“Corra, o futuro a deusa pertence, à máquina revolte-se, não há beleza senão na luta, rompa as misteriosas portas do impossível.” Os versos do poema Experimento Futurista, do livro À Moda de 22 (Editora Patuá), se encaixam acertadamente no espetáculo homônimo da Cia. de Arte Poesia que Gira, que estreia nesta terça-feira (3), às 20 horas, no Teatro Goiânia. Em ode à Semana de Arte Moderna de 1922, a peça celebra a epifania modernista brasileira.

Com direção da atriz e diretora Fernanda Pimenta e atuação de Camila Calaça, Helissa Soares, Michael Silva e Thaise Monteiro, a peça replica os antecedentes, os acontecimentos da Semana, bem como os seus desdobramentos, iniciados na virada do século 19 para o 20, passando pelas vanguardas europeias, até chegar aos acontecimentos dos três dias em que o episódio aconteceu.

Todo o espetáculo foi inspirado no livro de poesia escrito a quatro mãos por Thaise Monteiro e Jamesson Buarque. A obra foi vencedora do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária, 100 Anos da Semana de Arte Moderna, realizado em 2018, pelo extinto Ministério da Cultura. O edital propôs seleção e premiação de obras literárias inéditas em português que abordassem, de forma livre, a temática da Semana de Arte Moderna de 1922.

“Na adaptação, foram selecionados alguns poemas do livro que servem de fio condutor para a peça e são reproduzidos em partes ou integralmente”, explica Thaise Monteiro. De acordo com a poeta, para a peça foram selecionados alguns fatos mais marcantes, curiosidades e elementos representativos da Semana. “Foi realizada uma pesquisa sobre esses acontecimentos por parte dos autores e todos os poemas do livro, assim como as cenas da peça, fazem referência a eles”, diz.

As maiores referências para a criação de À Moda de 22, além do livro e dos fatos mais marcantes da Semana, são as notícias da época, os documentos oficiais, textos de autores mais representativos, como Mário e Oswald de Andrade. A peça é baseada no View Points, especialidade da diretora Fernanda Pimenta, um método de treinamento e de criação de cenas e espetáculos, resultando em experimentos cênicos onde, a partir das sugestões e propostas dos autores, as cenas se constituem.

Acontecimentos históricos como a Primeira Guerra Mundial, a exposição da artista Anita Malfatti, o terremoto acontecido dias antes da Semana e a palestra de abertura de Graça Aranha são alguns dos episódios recontados durante espetáculo. “A peça apresenta episódios importantes, como a virada do século, com seus avanços tecnológicos, as vanguardas europeias, a consequente crítica de Monteiro Lobato à exposição, a leitura do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, a apresentação de Villa Lobos, calçado com um sapato em um dos pés e com um chinelo no outro e o Movimento Antropofágico”, explica a escritora Thaise.

Modernismo
Contemplado pelo Edital de Seleção de Projetos de Teatro, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás) e da Secretaria de Cultura do governo federal, À Moda de 22 é um dos projetos que homenageiam a Semana de Arte Moderna, que completa 100 anos em fevereiro. “Alguns elementos de literatura na contemporaneidade podem decorrer de resquícios do modernismo, como as frequentes representações de identidades. Desconfio que, na contemporaneidade, as frequentes representações de identidade são, pelo menos em parte significativa, desdobramentos de tudo isso que foi de interesse modernista”, afirma o escritor Jamesson Buarque.

Moda poética
Ao decidirem antecipar as celebrações previstas para o centenário da epifania modernista brasileira, os escritores Thaise Monteiro e Jamesson Buarque criaram o livro de poemas À Moda de 22 (Editora Patuá), publicado em 2021. Os dois poetas escreveram poemas que fazem relação com os modelos poéticos triunfantes em 1922. Ao longo da publicação, os artistas homenageiam, lembram e honram os grandes autores do período literário do País. Enquanto Jamesson Buarque é pernambucano radicado em Goiás, professor e diretor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, Thaise é nascida no Mato Grosso do Sul, radicada em Goiânia e fundou, em 2006, a Cia. de Arte Poesia que Gira, com o projeto da Bibliofuscoteca.

Ecos da Semana em Goiás
Não somente antes, mas também durante o Movimento Modernista, tanto a produção literária quanto a artística em geral em Goiás ocorria conforme perfis do País todo. De acordo com o escritor Jamesson Buarque, autor do livro À Moda de 22 e professor da Universidade Federal de Goiás, embora variavelmente e com certas peculiaridades por região, havia uma espécie de unidade estética no País. 

“Para o Modernismo chegar a Goiás, como chegar até grande parte do território brasileiro, ele teve que ser propagado como movimento, assim como teve de ser defendido a fim de gerar, como efeito, assimilação de seus princípios”, explica o pesquisador. Ainda segundo o autor, os ecos da Semana em Goiás foram reverberadas pela juventude da capital, por obra de nomes oriundos do interior e também de fora do Estado, mas neste radicados, a exemplo de Leo Lynce.

SERVIÇO
Espetáculo À Moda de 22
Data: nesta terça-feira (3), às 20 horas
Local: Teatro Goiânia, Av. Tocantins com Rua 23, Centro
Ingressos: R$ 22 (bilheteria do teatro)
Informações: 62 995034007