Está registrado em todos os livros de História: no dia 7 de setembro de 1822, d. Pedro I, que estava fora da Corte do Rio de Janeiro, viu o ápice de seu poder no Brasil chegar. Às margens do Riacho Ipiranga, hoje localizado dentro da cidade de São Paulo, ele, montado em seu cavalo, gritou: Independência ou Morte! Bom, novas abordagens daquele instante têm sido trazidas no decorrer desses dois séculos e hoje sabe-se que a cena não foi tão heróica assim, como nos faz crer o famoso quadro do artista plástico Pedro Américo retratando o momento. Fato é, porém, que o Brasil mudou seus rumos também a partir dali.

Este ano do bicentenário da Independência do Brasil é uma oportunidade para fazer balanços, resgatar episódios que já quase caíram no esquecimento e tentar encontrar respostas para situações do presente que podem estar guardadas lá no passado. Afinal, a Independência do Brasil tem algumas peculiaridades que sequer passam exatamente pelo fato de d. Pedro I estar, naquele momento, voltando do primeiro encontro com sua amante, a Marquesa de Santos, e de ele ter enfrentado uma viagem cheia de percalços. O que há por trás da Independência é mais profundo e duradouro. Talvez dure até hoje.

Alguns mitos cercam aquele Brasil de 1822, que na verdade ecoava o Brasil de 1808, quando a corte portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte, veio parar aqui. D. Pedro chegou naquela fuga desesperada com 10 anos de idade. Em 1821, ele ficou para trás como representante de seu pai, d. João VI, que retornou a Portugal para amainar pressões que ameaçavam seu trono. Com o rei fora e cortes lusitanas querendo retomar o Brasil, os clamores da Independência cresceram e o ato de separação da metrópole foi realizado pelo herdeiro do trono do império do qual o País se desvencilhava. Onde mais isso ocorreu?

Menos de uma década depois, d. Pedro I faria algo ainda mais inusitado, voltando para a terra da qual havia proclamado a independência brasileira para se tornar o rei d. Pedro IV, derrotando o irmão d. Miguel pelo direito ao trono, deixando aqui o filho d. Pedro II como herdeiro, com apenas 6 anos de idade. Em toda essa confusão familiar, ficou gravada a imagem de um homem viril, mulherengo, que não se escondia de uma boa briga – foi atrás de uma das grandes em Portugal, onde enfrentou a própria mãe, Carlota Joaquina – e com caráter impulsivo. Tudo isso criou versões não muito precisas daquele momento.

Uma das mais difundidas é a de que a Independência brasileira foi, em comparação com as guerras de libertação de outros países das Américas contra Espanha, Inglaterra e França, até certo ponto pacífica. Afinal, não tivemos uma Guerra da Independência, como os EUA, e não vimos nascer um homem como Simón Bolívar, herói na Venezuela, Peru, Colômbia e Bolívia. Esse é um engano muito comum, pois houve conflitos e revoltas também aqui. E nesta primeira matéria da série sobre os 200 anos da Independência que o POPULAR passa a publicar mensalmente até setembro, vamos conhecer uma ocorrida em Goiás.

Um governo separatista

Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, incluindo o menino D. Pedro I, Goiás já vivia as consequências da decadência de boa parte das atividades ligadas à mineração. Já a pecuária, mesmo já sendo uma das principais fontes de riqueza da região, ainda não se desenvolvera. “Vivia-se um hiato entre os dois processos”, afirma o historiador Nasr Chaul, autor do livro Caminhos de Goiás, uma referência nos estudos historiográficos do Estado. “E o Norte tinha destaque porque ali havia mais condições de escoar a produção em razão da navegação dos rios, que levavam ao Norte e Nordeste do Brasil.”

Esse contexto é de grande importância para entender o que aconteceu em Goiás naquele período, logo antes e pouco depois da Independência do Brasil. Ainda em 1809, foi autorizada a separação da Província de Goiás em duas comarcas: uma abrangendo a parte sul, onde ficava a capital, Vila Boa, e outra ao norte, gênese de um Estado separado – algo que se efetivou só em 1988, com a criação do Tocantins – e também foco de uma sedição que eclodiu na época do Grito do Ipiranga. Sim, houve uma revolta de Independência em território goiano, com direito a proclamação de um Estado autônomo e tudo.

Antes de contar essa história tão pouco lembrada, é importante entender que motivos não faltavam para a revolta. O historiador Juscelino Polonial, no livro Terra do Anhanguera: História de Goiás, explica que “o Norte era a região que mais arrecadava impostos vendendo o gado para o Nordeste e para Minas Gerais” e que “eram as rendas públicas produzidas por este comércio que sustentavam o governo de Goiás”. Um governo visto como distante, que não se interessava pelos problemas da região e sim pelos dividendos da arrecadação. Havia um isolamento físico e simbólico entre as duas partes do Estado.

A criação da Comarca do Norte teria a função de amenizar essa situação. Essa iniciativa é detalhada no trabalho de outro historiador, Asaph Ariel Naves, em dissertação de Mestrado intitulada A Crise Política da Província de Goiás e o Movimento Separatista do Norte no Período da Independência do Brasil (1820-1824), defendida na Universidade do Minho, em Portugal. “Podemos dizer que este mesmo movimento foi o reflexo a nível local do movimento independentista nacional, manifestando-se sob o signo da liberdade e da revolta contra o governo instalado no sul da capitania goiana”, escreve ele em sua pesquisa.

Esse jogo de poder engolfou Goiás e monopolizou as atenções por aqui durante todo o período da Independência, cuja notícia, estima-se, chegou primeiro ao Norte do Estado do que à capital, Vila Boa. Isso porque as rotas de comércio eram mais ativas na região e chegar à atual cidade de Goiás, vindo do litoral, era uma aventura que durava meses. Antes do 7 de Setembro de 1822, já havia efervescência no ar em razão da Revolução liberal do Porto, em Portugal, de 1820, que queria recolonizar o Brasil, obrigando o retorno de D. João VI à Europa. Nasciam a Independência do Brasil e um governo separatista no Norte goiano.

A Revolta do Norte

Onde foi, o que queriam e quem liderou o Governo do Norte, movimento separatista que ocorreu no período da Independência do Brasil e que teve Goiás como cenário.

A Comarca

A separação de Goiás em duas comarcas foi determinada por D. João VI em 1809 e para assumi-la foi escolhido Joaquim Teotônio Segurado, que havia sido ouvidor-geral da Capitania de Goiás entre 1804 e 1809. Ele passou a administrar uma área gigantesca, que abarcava os atuais estados do Tocantins, o Nordeste goiano e boa parte do Sul do Pará.

O líder

De acordo com dados do Arquivo Nacional, Joaquim Teotônio Segurado nasceu na cidade de Moura, Portugal, e quando chegou ao centro do Brasil, teve como meta estabelecer uma comunicação mais rápida e eficiente entre Goiás e o Norte, estimulando estradas e vias fluviais que ligassem o Estado à então Capitania do Grão-Pará e ao Maranhão.

As capitais

Quando foi criada, havia a previsão de que a capital da Comarca do Norte ficasse no atual Bico do Papagaio, no encontro dos rios Tocantins e Araguaia, a ser chamada de São João das Duas Barras. Esta cidade jamais foi construída. O Arquivo Nacional informa que a sede acabou sendo efetivada na vila de Palma, atual Paranã, sudeste do Tocantins, em 1814.

As desavenças

Nos estudos dos historiadores Asaph Ariel Naves e Juscelino Polonial, são identificadas correntes políticas conflitantes da época. Em Goiás, o padre Luiz Bartolomeu Marques e o capitão Felipe Antônio Cardoso desejavam a total independência do Brasil de Portugal. Já os funcionários públicos Manuel Antônio Galvão e Antônio Pedro de Alencastro pregavam ideias republicanas. Já o padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, redator do primeiro jornal goiano (Matutina Meiapontense), e o capitão José Rodrigues Jardim deram sustentação à proclamação da Independência, mas combatiam a autonomia do Norte do Estado.

O governador

Quando a Revolução do Porto estourou em Portugal, houve decretos que tentavam impor a vontade da metrópole sobre sua principal colônia. O governador anterior da Capitania de Goiás foi Fernando Delgado, que fez uma administração muito criticada, sobretudo para quem morava no Norte. Um decreto de 1821 extinguiu as capitanias e as transformou em províncias a serem governadas por juntas provisórias. Em Goiás, coube a Inácio de Sampaio a condução da administração civil e militar. Quando chegou, o clima já era hostil.

Primeira revolta

Ainda em 1821, houve uma tentativa, em Vila Boa, de deposição do governador Sampaio. Ela foi liderada pelo padre Bartolomeu Marques e pelo capitão Felipe Antônio Cardoso. Eles tentaram mobilizar tropas contra o governo, que era nomeado por Portugal. A sedição falhou e ambos foram expulsos da capital. O capitão Cardoso foi para Arraias, que depois viria a ser a capital da Comarca do Norte. Aquela região passou a ser o centro da oposição.

As batinas

A Igreja participou ativamente dos acontecimentos. Além do padre Bartolomeu, a paróquia de Cavalcante, hoje Nordeste goiano e relativamente próxima à sede da Comarca do Norte, ajudou nos preparativos da revolta. Um ano antes da Proclamação da Independência do Brasil, em 14 de setembro de 1821, foi instalado um governo autônomo no Norte, que anunciava sua autonomia diante da Província de Goiás.

O desafiante

Dono de enorme prestígio na região e com histórico de comando firme, Joaquim Teotônio Segurado, líder da Comarca do Norte, era fiel às cortes portuguesas e a independência que buscava não era exatamente a do País, mas a da Comarca. Ele acabou eleito deputado e foi para Lisboa em janeiro de 1822 como representante de Goiás, advogando pela criação de uma outra província, fora do mando de Vila Boa.

A independência de dois anos

O pagamento de altos impostos era a principal justificativa para o sonho separatista, que durou entre 1821 e 1823. No entanto, a posição dúbia em relação à própria Independência do Brasil – Teotônio Segurado não firmava uma posição definitiva, se ao lado de D. Pedro I ou das cortes portuguesas – enfraqueceu o movimento. Em 1823, o novo imperador do Brasil anunciou que não reconhecia a legitimidade do governo da Comarca do Norte.

Divisões

O governo provisório do Norte foi marcado por correntes políticas rivais em seu interior, o que causou, por exemplo, a mudança de sua sede várias vezes. Além de Paranã, ela foi instalada em Arraias, Natividade e Cavalcante, sempre de acordo com interesses específicos de seus membros. Esse racha foi determinante para o fim daquele projeto.

Guerras no entorno

Os conflitos gerados pela Independência pipocavam no Norte e Nordeste e havia o temor de que eles também chegassem a Goiás. Isso só não aconteceu porque as forças militares, tais como as políticas, também estavam fragmentadas e não houve a reunião de tropas. D. Pedro I também decidiu tratar a questão diplomaticamente. Ao invés de enviar soldados para acabar com o governo do Norte, ele mandou uma comissão, que aproveitou as cisões entre os líderes do movimento para reunificar Goiás.

O fim

Uma centelha de revolta foi acendida no final do processo, mas debelada pelos defensores da Independência do Brasil, como o padre Camargo Fleury, que liderou uma expedição à região para acalmar os ânimos e obter o juramento de fidelidade dos revoltosos a D. Pedro I. Eles sufocaram as ideias mais avançadas, como a da República, e os adeptos dos portugueses. Isso significou uma derrota para Joaquim Teotônio Segurado, já fraco depois da ida a Portugal, o que o fez sair de cena. Ele foi assassinado em Paranã, em 1831.