"Que alegria era ver o pai de volta e o caminhão carregado de sacas de arroz, feijão, batatas e até com um ou dois porcos”

De minha parte, fico satisfeito por ter sido salvo da ruína. Na primeira infância, vivi de favor, em casas de tios e tias, até quando minha avó Cecília me levou para um orfanato. Eu era um entre as cem crianças pobres que moravam ali, a 4 quilômetros do Centro de Anápolis, sob os cuidados zelosos de um casal de diretores que, ao nos dar afeto e educação, se transformaram em nossos verdadeiros pais.

Agora sexagenário, penso com gratidão que, em meio às dificuldades, sempre brotava uma nesga de esperança advinda do amor pela vida que palpitava em nós. Convencido estou de que tinha razão o tribuno romano Cícero ao afirmar que “os frutos da velhice são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu” – escrevo como se balançasse a árvore da infância para colher os frutos que me são devidos nesta quadra da vida.

Não importava o sobrenome, se Santos, Pereira, da Costa, Souza, d’Abadia, Silveira, Queiroz, e (muitos) Silvas – todos eram filhos do Abrigo. Pode o benévolo leitor imaginar os malabarismos feitos por nossos pais adotivos para cuidar de tantas crianças: alimentar, vestir, manter a higiene e a saúde, e até prover vacinas; além de educar-nos dentro dos princípios cristãos, dando acesso à escola, sendo que muitos chegaram até à universidade.

A comida vinha, em boa parte, do programa norte-americano Aliança para o Progresso e parte da nossa “rocinha” – os 4 alqueires de terras do próprio Abrigo, onde Seo Alcides e os meninos maiores plantavam, em regime de rodízio, algum milho, mandioca e até gergelim; além de manter uma horta bem produtiva.

Em grande parte, os mantimentos chegavam mesmo das “campanhas” que Seo Roque organizava. Ele viajava na época das colheitas em Goiás pelos quatro cantos do Estado, com um caminhãozinho Ford 3x4, recolhendo donativos que fiéis das igrejas cristãs reservavam para doação ao Abrigo.

Que alegria era ver o pai de volta e o caminhão carregado de sacas de arroz, feijão, batatas e até com um ou dois porcos que seriam engordados para enriquecer a nossa dieta, incluindo o goianíssimo torresmo! Mas antes das viagens dele pelas fazendas, nós, os componentes da Bandinha do Abrigo, éramos atrações nas igrejas, tocando e cantando hinos, para encantar e convencer os fiéis a fazerem doações, preparando assim a fase de “campanha”.

Os componentes da banda, íamos na Kombi do Abrigo. Muitos desses lugares, trago na memória com carinho, como São Luis de Montes Belos, Sanclerlândia, Firminópolis – parece que das menores cidades é que chegavam as maiores doações. Ao cantarmos o hino do Abrigo, podíamos ver lágrimas nos olhos de muitos fiéis: “Crianças que hoje tendes mãezinha, lar e pai, com as mãos levantadas a Deus mil graças dai...”

O esforço de nossos protetores garantiam-nos, quase sempre, três refeições diárias e até um lanchinho à tarde, muitas vezes uma fruta. Descascar laranjas para os menores ficou na minha memória. Que prazer ancestral sinto até hoje, ao descascar uma laranja madura no meio da tarde. Da polpa surge o doce sentimento de gratidão pela generosidade dos doadores anônimos, e principalmente pelo amor incondicional de Modesta e Roque Bernardes por nós, seus filhos adotivos.