Estimular a criatividade, a imaginação e o trabalho em equipe, desenvolver a coordenação motora, aprender uma nova habilidade, lidar com sentimentos e, acima de tudo, se divertir. As vantagens de incorporar uma atividade artística no dia a dia das crianças são muitas. A arte está diretamente relacionada ao bem-estar infantil, sendo uma importante aliada de práticas terapêuticas e de manutenção da saúde mental dos pequenos dentro e fora de consultórios.E se ainda existiam dúvidas quanto a isso, a pandemia jogou luz para o fato de que saúde mental é assunto de criança, sim. Um levantamento recente da Unicef (Situação Mundial da Infância 2021 - Na minha mente: promovendo, protegendo e cuidando da saúde mental das crianças) alerta que crianças, adolescentes e jovens poderão sentir o impacto da Covid-19 em sua saúde mental por muitos anos. Ao ouvir mães, pais, demais responsáveis, professores e especialistas que lidam diretamente com esses indivíduos, a conclusão é a mesma.Leia também- PsiQUÊ?: saúde mental exige atenção desde a infância- Qual a receita para criar bem os filhos?Por esse motivo, o período também destacou o importante papel que as práticas artísticas têm na promoção da saúde na infância. Há cerca de cinco anos, as irmãs Maria Clara Soler da Silva, de 14 anos, e Maria Elisa Soler da Silva, 12 anos, frequentam uma escola de artes no Setor Jaó. “A Maria Elisa faz aula de piano e a Maria Clara de violão e de corte e costura”, comenta a mãe, a pesquisadora Embrapa, Mellissa Ananias Soler da Silva, de 46 anos.A filha mais nova, Maria Elisa, passou pela transição da infância para a adolescência no contexto pandêmico. Quando tudo começou, ela tinha 10 anos. “Ela sentiu mais os impactos do que a irmã. Mas, ainda assim, vejo como o piano foi uma forma de extravasar para ela, já que ela continuou com as aulas on-line”, diz. “Mesmo não sendo a mesma coisa do presencial, ela conseguiu um desenvolvimento e superar alguns obstáculos, porque ela é mais introvertida”.Maria Clara começou as aulas de corte e costura com cerca de 9 anos. Com o início do isolamento social, a mãe comprou uma máquina de costura para a garota. “Ela fazia bolsinhas e começou até a colocar para vender nas redes sociais, se divertiu bastante”, conta Mellissa. Apesar da importância das atividades nos períodos de reclusão, a mãe comemora a volta das aulas de artes presenciais.“Um espaço como esse nos remete às coisas que desenvolvem o nosso intelecto e trabalha com todos nós de forma lúdica. E o principal: a garotada não tem nem tempo para pensar em celular, o que é maravilhoso pra gente”, comenta.Crianças em casa, sem possibilidade de viajar, espaço de lazer do prédio fechado, assim como a escola. “Com isso, os meninos passaram a ficar mais tempo em frente às telas e a gente foi percebendo as manifestações de ansiedade na criança, como nervosismo e perda de motivação”, conta o psiquiatra Henrique Cabral, de 42 anos, sobre o período de reclusão dos filhos Pedro Henrique, de 12 anos, e Rosa Maria, 9 anos. A solução que ele e a esposa encontraram foi intensificar os trabalhos com arte em casa.“Definimos um horário do dia para eles saírem das telas e fazer uma leitura, pintura, tocar um instrumento, o que dava para fazer em casa”, conta. Na agenda também tinha um horário para, literalmente, colocar a mão na massa. “O Pedro Henrique fazia oficina de cerâmica e eu tenho um aparelho (para modelar) em casa”, diz. “É uma atividade que tenho recomendado até para os pacientes. Isso porque as atividades culturais são ativas, você participa do processo. É diferente de assistir a um filme, por exemplo”, aponta.Ao observar a experiência de crianças com cerâmica, lidar com a frustração está entre os ganhos destacados por Henrique. “A argila quebra, cai, empena, não sai do jeito que você queria. E aí você tem que começar tudo de novo. É tentativa e erro, onde você trabalha a persistência”, diz.Com a pandemia, a procura pelas aulas na escola de artes Milagre dos Peixes cresceu significativamente, principalmente como recomendação de profissionais da saúde para crianças com diagnóstico de TDAH e autismo, como conta a diretora do local, Cida Pereira. “Tenho recebido muitos pais buscando as aulas como terapêutica também para crianças que se demonstraram confusas, angustiadas, ansiosas e desmotivadas pela pandemia. Isso porque durante as três horas que elas passam aqui, elas ficam totalmente ligadas e dedicadas às atividades, além de ser um espaço de convivência”, comenta.Notas musicaisDentro do consultório, as diversas manifestações artísticas podem andar lado a lado com o desenvolvimento infantil em diversos âmbitos. A arteterapia, por exemplo, não tem limite de idade e está entre as principais práticas integrativas do Sistema Único de Saúde (SUS), assim como a musicoterapia. “Trabalho dentro da perspectiva que nós, seres humanos, somos dotados de linguagem e musicalidade. É isso que nos dá essa condição de ser humano”, aponta a fonoaudióloga e musicoterapeuta, Eliane Faleiro de Freitas. A partir dessa ideia, a musicoterapia pode ser uma grande aliada da linguagem do indivíduo em desenvolvimento, que ainda não aprendeu ou tem dificuldades de se expressar com uma linguagem explícita, como a fala. “É feito um trabalho de apresentar uma outra visão do bebê (0 a 3 anos) ou criança pequena (3 a 6 anos) a partir do trabalho com a música. O atendimento pode mostrar aos pais que uma vocalização, um canto, um olhar, já está dizendo muito”, comenta.Escola e arte como aliadasUma etapa importante para crianças e pais é quando os pequenos atingem a idade escolar. Na última segunda-feira, a funcionária pública Geisa Alves levou o filho Saul, de 2 anos e 11 meses, para o seu primeiro dia na escola. “Para a minha surpresa, ele não pediu para ir embora e se deu super bem”, comemora. Os preparativos para a nova experiência começaram desde a sexta-feira anterior, contando como a rotina do garoto mudaria em alguns dias. “É fundamental o diálogo com a criança. Contei que ele ia começar na escola, que lá ele teria vários amigos e poderia brincar com outras crianças. Expliquei também que o motivo é que a mamãe e o papai precisam trabalhar", diz. O resultado: Saul está adorando os primeiros dias de escola. “Ele chegou em casa dizendo que gostou muito. Para ele foi uma sensação de liberdade, tanto é que quando fui buscá-lo, ele nem quis ir embora”, conta Geisa.“A educação é terapêutica”, comenta a diretora pedagógica da Escola Aldeia, Carolina Parrode. Ela aponta que o ambiente familiar é mais restrito e rico em afeto, mas que o ser humano não foi feito para viver exclusivamente nesse contexto. “Fomos feitos para ganhar o mundo, viver em um ambiente mais amplo para juntar pessoas em torno de propósitos e ideias. Quando a criança vai para a escola, ela tem a oportunidade de enriquecer o seu arcabouço simbólico, de amar outras pessoas”, diz. A partir dessa ideia, ela acredita que o ambiente escolar deva ser funcional e contextualizado com a realidade. “Muitos pensam que a escola é o lugar de aprender por ser o lugar em que acontece a organização do conhecimento: a geografia, a história, a matemática, a língua portuguesa, as ciências naturais. Mas essa organização tem que ser capaz de reconhecer e apreender a complexidade da realidade”, comenta. Ela dá um exemplo de como essa contextualização muitas vezes não é feita. “Me lembro quando fui aprender sobre as estações do ano na escola. Para ilustrar o inverno, tinha um bonequinho de neve. A gente nunca viu isso por aqui em Goiás”, diz. “Essa noção de contextualização é extremamente importante para a criança e não tem nada melhor para fazer isso do que a arte, abrangendo todas as disciplinas e áreas do conhecimento de uma forma transdisciplinar. Afinal, a arte é uma tentativa de apreensão da realidade”, explica. Sobre a pandemia, ela reitera como ainda não se tem a dimensão total dos impactos no desenvolvimento das crianças. “Ainda temos muito o que colher desse tempo em que ficamos reclusos. Temos questões como as fonológicas e do processo de alfabetização, por exemplo”, diz. “Imagina uma criança em processo de constituição de linguagem, vendo o professor conversar com máscara?”, destaca.Nos aspectos comportamentais, ela volta na ideia de que o contexto familiar não foi feito para ser vivido com exclusividade. “O ambiente familiar, apesar de maravilhoso e formador, também nos adoece. E foi o que aconteceu com a pandemia. Vimos tanto crianças, quanto adultos adoecidos”, aponta. Por isso, ela bate na tecla de se pensar uma educação humanizada e acolhedora. “Na pandemia, a instituição escola aprendeu a se ‘desescolarizar’ e começou a pensar como comunidade, não mais como centro de apropriação de saberes. Porque todas essas questões desabam ali dentro: desentendimentos familiares, crianças com os mais diversos sintomas”, diz.Evolução Adriana Mendonça, de 53 anos, é professora e artista visual. Mesmo trabalhando com artes, ela se surpreendeu com os benefícios das práticas no desenvolvimento das crianças. Seu filho Pedro Mendonça Pereira, tem 10 anos e é apaixonado por rock. Entre a gama de instrumentos para aprender, a aposta da mãe era de que ele se daria bem com a bateria. “Quando achamos que ele já estava com uma idade legal para começar as aulas, veio a pandemia. Ficamos totalmente isolados por dois anos inteiros, com receio principalmente pelo meu marido, que é hipertenso”, conta. Em certo ponto, ela compreendeu que o filho precisava voltar a ter contato com outras pessoas de fora. Junto a isso, o desempenho escolar do garoto estava baixo em algumas disciplinas, como matemática. “Percebi que não era somente pelo conteúdo, mas sim que eu precisava explorar outros mundos com ele”, aponta. A aposta foi em uma ação conjunta entre o trabalho com o conteúdo escolar e as aulas de bateria. “Em 6 meses, já percebo uma mudança muito grande. Vejo como a música ajuda ele a se concentrar, e, principalmente, como ajuda na autoestima. Ele passou a ter um entendimento de si, do movimento do próprio corpo, da sua relação com a criação. E isso acionou outros campos, como dos conteúdos escolares”, conta. -Imagem (1.2491953)-Imagem (1.2491954)-Imagem (1.2491955)