Ao andar pelo Centro de São Paulo, o empreendedor Facundo Guerra, 48, mantém os olhos bem abertos aos prédios antigos, espaços abandonados ou esquecidos pelo tempo. Foi dessa maneira que encontrou, por exemplo, o local onde atualmente funciona o Club Yacht, no Bixiga, o Cine Joia, na Liberdade, ou o seu mais novo negócio, o Love Cabaret, na República. Empresário, jornalista, engenheiro, professor e doutor em Ciências Políticas, Guerra participa do F+E - Formação de Empreendedores Audiovisuais, que começa nesta terça-feira (2), e segue com programação até o dia 7, na Vila Cultural Cora Coralina. Além do empreendedor, que promove uma conferência na quinta-feira (4), outros nomes participam do evento, como o secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão. Em entrevista ao POPULAR, Facundo Guerra fala sobre empreendedorismo, abandono dos Centros Históricos, crise e entretenimento. Confira.

Facundo, você participa do F+E, ligado ao mercado cultural com foco no audiovisual. O que será discutido na sua conferência?

Vou falar sobre como eu encaro os meus negócios dentro de uma narrativa maior. Como eu faço para conseguir empreender usando o caso do Love Cabaré. Como conseguir dinheiro para iniciar esses negócios. Eu sei que é voltado para o mercado do audiovisual, mas tudo é produto no final das contas. O filme tem começo, meio e fim. Depois que ele é distribuído, é negociado para plataformas. Ele se interrompe. Já um bar não necessariamente tem um ciclo mais longo, mas também tem uma interrupção em algum dado momento. E, enfim, eu vou falar sobre esses assuntos, mostrar como que eu empreendo, qual é a maneira como eu empreendo e ver se eles conseguem algumas dessas ferramentas a partir das que eu uso nos meus negócios.

Qual sua relação com Goiânia? De que forma você enxerga o mercado de entretenimento e cultura da capital goiana?

Olha, eu já fui algumas vezes a Goiânia para dar palestra pelo Sebrae, e outras para gravar meu curso. Eu gravei meu curso em Goiânia quando eu estava falando sobre empreendedorismo. Não conheço muito o mercado de entretenimento, mas sei que ele orbita muito em torno do sertanejo. Nas primeiras vezes que eu fui pra Goiânia, eu achei a cidade um pouco árida do ponto de vista estético, porque é quase a monocultura do sertanejo pra quem chega. É interessante que exista na cidade pessoas que façam outras coisas além do sertanejo, não que o sertanejo não seja interessante, mas o Fabrício Nobre me mostrou ali com o Festival Bananada um outro lado de Goiânia, que é uma resistência a essa monocultura do sertanejo que também me pareceu muito interessante. A partir daí, eu consegui ver alguns restaurantes interessantes, movimentos, cafés e me conectei com uma outra Goiânia que não é aquela óbvia do agronegócio, do sertanejo, e foi por ela que eu me apaixonei. Acho Goiânia demais.

Você tem uma perspectiva interessante sobre cultura, entretenimento e noite. O trabalho também está ligado à paixão?

Olha, o meu trabalho não está ligado à paixão. Não sou apaixonado por aquilo que eu faço, não. Aliás, eu nem gosto muito de trabalhar pra ser sincero. Não coloco o trabalho em um pedestal e me defino pelo trabalho, mas eu tenho a sorte de saber contar histórias por meio dos meus negócios, gostar de contá-las e de ser remunerado por isso. Então, eu tenho a extrema fortuna de poder fazer aquilo que eu gosto. Eu não acho que a gente deve ligar o trabalho à paixão, é uma armadilha que o capitalismo monta pra gente. Eu acredito que a gente tem de ligar a nossa paixão à família, aos amigos, à comunidade, às ligações verdadeiras. O trabalho é só um meio para você conseguir isso.

Em um Brasil de 2022, em que realizadores e produtores culturais ainda estão saindo da crise da pandemia, qual a importância de se discutir e empreender na cultura e no entretenimento?

A cultura e o entretenimento têm várias e várias razões para desistir na nossa sociedade. Eu acredito no empreender com entretenimento e acho que essas fronteiras entre entretenimento e cultura estão se apagando pouco a pouco. Antigamente, a gente achava que entretenimento era uma coisa só divertida, rápida, sem profundidade, para fins de escapismo. Já a cultura a gente coloca em uma categoria mais elevada, assim como algo também no campo da educação. E eu acho que cultura e entretenimento cada vez mais estão se misturando porque é impossível aprender algo sem se divertir no processo. Para mim, entretenimento é quase uma ferramenta, sabe? É um conjunto de ferramentas e, se você emprega eles na cultura para disseminá-la, os aprendizados ficam muito mais arraigados e poderosos. A cultura desenvolve a empatia. Você perceber a criação de outros humanos que são diferentes de você e de alguma forma acessar o mundo deles por intermédio das suas obras, sejam quais forem elas. A cultura te permite sair um pouco de si e se colocar no lugar do outro. E é uma coisa muito importante pra se viver em sociedade, você conseguir desenvolver um pouco da empatia. Sem cultura a gente não consegue ter empatia pelos outros e não consegue sair de si mesmo e também não consegue desenvolver a sua tolerância com a diferença.

Em seus projetos por São Paulo, você acaba por discutir a ocupação e reutilização de espaços fechados ou abandonados, caso, por exemplo, do Club Yacht, Lions Nightclub e do Bar dos Arcos. Como se dá o impulso em encontrar esses locais e, depois, empreender?

Na verdade, eu estou sempre tentando recontar uma história sobre São Paulo. Eu estou sempre encontrando esses lugares clássicos em São Paulo, locais que foram esquecidos ao longo dos anos e tentando recontar essas histórias. Eu brinco que eu encontro hardware antigo, que são esses espaços abandonados. Injeto o software que está falando com o espírito do tempo atual, que esteja falando com a cultura hoje. É da fusão dessas duas coisas que surge beleza.

Abandonado e esquecido, o Centro de Goiânia é o bairro mais antigo de uma cidade planejada aos moldes modernos. Apesar do cenário, jovens empreendedores têm enfrentado as problemáticas da região e ocupado as ruas do Centro Histórico, caso recente da Rua 8. Como dar visibilidade ao Centro?

O País não tem muito mais respeito pelo passado. Eu vi um Brasil que não tem muito respeito pelo passado por mais doloroso que ele seja porque eu sei que o passado brasileiro é cheio de dor e é tudo manchado pelo período da escravidão, coisas que a gente tem de lidar até hoje. É um passado que a gente tem de resolver? Espero que eu não esteja fazendo filosofia barata aqui, mas acredito que até por uma mistura de culpa e de vergonha a gente apagou o passado. Pelo menos aqui em São Paulo, os prédios mais antigos são do começo do século 20, antes disso quase não tem nada, tudo desapareceu, quatro séculos desaparecendo. É tudo muito novo e, quando você não tem essas âncoras de memória, você não consegue refletir sobre o passado e projetar um futuro. O Centro é que normalmente reflete a cidade, porque é ali que as cidades surgem. Eles sempre foram meio apagados por conta dessa corrida desenfreada para as bordas. Essa ocupação desenfreada das cidades são quase como metástases. E aí quando o aluguel fica barato o empreendedorismo criativo acaba surgindo. Você nunca vai ver empreendedorismo criativo surgindo em shopping center. A dinâmica sempre foi a mesma: Centro abandonado, aluguéis baratos e empreendedores criativos que se ocupam nesses lugares e contam novas histórias.

De que forma você enxerga os resquícios da pandemia no setor cultural e de entretenimento?

Bom, eu hoje concorro com Tinder, iFood e Netflix. Esses são os meus grandes concorrentes, eu não tenho concorrentes entre bares e restaurantes, eu nem considero os que sobreviveram concorrentes. Eu considero eles irmãos em armas. São pessoas que estão tentando sobreviver num período difícil onde está todo mundo sem dinheiro e machucado. Pelo menos em vários níveis psicológicos, com certeza. Agora estamos tentando valorizar muito o dinheiro do nosso consumidor porque a gente sabe que está cada vez mais difícil.

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