Na cabeça do artista visual Wolney Fernandes tudo é possível. Ele às vezes se pinta peixe e por outras se faz rio. Imagina um menino com coração de pássaro e atravessa uma espada no peito de um homem que se senta sobre cobras e sonhos. Desde 2012, o trabalho de montagem e colagem, que é a marca registrada do goiano, está nas paredes da Plus Galeria, mas ao longo da carreira ele também se mostrou por meio do mercado editorial, importante espaço de divulgação para integrantes da nova cena goiana de ilustradores. “Hoje temos editoras independentes, mais zines e publicações alternativas. Além disso temos a internet. Se o conhecimento for autêntico, o trabalho vai circular e a coisa vai acontecer.”O uso das redes sociais como forma de ampliar universos foi uma descoberta recente para o artista, que começou a criar quando o ambiente em Goiás era mais árido em relação às artes visuais. “Hoje ser diferente é uma potência e quem sabe o que quer com a própria arte encontra espaço”, diz. As colagens do goiano que aparecem em capas de obras como O Olhar de Andorinha (2014), de Rogério Bernardes, e Lab Girl (2017), de Hope Jahren, são prova viva de que existe lugar no mercado para diferentes técnicas. Ele terminou recentemente de fazer a capa da reedição do poema Paraíso Perdido (1667), de John Milton, que será lançada em breve pela editora Martin Claret.Em meados de 2014, Wolney começou a publicar no Instagram intervenções feitas com livros de sua estante. A imagem do senhor que levanta pássaros e ganha o mundo sobre homens imprudentemente poéticos chamou atenção do português Valter Hugo Mãe, um dos escritores mais importantes da cena contemporânea, e para quem Wolney acaba de ilustrar dez poemas inéditos. “As intervenções foram feitas, com colagem, em retratos do próprio autor, mas que acabaram sendo manipulados para que trabalhássemos apenas com a silhueta dele”, explica.O Instagram também é uma ferramenta importante na divulgação do trabalho da artista visual Sophia Pinheiro. Responsável pela ilustração do livro Faz rs (2016), de Larissa Mundim, ela diz que se interessa pelo mercado editorial mas percebe que o livro convencional vem perdendo espaço devido a acordos e trâmites que envolvem as distribuidoras. “Quero trabalhar com novas possibilidades e modelos editoriais, reverberando iniciativas como as da Nega Lilu Editora e dos coletivos criativos. Elas são essenciais para o pessoal que vive da ilustração. Aqui, por exemplo, a cena está pulsante e cheia de gente incrível”, diz a ilustradora, que entre 2008 e 2015 participou do Coletivo Fake Fake.Sophia desenha desde criança, mas se descobriu de verdade nas aulas de Ciça Fittipaldi, nome conhecido nacionalmente no campo da ilustração infantil. “Ela trouxe a discussão sobre a importância da ilustração, como arte e como ofício, para Goiás. Abriu caminho para muita gente e desenvolveu trabalhos mundialmente relevantes. Quando eu era criança roubei na biblioteca da escola o livro A Lenda do Guaraná, escrito e ilustrado pela Ciça, e depois, mais velha, tive a oportunidade de ter contato mais maduro com ela”, relembra. Sophia, que acaba de deixar o Brasil rumo à Berlim, na Alemanha, diz que se assumir ilustradora foi ato de coragem.AlternativosAs dificuldades de ingressar no mercado editorial acabam obrigando ilustradores a buscarem alternativas mais rentáveis. No caso do designer e quadrinista Claudio Aleixo, a saída esteve, durante anos, no mercado publicitário. Depois de mais de uma década trabalhando em agências e se dedicando à sala de aula, desde o ano passado o professor investe na autoralidade dos próprios desenhos e busca traços mais gráficos para as ilustrações divulgadas por meio de suas redes sociais. “Meu foco hoje está no mercado editorial e minhas maiores referências vêm decharges, quadrinhos e cartuns.”Recentemente o nome do Claudio apareceu ao lado de gigantes como Maurício de Sousa, Quinho e Paulo Caruso, em uma homenagem a Ziraldo, que completou 85 anos em novembro. Representante do cartunismo goiano, ao lado de Jorge Braga, o ilustrador assina uma das 85 caricaturas do pai do Menino Maluquinho no livro Ao Mestre com Carinho (2017), de Edra Amorim. “A ilustração em Goiás é pouco reconhecida. A falta de divulgação e incentivo muitas vezes desanima o profissional”, diz Aleixo.As surpresas também bateram na porta de Jader de Melo, quando foi convidado pelo Sesc para ilustrar a exposição Morada do Ser, baseada em textos de Marina Colasanti. No ano passado uma onda de elogios a ilustração do livro Luquinianas (2017), de Eugênia Fraietta, reforçou o gosto de Jader pelo mercado literário infantil, além de servir para mostrar que a cena segue aberta e mais aquecida do nunca.-Imagem (Image_1.1487989)-Imagem (Image_1.1487988)-Imagem (Image_1.1487987)