Você se apresenta em Goiânia depois de alguns anos. Quais são as lembranças que você tem de Goiás, sendo que uma das últimas passagens pelo Estado foi nas gravações da novela Araguaia, em 2010?

Eu tenho um carinho enorme por Goiás porque quando fiz a novela Araguaia fomos para Pirenópolis, ficamos numa fazenda linda, teve toda uma preparação, aprendi a fazer pamonha, melado e rapadura. Foi muito prazeroso. É uma região linda. Tenho boas lembranças. De teatro faz um bom tempo que não apresento uma peça e chegou a hora de matar a saudade. Estou animada demais em retornar e a coisa boa é poder viajar e encontrar públicos diferentes. A gente fica feliz de poder levar o espetáculo para além do eixo Rio-São Paulo.

Você foi uma das vozes na luta pela derrubada dos vetos às Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. Gostaria que você falasse sobre essa vitória e o que representa para a classe cultural essa batalha que foi travada na Câmara dos Deputados?

Foi uma batalha bonita. Durante a pandemia, a classe artística foi muito prejudicada, assim como vários outros setores, fomos os primeiros a parar e os últimos a voltar. Os teatros ficaram fechados até pouco tempo atrás e essas leis que surgiram foram para suportar essa falta de trabalho no período. É preciso lembrar que existem milhares de trabalhadores por trás da cultura e que só vivem disso, como camareiras, cenógrafos e técnicos. É uma indústria. Essa parada foi difícil e essas leis foram importantes para segurar a onda.

Como você avalia a gestão cultural nos últimos quatro anos?

Não existe. Essas leis culturais, por exemplo, ajudaram a fomentar a sobrevivência da nossa classe num governo que não apoia a cultura, que é claramente contra o nosso setor, não somente a cultura, mas contra a educação e a ciência. A gente vive um momento bastante estranho, difícil, uma loucura completa. Tivemos de batalhar duro por algo justo e emergencial, caso das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. Estamos na luta por direitos mínimos.

Você tem 40 anos de carreira. Ser artista hoje no Brasil está mais difícil do que quando você começou?

Sempre foi difícil, mas havia mais respeito e amorosidade pelos atores. Esse governo atual criou uma animosidade com a classe estranha, injusta e muito triste. A gente reflete o nosso tempo, diverte o público, forma e inspira. Isso vai passar porque não tem cabimento e as pessoas sabem reconhecer o valor de um trabalho bem feito, de uma peça, de um filme, de uma série. A gente não vive sem cultura porque ela é a base da nossa essência, e todo País que não valoriza a arte, não tem futuro. É grave o que estamos vivendo hoje.

 

Muitos artistas são cobrados para se posicionar nesse momento. Você costuma falar abertamente sobre questões sociais e políticas em entrevistas e nas redes sociais. O posicionamento da classe artística é um dever?

É dever cívico se posicionar, não somente da classe artística, mas de todos. Agora é a hora de falar no que você acredita e sobre diversos temas. O destino de muita gente está nas mãos de alguns. No final das contas, é a gente que paga o salário dos políticos e dos rios de dinheiro que estão sendo gastos no cartão corporativo do presidente. Precisamos aprender a dizer o que queremos e não achar normal um desmatamento recorde na Amazônia... Enfim, está na hora de acordar e tomar as rédeas do nosso futuro. Não tomar partido e concordar com o que está ruim. Isso é sério. Seria interessante a gente começar a agir como sociedade, não somente individualmente. É preciso olhar para o lado, tem gente passando fome, comendo osso. Não podemos achar isso normal. É um tremendo absurdo.