Uma das cenas mais dramáticas de Vidas Secas é um embate entre seres que se amam, mas que as circunstâncias colocaram em lados opostos. É o emblema da luta pela sobrevivência, dos perigos que surgem inesperadamente, dos riscos que existem sem motivos, sem explicações. “A cachorra Baleia estava para morrer.” Com essa frase simples, Graciliano insere uma tensão inigualável em sua narrativa econômica de palavras. O autor anuncia algo corriqueiro em meio a uma seca em que tantos perecem. Mas com Baleia, a cadela com nome de bicho que vive na água, será diferente.

“As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados”, continua o autor. Afinal, Fabiano não é um homem mau, suas atitudes mais extremas merecem justificativa. “Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.” Secamente, como a vida de todos ali, Graciliano narra o fim.

Em todo o livro, Baleia, assim como um papagaio que Sinhá Vitória mata para dar de comer aos filhos famintos, são construídos com traços humanos. Um artifício que iguala os seres viventes que compartilham as mesmas desgraças, as mesmas provas. Isso deixa essas cenas de Vidas Secas ainda mais poderosas. Não é um mero cão que será executado, é a Baleia. É sofrimento demais. “Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vão bulir com Baleia?”

Vão, meninos, vão bulir com Baleia sim. Vão bulir com a alegre companheira de estripulias, com a caçadora eficiente de roedores da caatinga, com a cachorrinha que ia na vanguarda por trieiros desconhecidos. E quem vai bulir é Fabiano, o pai de vocês. “A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras.” O olhar da vítima e do algoz se cruzam. Mas Fabiano não é algoz coisa alguma. É outra vítima, tal como Baleia, dessa vida severina, sem alívios na dor.

Sinhá Vitória, segurando o soluço dos filhos, dando piparotes na cabeça do mais velho para ele se aquietar, já chamara o marido de “capeta excomungado”. Não, no máximo é um pobre diabo, condenado a lidar com a morte. “Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.” Nesse momento, Graciliano faz os meninos gritarem; Graciliano faz Sinhá Vitória apegar-se à Virgem Maria; Graciliano faz Fabiano recolher-se. E Graciliano incorpora em Baleia. Agora, a cena é dela.

“Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.” E ela começa a sonhar com seus saborosos preás. E quis mordê-los. E adormeceu. E acordou. E viu o breu em seu entorno. E lembrou-se de Fabiano e da espingarda. E ofegou. E deitou-se na pedra. E lembrou-se de seus idílios. E tentou entender sua desdita. Baleia, na sombra, no sol, escondida. Baleia correndo, Baleia gritando, Baleia sofrendo, Baleia morrendo. “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano. Um Fabiano enorme.”