. José Lucas sofre, mas não esmorece. Está determinado a recuperar seu caminhão, custe o que custar. Mal sabe ele que encontrará muito mais do que isso, pois é essa busca que o leva ao Pantanal, onde seu caminho cruza, pela primeira vez, com o de seu pai, José Leôncio. Na entrevista a seguir, Irandhir Santos fala sobre os bastidores da novela e comenta ainda a importância que Joventino teve para as tramas que se desenrolam na segunda fase de Pantanal.

Esta obra, Pantanal, tem algum significado especial em sua vida?

Pantanal para mim tem um resgate de memória afetiva muito grande. A história esteve comigo desde criança. É uma grande história de aventura, redenção, de uma fraternidade entre pai e filho que são, para mim, os grandes ganchos dessa trama. Um deles tem um grande objetivo, que é um dia encontrar o seu pai, mas a vida e a natureza vão trazendo para ele suas crias, seus filhos. Nós temos aí uma fraternidade sendo mostrada por meio da história do Benedito Ruy Barbosa, adaptada por Bruno Luperi, dentro de um bioma incrível que é o Pantanal.

Joventino ficou poucos capítulos na trama, mas é fundamental para essa história que está sendo contada. Poderia nos falar um pouco sobre como enxerga este personagem?

Joventino é um daqueles personagens únicos. É o fundador da casa, de toda a história que vai ser contada. É o alicerce de alguns sentimentos e valores que serão perpetuados nos personagens que vêm depois, como seu filho José Leôncio e seu neto, Jove. O Joventino é um personagem que é um passo antes da entidade. É convocado pela natureza para seu um grande defensor dela. O curioso é que nesse pequeno trajeto que fiz no início da novela, antes de jogar a bola para o grande Osmar Prado, percebi que esse convite é realizado no tranco. Joventino é convidado, mesmo sem saber, a viver no Pantanal. Numa região que não pertence a ele. Mal sabe ele que está sendo enredado para ser um grande defensor daquele espaço.

 

Hoje, José Leôncio se apresenta como um pai com qualidades importantes, mas também muitas falhas. Como foi Joventino, como pai?

A novela apresentou essa grande relação humanizada entre Joventino e José Leôncio. Joventino tinha suas relações com o trabalho, adorava ser peão, sabia o que fazia e era um dos grandes. E essa parte humanizada veio por meio da relação com o filho. Ao mesmo tempo que ele era um pai que exigia que o filho se tornasse um bom peão, era um pai extremamente amoroso, carinhoso. Esse equilíbrio trouxe um brilho para esse pai, Joventino. Foram poucas cenas que aconteceram na relação entre eles, mas cada uma delas muito bem escritas para fixar o que de um fica no outro, para a continuidade da história.

Como foi para você receber o convite para a novela?

Eu tenho a sensação que o Benedito já está me convidando há muito tempo. Essa sensação vem da minha infância, quando eu assistia às novelas, e ela se perpetuou na minha formação como ator, quando eu via mais projetos do Benedito. Das quatro novelas que fiz na minha vida, três eram do Benedito: Meu Pedacinho de Chão, Velho Chico e Pantanal. Quando ouço a palavra “Pantanal”, me traz essa memória. E pensei: eu quero, quero encarar a feitura de fazer Pantanal por meio de um resgate e de uma criação. Pantanal tem sido criar, nunca vou deixar de criar as coisas que quero fazer. E, em paralelo a isso, tenho um reconhecimento, uma homenagem do que essa história já foi.

Você já havia estado no Pantanal?

O Pantanal é um pedaço do Brasil que não conhecia. Quando eu ligava a televisão e assistia à novela, o local entrava na minha casa. Foi tudo muito novo, a maneira como era interpretado, as lentes abertas mostrando toda a iluminação... Deu vontade de entrar nessa história, de pertencer a essa história desde aquele momento. Ficou muito marcado isso para mim. Agora, 30 anos depois, ir para o Pantanal, pisar e olhar, tem uma sensação de “eu já estive aqui”. Já estive como espectador, mas foi tão próxima a experiência que tem um sentimento de pertencimento. Foi marcante e está sendo determinante para essa nova versão.

Alguma curiosidade dos bastidores da novela marcou você?

Do trabalho da produção de arte, tenho de destacar o objeto da sela de prata, que é um objeto essencial, representativo para o personagem da primeira fase, o Joventino, e que na segunda fase se torna um elemento atraente para os filhos do José Leôncio, Jove, Tadeu e José Lucas de Nada. E a sela que a equipe de produção de arte fez é de um encantamento tão absurdo.