A cor não é amarela, não é um Chevrolet Camaro e não se transforma em robô para defender a Terra contra os Decepticons. Por outro lado, assim como o Bumblebee, o seu dono humano consegue conversar com a máquina. Depois de nascer dentro de um dos automóveis da frota de táxis de seu pai, Josenildo (Adélio Lima), em Caruaru, agreste pernambucano, Uno (Luciano Pedro Jr.), batizado com o nome do modelo popular que serviu de maternidade para ele, ganhou esse dom especial. Essa é a trama da ficção científica Carro Rei, de Renata Pinheiro, e que estreia nesta quinta-feira (28), no Cine Cultura.

Carro Rei, que conta no elenco com Matheus Nachtergaele que dá vida ao mecânico Zé Macaco, trata da relação entre humano e máquina, o que faz lembrar da franquia hollywoodiana Transformers, do diretor Michael Bay. As semelhanças param por aí. O cyberpunk nordestino se aproxima mais de obras como Eu, Robô (2004), Holy Motors (2012), Titane (2021) e Crimes do Futuro (2022). O longa estreou no Festival de Roterdã de 2021, na Holanda, e, desde então, tem acumulado críticas positivas e participações em mais de 30 festivais nacionais e internacionais. O título já totaliza 16 prêmios.

“Trata-se de uma fábula sobre a condição humana num mundo cada vez mais antinatural e tecnológico. Quando nossa realidade parece se tornar cada vez menos verossímil, talvez não seja de todo absurdo a possibilidade de se vislumbrar no fantástico uma forma potente de fabulação crítica da realidade. O estranho, bizarro ou improvável, e também o que desperta o riso, são os principais aspectos políticos do meu longa”, destaca a diretora sobre a obra, que no Festival de Gramado em 2021, levou cinco Kikitos, incluindo de melhor filme e também o especial do Júri para a atuação de Matheus Nachtergaele.

Som de Goiás
Outro troféu de Carro Rei em Gramado foi de melhor desenho de som, que tem um estúdio de Goiás na produção. A assinatura é do sound designer Guile Martins, paulista radicado na cidade de Goiás desde 2015. Ele é formado em Audiovisual pela ECA-USP, mestre em Arte e Cultura Visual pela Faculdade de Artes Visuais da UFG e professor no Bacharelado de Cinema do Instituto Federal de Goiás. “Foi um trabalho artesanal. Tive de encontrar soluções próximas a mim, como gravar o barulho do meu carro e os sons que estavam à minha volta”, disse ele ao POPULAR na época da premiação.

O projeto do longa surgiu em 2014 depois de uma observação da diretora. Um dia, passeando com um amigo pelo Recife, Renata percebeu que os carros são os verdadeiros donos da cidade. Ao lado dos roteiristas Sérgio Oliveira e Leo Pyrata, ela vislumbrou que aquele caos urbano poderia ser uma boa história para o cinema ao constatar um apego exagerado da população aos automóveis. Em 2015, ela ganhou o primeiro edital e rodou Carro Rei em 2019. A fotografia é assinada pelo argentino Fernando Lockett, com quem trabalha desde seu primeiro título: Amor, Plástico e Barulho, de 2013.

O filme ainda traz uma coincidência. A exemplo de Titane, produção francesa de Julia Ducournau, vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 2021, Carro Rei também conta com cenas de sexo com um carro. Na trama, Mercedes (Jules* Elting, artista trans não binária) deseja sexualmente a máquina. A semelhança pode ser explicada pelo compartilhamento do mesmo tema transhumanismo, conceito de que os humanos vão evoluir a partir da tecnologia, não mais pela biologia. Outra mensagem de Renata é sobre o meio ambiente, ligada aos danos provocados pelo uso excessivo de veículos.

Trama

O longa começa com uma mulher grávida, no banco traseiro de um táxi, que precisa dar à luz ali mesmo depois que um acidente paralisa o trânsito. Dela nasce o protagonista, que acaba ganhando o nome do carro numa espécie de homenagem. Ele cresce conectado ao veículo e acaba adquirindo a habilidade de conversar com ele, que se torna o seu melhor amigo. Os dois, no entanto, acabam separados depois que a mãe da criança morre em um acidente dentro do Uno. O menino cresce com aversão a automóveis, o que é bem complicado porque o pai dele é dono de uma empresa de táxis em Caruaru.

Uno passou mais de dez anos rejeitando o superpoder de conversar com veículos. Ele entra na faculdade de agroecologia e se afasta do negócio do pai, até que vai precisar rever sua decisão. Uma lei local impede que carros com mais de 15 anos circulem por Caruaru – todos os modelos de seu pai são antigos, o que ameaça sua empresa. Uno decide procurar o tio Zé Macaco para modificar a aparência dos automóveis para não prejudicar o negócio da família. O primeiro a passar pela transformação é exatamente o que ele nasceu e que estava abandonado desde o dia do acidente que matou sua mãe.

Além do designer totalmente futurista em que nada lembra o modelo popular, Zé Macaco, um gênio incompreendido que é vítima de humilhações constantes da população da cidade e da própria família, faz com que o veículo possa se comunicar como todas as pessoas a partir de um aparelho que ele instala no possante. O automóvel tem vontade própria e quer mais do que ajudar nos negócios da família de Uno. Suas palavras de ordem encantam cada vez mais seguidores, mas seus ideais representam um perigo real para a humanidade, o que faz lembrar a trama de Eu, Robô, protagonizada por Will Smith.

Temas importantes

Dois outros filmes entram em cartaz nesta quinta-feira no Cine Cultura e trazem discussões importantes. Virar Mar, dos cineastas Danilo Carvalho e Philipp Hartman, discute a crise hídrica. O longa, que combina documentário e ficção, é o lançamento da Sessão Vitrine, que chega nas telonas com ingressos a preços reduzidos. Alemanha e Brasil, que produzem o longa, são os cenários dessa investigação. Na região de Dithmarschen, em breve, deixará de valer a pena construir diques cada vez mais altos para tentar contrariar o aumento do nível das águas do mar. No sertão brasileiro, as secas periódicas e duradouras, são resultados das mudanças no clima.
 
Completando as estreias, o longa Rua Guaicurus, do diretor mineiro João Borges, sobre o universo da prostituição no local que dá título ao longa, que fica em Belo Horizonte. O cineasta começou o processo de pesquisa em 2016. Ele produziu, na ocasião, uma série de imagens usando uma câmera de infravermelho, registrando as trabalhadoras do sexo e seus clientes dentro dos quartos dos hotéis de prostituição. Os atores interpretam seus personagens inspirados em histórias que foram contadas durante o processo de apuração e uma das atrizes do filme é Elizabeth Miguel, que trabalhou como garota de programa naquela rua entre 2014 e 2017.

Leia também: