Será que é possível levar uma vida plena, sem angústia? Me ocorreu na escrita desse artigo a questão do que nos diferencia dos animais. Relembro aqui de um vídeo de uma revoada migratória de pássaros: um espetáculo perfeito, todos eles em conjunto, revoando de forma sincronizada, sempre de fora para dentro, milhares que parecem um só, sem “dúvidas”, sem desentendimento entre eles, sem se esbarrar um no outro; não há furo nesse comportamento dos pássaros. Eles são pré-determinados para aquilo, já nascem sabendo o que fazer.Mas e nós humanos? Nós não somos sincronizados: nos desentendemos, esbarramos nos outros e em nós mesmos, duvidamos, não sabemos ao certo o que fazer, não somos perfeitos.Nós somos atravessados pela incompletude, pela falta, pela não inteireza, essa é a nossa condição de vida. Aqui está demarcada a diferença entre o homem e o animal. E por que temos angústia? Freud diz que a angústia é um estado particular de esperar um perigo, ou se preparar para ele, mas ainda desconhecido. E que desconhecido é esse? A verdade é que vivemos enfrentando esse desconhecido: nossas tentativas de encontros com o outro, nossos desejos por objetos que nunca nos satisfarão, nossas tentativas de produzir, de criar, nossas próprias atitudes no dia a dia da vida que nos parece tão estranhas em muitos momentos, tudo é desconhecido. Não existe manual que nos explique como devemos fazer, ou como encontrar a certeza das coisas da vida, porque o que nos rege é a incompletude, essa nossa condição de vida.E porque não existe manual, não existe receita, temos a possibilidade de sermos singulares em nossa existência, sem um ideal do que é bom ou ruim, e também sem a garantia que tanto buscamos. Essa falta radical inerente ao ser humano aponta então para essa angústia que está ligada à nossa existência: não é possível ser completo, encontrar a felicidade, a plenitude. A angustia é parceira da existência do humano; não há remédio para angústia, não há um objeto que satisfaça a minha angústia.Mas e aí? A saúde mental está ligada a uma vida sem angústia? Como diz Guimarães Rosa “viver é muito perigoso... travessia perigosa, mas é a da vida”. É porque somos marcados por essa falta radical que podemos desejar... e desejar... e criar, viver.Não há receita ou fórmula. Há de se haver com o risco que isso implica: das escolhas que decorrem perdas, da dúvida perene, das falhas, das perdas dos amores que sofremos, dos rompantes angustiantes que nos atravessam em momentos que parecia tudo tão certo.É dessa condição de angustiados que podemos criar. A angústia é condição e motor criativo para a vida; e quando digo a palavra criativo, é no sentido do que cada um irá inventar para existir, gozar, com todos os limites impostos por essa falta eterna. É ser artista à forma como cada um aceita esse convite de movimento, com angústia e ainda sem garantias. A não completude é o limite, e o termômetro de “saúde” é a ação ou não frente a tudo isso que nos angustia. É nossa atitude na lida com a vida. E disso podemos desejar saber mais.