Símbolo da culinária de Goiás, o arroz com pequi é resultado das mudanças econômicas no Estado e da mistura entre a cultura europeia e indígena. Em entrevista a Cileide Alves no Chega pra Cá desta terça-feira (21), o historiador Eliézer de Oliveira explicou a origem histórica desse prato genuinamente goiano.

De acordo com o pesquisador, por volta de 1850, após o fim do ciclo do ouro, a economia goiana precisou se reorganizar em torno de um processo de ruralização. Naquela época, a população estava concentrada nas vilas que se formaram nas margens dos rios para a extração de ouro.

Com o advento do novo sistema econômico, o arroz, um alimento até então exótico para os brasileiros, foi introduzido na produção agrícola de Goiás. Já o pequi, típico do Cerrado, era conhecido pelos goianos a partir dos povos indígenas, que tinham o hábito de assar a fruta.

Segundo Eliézer de Oliveira, que tem dois livros publicados sobre a história de Goiás, a dificuldade de se obter sal no interior do Brasil naquela época pode ter contribuído para a formação dessa dupla, que talvez tenha sido a primeira de Goiás: o arroz e o pequi. Até então, o prato mais comum era feijão com farinha.

“A estratégia goiana é fazer misturas. Arroz com guariroba, empadas. Então tudo isso se colocava no meio para fazer um prato que eu chamaria até de um prato multicultural, porque nesse prato você tem múltiplas culturas”, afirmou o professor titular da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Bruto, rústico e sistemático

O passado de colonização violenta no interior do Brasil reflete a cultura goiana contemporânea. Segundo Eliézer, a expedição liderada pelo bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, cruzou o rio Paranaíba em junho de 1722. A historiografia prevê que a bandeira chegou ao Rio Vermelho, onde hoje é a cidade de Goiás, por volta de setembro daquele ano. Em 2022, Goiás completa 300 anos do início da colonização.

“A sociedade goiana é uma sociedade que admira muito a virilidade, admira muito pessoas corajosas [...]  aquilo que a gente vê em alguns adesivos em automóveis: aqui o sistema é bruto. Esse fascínio pela brutalidade é uma herança desse século 18, que foi um século de guerras, foi um século de conflitos, um século que as pessoas que colonizaram Goiás precisavam de coragem e manejar bem a violência.”

O professor citou as Cavalhadas e a procissão dos Farricocos como representações culturais dessa violência histórica. A primeira, é caracterizada pelo conflito entre guerreiros armados montados a cavalo; a segunda, tem como protagonistas os soldados romanos. “Quase todos os nossos rituais tem esses elementos sublimados de uma ocupação violenta, que foi a colonização goiana no século 18”, afirma.

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Ouro e agropecuária

Três séculos após a chegada dos bandeirantes, o Estado passou por diferentes sistemas econômicos. O primeiro deles, motivo da ocupação do território, antes povoado por indígenas, foi a extração de ouro. “Se não fosse descoberto os veios auríferos no século 18, provavelmente o povoamento de Goiás se daria lá na segunda metade do século XIX. De certa forma, o ouro antecipou um projeto colonizador”, afirma.

O professor da UEG explica que a exploração do ouro de aluvião em Goiás, aquele extraído dos vales do rios, era estrategicamente monitorada pela colônia portuguesa, que tinha um interesse econômico e territorial na ocupação dos bandeirantes no interior do Brasil.

“Havia um projeto colonizador. Por isso, no nosso livro, em vez da gente chamar de século do ouro, nós chamamos de século da colonização, porque essa colonização não foi feita de maneira aleatória. Desde o início, a coroa portuguesa acompanhava de maneira muito próxima todos os desdobramentos aqui.”

A região do Rio Vermelho foi a primeira a ser ocupada por conta da grande quantidade de ouro de fácil extração. Segundo Eliézer, a Vila Boa, atual cidade de Goiás, teve um papel estratégico para a expansão territorial da colônia portuguesa. “Vila boa teve um papel muito estratégico para que o Brasil tivesse a extensão territorial que nós temos hoje”, disse o pesquisador em referência ao Tratado de Madrid, que definiu novos limites entre as colônias portuguesas e espanholas na América do Sul.

Ruralização

De acordo com o professor, o fim da exploração do ouro obrigou Goiás a reestruturar o modelo econômico da província. Nesse sentido, o século 19 é caracterizado principalmente pela expansão das fronteiras agrícolas de uma região que viu seus metais preciosos se exaurirem. É nesse período em que o coronelismo ganhou espaço e a identidade goiana começou a ser construída: a cultura caipira, as misturas da culinária e a miscigenação do povo.

Modernização

O século 20 em Goiás é simbolizado pela integração da economia goiana ao capitalismo nacional e global. A construção de Goiânia e Brasília, a expansão da malha rodoviária e ferroviária, além do fortalecimento do Estado, alçaram o Estado a uma posição inédita em relação ao País. “A modernização ela tem basicamente esses dois aspectos: a integração à economia capitalista nacional e mundial e o fortalecimento do Estado.”

A pesquisa de Eliézer, Fernando Lemes e Tadeu Arrais já rendeu dois livros: “A Construção da Colônia" (2016, em parceria com o professor Fernando Lemes) e "O Século XX em Goiás – O Advento da Modernização" (2019, com participação de Tadeu Arrais). O último livro, ainda a ser lançado, conta a história do século 19.