Rostos pretos espalhados por todos os cantos parecem querer dizer muitas coisas. Tamboretes de madeira de diversos tamanhos servem de base para garrafões brancos em trabalhos artísticos ainda em processo de criação. Telas, tintas e papel decoram o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, espaço multicultural cravado no coração do Setor Sangrilá, na Região Norte de Goiânia.

Criado sob muitas mãos, o projeto desde o início do ano tem movimentado a cena de artes de Goiás sob a batuta do artista visual Dalton Paula, 40 anos, e da professora e pesquisadora Ceiça Ferreira. Para início de conversa, é preciso que se diga: o Sertão Negro é fruto da realização de um sonho de Dalton, brasiliense e que vive há mais de 30 anos em Goiânia.

Um dos artistas brasileiros mais expoentes da arte contemporânea brasileira, o criador do ateliê tem, por exemplo, quatro obras no acervo exposto do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa). Dalton também ganhou destaque na Bienal de Arte de São Paulo e no Museu de Arte de São Paulo (Masp), consequência de uma pesquisa autoral sobre retratos, ressignificações e representatividade de pretos e pretas.

“Tenho pensado muito no retorno de tudo que está acontecendo em minha vida. A educação e a arte são as principais ferramentas para o futuro que almejo. É uma espécie de troca”, adianta Dalton. O Sertão Negro é um espaço para formação de artistas residentes, além de servir para pesquisa, debate, exposição, aulas e oficinas, como de cerâmica e capoeira, e um cineclube na charmosa tenda de palha nos fundos. “Temos agora novos brinquedos: um forno para cerâmica e uma prensa de gravura”, diz Dalton.

O projeto já havia sido pensado há muitos anos, mas tomou forma apenas em 2021, quando as obras começaram no terreno do Shangrilá. O prédio foi todo pensado para ser ecologicamente consciente, desde a coleta de água em reservatório, até a preservação de espécies nativas da fauna e flora da região. Por lá, tudo é sagrado e reverenciado por meio da arte, como as plantas e as texturas de suas folhas e caules, e a terra com suas infinidades de cores. Há ainda um banco de sementes e fontes de água com peixinhos coloridos.

No interior do ateliê, uma enorme estante recheada de livros reitera as nuances educativas e pedagógicas do projeto. “Todo dia chega um livro. Existem edições de obras em que não há em outro lugar de Goiânia”, explica Dalton. Entre as categorias da biblioteca estão, por exemplo, Arte Negra e Indígena Brasileira, Literatura Afro e História da África, com obras como Mãos Negras - Antologia da Arte Negra (Panorama Editora).

Muitos dos livros disponíveis para pesquisa do centro cultural também servem como fonte de investigação para jovens artistas residentes que passam pelo espaço. O artista e professor mineiro Marcel Diogo esteve no Sertão Negro desde o início do mês e, agora, segue para São Paulo, onde participa da mostra anual da Galeria Vermelho. Outra artista residente que trabalha no local é Manuela Costa Silva, selecionada para a 19ª edição do Salão Nacional de Arte de Jataí e para a Kaaysá Residency.

“A ideia é que haja uma conexão afetiva, uma troca artística e trabalho coletivo. Sempre busquei ouvir artistas mais jovens”, comenta Dalton. Além da parceria com a Universidade Federal de Goiás, com programas de estágio, o ateliê está aberto para todos da comunidade, desde vizinhos do Shangrilá, até pessoas de todo o mundo. Em março, por exemplo, o fundador do Instituto Inhotim, Bernardo Paz, acompanhado dos diretores artísticos do museu, Lucas Pessoa e Julieta Gonzalez, visitaram o Sertão Negro.

“É um sonho materializado. É sobre mostrar para artistas negras e negros que é difícil trabalhar com arte em Goiás, no Brasil, mas é possível”, argumenta Dalton, enquanto olha com carinho para o ateliê rodeado por uma mata repleta de árvores e mudas típicas do Cerrado. “O sol nasce para todos”, finaliza.

Dalton Paula no Masp
Quem for até o Sertão Negro Atelie e Escola de Artes nesta semana nao vai encontrar Dalton Paula. Tudo porque o artista está em São Paulo para a exposição Retratos Brasileiros, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), que começa nesta sexta-feira (29). As obras expostas fazem parte do acervo do Masp e apresentam rostos de homens e mulheres negras, a fim de ressignificar e dar protagonismo às contribuições de personalidades afrodescentes. 

"São obras de pessoas que lutaram por liberdade e justiça ao longo dos séculos, personalidades históricas apagadas ou subrepresentadas na história brasileira", explica o artista. Nas obras, Dalton adota os espaços sem preenchimento de tinta, sugerindo uma história em reconstrução, e o uso de folhas de ouro de 22 quilates como adorno na cabeça dos representados, exaltando as tradições afro-brasileiras. A exposição fica em cartaz no Masp até o dia 30 de setembro. 

Portas audiovisuais
Um dos projetos mais benquistos do Sertão Negro Atelie e Escola de Artes sao as sessões de cinema mensais que o espaco oferece para a comunidade. Sempre no último final de semana do mês, o local abre os portões para exibição de filmes dirigidos ou protagonizados por negros. "É uma forma de destacar a representatividade e criar uma forma de lazer, que é o cinema, para todos que passam por aqui", explica a coordenadora do projeto, a professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Ceiça Ferreira. Já foram exibidos, por exemplo, filmes como o documentário Viva São João (Andrucha Waddington, 2002), e o curta-metragem Carolina (Jeferson De, 2003). 

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